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O país que silenciosamente vem reduzindo a jornada de trabalho para quatro dias por semana

O país que silenciosamente vem reduzindo a jornada de trabalho para quatro dias por semana

A Holanda registra a menor carga horária de trabalho da Europa, mas há quem avalie que isso pode prejudicar a economia do país

Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 17:09

Imagem BBC Brasil
Gavin Arm e Bert de Wit implementaram a semana de quatro dias na empresa em 2019 Crédito: BBC

Os holandeses adotaram discretamente a jornada de trabalho de quatro dias por semana. Mas qual foi o impacto da medida e como fazê-la perdurar?

"Seus filhos só são pequenos uma vez", afirma Gavin Arm, cofundador da Positivity Branding, uma pequena empresa com sede em Amsterdã, capital holandesa.

"A maioria das pessoas, quando dirige uma empresa, se dedica totalmente e trabalha, trabalha, trabalha para tentar fazê-la dar certo. E provavelmente elas fazem isso pelos filhos", explica Arm. "Mas depois, quando elas ficam mais velhas, olham para trás e dizem 'eu perdi essa parte da vida deles', e isso é terrível. Nós não queremos ser assim."

Arm fala à reportagem no escritório aconchegante da empresa, no animado bairro De Pijp. Ao sul do centro da cidade, a região é conhecida por seus mercados movimentados, sua história boêmia e pela intensa gentrificação (processo de transformação da população local, que é substituída gradualmente por outros perfis de renda mais alta, contribuindo para a supervalorização de um bairro ou cidade e, consequentemente, para a expulsão de antigos moradores).

A empresa, fundada por ele e pelo colega Bert de Wit, presta consultoria em identidade de marca e design de embalagens.

Há sete anos, os sócios adotaram a semana de quatro dias para si e para os funcionários.

Os empregados não precisaram aceitar redução salarial nem trabalhar mais horas nos quatro dias. A carga horária semanal permanece em 32 horas, ou oito horas por dia.

"O equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho esteve no centro da decisão", afirma de Wit. Ele discorda da ideia de que os funcionários agora trabalham menos pelo mesmo salário. "Trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa."

Segundo ele, "em outros países, as pessoas passam muito tempo no trabalho, mas isso não significa que trabalhem muito. Mudar a cultura e a mentalidade é o maior desafio."

Imagem BBC Brasil
Os holandeses trabalham o menor número de horas por semana na Europa Crédito: AFP via Getty Images

A jornada de quatro dias por semana já se tornou comum na Holanda há vários anos, com a adesão inclusive de grandes empresas.

O maior sindicato do país, Netherlands Trade Union Confederation (FNV, na sigla em holandês), continua a pressionar o governo holandês para que a medida se torne uma recomendação oficial. De todo modo, os trabalhadores já têm o direito legal de solicitar redução de jornada.

"Gostamos de ter tempo para liberar a mente. Tenho minhas melhores ideias quando passeio com o meu cachorro", diz Marieke Pepers, diretora de gestão de pessoas da empresa holandesa de software Nmbrs.

Ela tira a sexta-feira de folga toda semana. "Ninguém espera nada de mim nesse dia, eu me inspiro, fico melhor e a empresa também."

Segundo Pepers, desde que a empresa adotou a semana de quatro dias, "as licenças médicas diminuíram e a retenção aumentou". No entanto, ela afirma que a proposta enfrentou resistência no início.

"Tivemos que convencer os investidores. Nossos próprios funcionários estavam céticos no começo: 'não consigo terminar meu trabalho nem em cinco dias' [foi uma das reações]", diz Pepers.

"Algumas pessoas se sentiam pressionadas. Mas precisamos ser extremamente criteriosos ao definir prioridades no nosso trabalho e reduzimos o número de reuniões."

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Marieke Pepers afirma que tem suas melhores ideias quando sai para passear com o cachorro Crédito: Marieke Pepers

A adoção discreta da semana de quatro dias na Holanda atraiu atenção internacional. Os trabalhadores holandeses cumprem, em média, 32,1 horas por semana, a menor carga horária da União Europeia, bem abaixo da média do bloco, de 36 horas.

Ao mesmo tempo, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas) per capita do país — isto é, por habitante — está entre os mais altos da Europa e figura próximo ao topo entre os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, conhecida como "clube dos países ricos"), que reúne economias desenvolvidas.

O desempenho desafia a premissa de que países ricos precisam de jornadas longas para se manter competitivos.

Mas a realidade da semana de quatro dias na Holanda é tão bem-sucedida para a economia quanto sugerem as manchetes da imprensa?

"É verdade que a Holanda tem alta produtividade e trabalha menos horas", afirma Daniela Glocker, economista responsável pela Holanda na OCDE. "Mas o que vimos nos últimos 15 anos é que ela [a produtividade] não cresceu."

Glocker acrescenta: "Então, se os holandeses quiserem manter sua qualidade de vida, terão de aumentar a produtividade ou ampliar a oferta de trabalho."

Segundo Glocker, isso significa que os trabalhadores atuais precisarão produzir mais bens e serviços por dia de trabalho ou que o país terá de ampliar o número de pessoas no mercado, possivelmente com maior imigração.

A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE: quase metade dos empregados trabalha menos que a jornada integral.

Salários mais altos e a forma como os impostos holandeses incidem sobre a faixa intermediária de renda tornam menos atraente trabalhar horas extras, levando famílias a trocar renda por tempo livre.

Uma análise do próprio governo aponta que 3 em cada 4 mulheres e 1 em cada 4 homens trabalham menos de 35 horas por semana.

Sindicatos argumentam que "um dia a menos" pode beneficiar a energia, a produtividade e a sociedade, e que normalizar a semana de quatro dias pode manter no mercado pessoas que, de outra forma, deixariam de trabalhar.

A OCDE, no entanto, alerta que esse modelo enfrenta pressões crescentes. Como a maioria dos países, a Holanda lida com o envelhecimento da população: à medida que mais pessoas se aposentam, menos permanecem na força de trabalho.

"Os holandeses são ricos e trabalham menos — mas a questão é: isso é sustentável?", questiona Nicolas Gonne, economista da OCDE. "Há um limite para o que se pode fazer com poucos trabalhadores."

"O que vemos é que a Holanda enfrenta restrições por todos os lados; a forma de aliviar isso é expandir a oferta [de trabalho]", afirma Gonne.

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Alguns economistas afirmam que mais mulheres na Holanda precisam trabalhar em tempo integral Crédito: AFP via Getty Images

Uma forma de ampliar a oferta de trabalho seria aumentar a participação de mulheres holandesas em jornadas integrais. Embora a taxa de emprego feminino seja elevada, mais da metade das mulheres no país trabalha em tempo parcial, cerca de três vezes a média da OCDE.

O acesso a creches a preços acessíveis continua sendo um entrave importante, e a elevada carga tributária sobre a renda, aliada à complexidade do sistema de benefícios, pode desestimular o aumento da jornada, especialmente entre os chamados segundos provedores de renda familiar.

Peter Hein van Mulligen, do Escritório Central de Estatísticas da Holanda (CBS, na sigla em holandês), aponta para um "conservadorismo institucionalizado" profundamente enraizado na sociedade holandesa, que atua como barreira à participação feminina.

Um estudo de 2024 apontou que 1 em cada 3 holandeses considera que mães com filhos pequenos (de até três anos) não deveriam trabalhar mais do que um dia por semana, e quase 80% afirmam que três dias semanais seriam o máximo.

Entre os pais, os percentuais são, respectivamente, 5% e 29%.

"Uma diferença considerável", observa van Mulligen.

Yvette Becker, do sindicato FNV, afirma que a semana de quatro dias pode ajudar a reduzir a desigualdade de gênero. "Há ganho de produtividade com menor absenteísmo."

De volta à Positivity Branding, de Wit afirma que a semana de quatro dias torna o emprego "mais atraente", sobretudo em setores com escassez de mão de obra, como educação e saúde.

"Pode ser uma forma de tornar essas profissões mais atrativas e elevar novamente a produtividade."

Seu sócio, Arm, resume sua visão sobre o modelo: "Você está mais feliz? Está aproveitando mais a vida? É disso que se trata".

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