Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 17:09
Os holandeses adotaram discretamente a jornada de trabalho de quatro dias por semana. Mas qual foi o impacto da medida e como fazê-la perdurar?>
"Seus filhos só são pequenos uma vez", afirma Gavin Arm, cofundador da Positivity Branding, uma pequena empresa com sede em Amsterdã, capital holandesa.>
"A maioria das pessoas, quando dirige uma empresa, se dedica totalmente e trabalha, trabalha, trabalha para tentar fazê-la dar certo. E provavelmente elas fazem isso pelos filhos", explica Arm. "Mas depois, quando elas ficam mais velhas, olham para trás e dizem 'eu perdi essa parte da vida deles', e isso é terrível. Nós não queremos ser assim.">
Arm fala à reportagem no escritório aconchegante da empresa, no animado bairro De Pijp. Ao sul do centro da cidade, a região é conhecida por seus mercados movimentados, sua história boêmia e pela intensa gentrificação (processo de transformação da população local, que é substituída gradualmente por outros perfis de renda mais alta, contribuindo para a supervalorização de um bairro ou cidade e, consequentemente, para a expulsão de antigos moradores).>
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A empresa, fundada por ele e pelo colega Bert de Wit, presta consultoria em identidade de marca e design de embalagens.>
Há sete anos, os sócios adotaram a semana de quatro dias para si e para os funcionários.>
Os empregados não precisaram aceitar redução salarial nem trabalhar mais horas nos quatro dias. A carga horária semanal permanece em 32 horas, ou oito horas por dia.>
"O equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho esteve no centro da decisão", afirma de Wit. Ele discorda da ideia de que os funcionários agora trabalham menos pelo mesmo salário. "Trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa.">
Segundo ele, "em outros países, as pessoas passam muito tempo no trabalho, mas isso não significa que trabalhem muito. Mudar a cultura e a mentalidade é o maior desafio.">
A jornada de quatro dias por semana já se tornou comum na Holanda há vários anos, com a adesão inclusive de grandes empresas.>
O maior sindicato do país, Netherlands Trade Union Confederation (FNV, na sigla em holandês), continua a pressionar o governo holandês para que a medida se torne uma recomendação oficial. De todo modo, os trabalhadores já têm o direito legal de solicitar redução de jornada.>
"Gostamos de ter tempo para liberar a mente. Tenho minhas melhores ideias quando passeio com o meu cachorro", diz Marieke Pepers, diretora de gestão de pessoas da empresa holandesa de software Nmbrs.>
Ela tira a sexta-feira de folga toda semana. "Ninguém espera nada de mim nesse dia, eu me inspiro, fico melhor e a empresa também.">
Segundo Pepers, desde que a empresa adotou a semana de quatro dias, "as licenças médicas diminuíram e a retenção aumentou". No entanto, ela afirma que a proposta enfrentou resistência no início.>
"Tivemos que convencer os investidores. Nossos próprios funcionários estavam céticos no começo: 'não consigo terminar meu trabalho nem em cinco dias' [foi uma das reações]", diz Pepers.>
"Algumas pessoas se sentiam pressionadas. Mas precisamos ser extremamente criteriosos ao definir prioridades no nosso trabalho e reduzimos o número de reuniões.">
A adoção discreta da semana de quatro dias na Holanda atraiu atenção internacional. Os trabalhadores holandeses cumprem, em média, 32,1 horas por semana, a menor carga horária da União Europeia, bem abaixo da média do bloco, de 36 horas.>
Ao mesmo tempo, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas) per capita do país — isto é, por habitante — está entre os mais altos da Europa e figura próximo ao topo entre os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, conhecida como "clube dos países ricos"), que reúne economias desenvolvidas.>
O desempenho desafia a premissa de que países ricos precisam de jornadas longas para se manter competitivos.>
Mas a realidade da semana de quatro dias na Holanda é tão bem-sucedida para a economia quanto sugerem as manchetes da imprensa?>
"É verdade que a Holanda tem alta produtividade e trabalha menos horas", afirma Daniela Glocker, economista responsável pela Holanda na OCDE. "Mas o que vimos nos últimos 15 anos é que ela [a produtividade] não cresceu.">
Glocker acrescenta: "Então, se os holandeses quiserem manter sua qualidade de vida, terão de aumentar a produtividade ou ampliar a oferta de trabalho.">
Segundo Glocker, isso significa que os trabalhadores atuais precisarão produzir mais bens e serviços por dia de trabalho ou que o país terá de ampliar o número de pessoas no mercado, possivelmente com maior imigração.>
A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE: quase metade dos empregados trabalha menos que a jornada integral.>
Salários mais altos e a forma como os impostos holandeses incidem sobre a faixa intermediária de renda tornam menos atraente trabalhar horas extras, levando famílias a trocar renda por tempo livre.>
Uma análise do próprio governo aponta que 3 em cada 4 mulheres e 1 em cada 4 homens trabalham menos de 35 horas por semana.>
Sindicatos argumentam que "um dia a menos" pode beneficiar a energia, a produtividade e a sociedade, e que normalizar a semana de quatro dias pode manter no mercado pessoas que, de outra forma, deixariam de trabalhar.>
A OCDE, no entanto, alerta que esse modelo enfrenta pressões crescentes. Como a maioria dos países, a Holanda lida com o envelhecimento da população: à medida que mais pessoas se aposentam, menos permanecem na força de trabalho.>
"Os holandeses são ricos e trabalham menos — mas a questão é: isso é sustentável?", questiona Nicolas Gonne, economista da OCDE. "Há um limite para o que se pode fazer com poucos trabalhadores.">
"O que vemos é que a Holanda enfrenta restrições por todos os lados; a forma de aliviar isso é expandir a oferta [de trabalho]", afirma Gonne.>
Uma forma de ampliar a oferta de trabalho seria aumentar a participação de mulheres holandesas em jornadas integrais. Embora a taxa de emprego feminino seja elevada, mais da metade das mulheres no país trabalha em tempo parcial, cerca de três vezes a média da OCDE.>
O acesso a creches a preços acessíveis continua sendo um entrave importante, e a elevada carga tributária sobre a renda, aliada à complexidade do sistema de benefícios, pode desestimular o aumento da jornada, especialmente entre os chamados segundos provedores de renda familiar.>
Peter Hein van Mulligen, do Escritório Central de Estatísticas da Holanda (CBS, na sigla em holandês), aponta para um "conservadorismo institucionalizado" profundamente enraizado na sociedade holandesa, que atua como barreira à participação feminina.>
Um estudo de 2024 apontou que 1 em cada 3 holandeses considera que mães com filhos pequenos (de até três anos) não deveriam trabalhar mais do que um dia por semana, e quase 80% afirmam que três dias semanais seriam o máximo.>
Entre os pais, os percentuais são, respectivamente, 5% e 29%.>
"Uma diferença considerável", observa van Mulligen.>
Yvette Becker, do sindicato FNV, afirma que a semana de quatro dias pode ajudar a reduzir a desigualdade de gênero. "Há ganho de produtividade com menor absenteísmo.">
De volta à Positivity Branding, de Wit afirma que a semana de quatro dias torna o emprego "mais atraente", sobretudo em setores com escassez de mão de obra, como educação e saúde.>
"Pode ser uma forma de tornar essas profissões mais atrativas e elevar novamente a produtividade.">
Seu sócio, Arm, resume sua visão sobre o modelo: "Você está mais feliz? Está aproveitando mais a vida? É disso que se trata".>
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