Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 11:11
Em 1986, um homem do Ártico norueguês, profundamente apaixonado pelo Japão, teve uma ideia que transformaria a forma como o mundo come sushi.>
Naquela época, a indústria norueguesa do salmão estava no auge, mas precisava abrir novos mercados. Por isso, o governo lançou o Projeto Japão, esperando aumentar as exportações de peixe para o país asiático, famoso pela sua predileção por alimentos vindos do mar.>
Mas havia um problema: os japoneses não comiam salmão cru.>
O jovem norueguês em questão era Bjørn-Eirik Olsen. Profundamente fascinado pelo Japão, ele começou a trabalhar como analista de mercado.>
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Sua paixão pela cultura japonesa começou aos 12 anos, quando viu o clássico filme de Akira Kurosawa (1910-1998) Os Sete Samurais (Shichinin no samurai), de 1954.>
Em 2018, uma enquete realizada pela BBC elegeu Os Sete Samurais como o melhor filme em língua não inglesa de todos os tempos.>
"O filme me cativou completamente e, naquele momento, decidi que queria ser como eles", contou Bjørn-Eirik ao programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC.>
Seu interesse o levou a Osaka, uma importante cidade do Japão localizada a sudoeste da capital do país, Tóquio.>
Lá, ele aprendeu o idioma e seguiu para a Universidade de Kyushu em Fukuoka, no sul do Japão, para estudar a produção e o uso das algas.>
A ideia inicial do Projeto Japão era encontrar um novo mercado para peixes como o capelim, cantarilho e o arenque, além do camarão.>
Mas, no final da década de 1980, a indústria norueguesa do salmão estava em rápido crescimento. E Bjørn-Eirik Olsen percebeu o imenso potencial desta espécie de peixe.>
"Pude observar que o segmento mais interessante do mercado japonês era o do sushi e sashimi, dominado por peixes muito valiosos como o atum vermelho e a dourada, além de vários tipos de frutos do mar", explica ele.>
O peixe servido cru no sushi e sashimi era vendido a preços até 10 vezes mais altos que para cozinhar. Se o salmão norueguês conseguisse entrar naquele segmento, seria algo transformador, mas havia um grande obstáculo.>
"Quando apresentamos pela primeira vez o salmão para sushi ou sashimi a profissionais do setor, como atacadistas ou importadores, eles disseram: 'Não, nós, japoneses, não comemos salmão cru", relembra Olsen.>
"Eles achavam que tinha cheiro de rio, que a textura não era adequada, que a cor não era suficientemente vermelha.">
Além disso, acreditava-se no Japão que o salmão selvagem do Pacífico apresentava risco de parasitas, enquanto o salmão do Atlântico, criado em cativeiro, era considerado inferior.>
Para mudar esta percepção, Olsen e sua equipe criaram um novo nome para o produto.>
Eles eliminaram a palavra japonesa para salmão, shake, e a substituíram pelo nome Noruee saamon, uma versão adaptada para o japonês de "salmão norueguês".>
Seguiram-se campanhas de marketing e colaborações com chefs renomados, como Yutaka Ishinabe, astro de um programa de cozinha de sucesso na televisão japonesa.>
Mesmo com estes esforços, o progresso foi lento, até que sobreveio a crise.>
No início da década de 1990, a produção de salmão em cativeiro na Noruega crescia muito mais rápido que os compradores da Europa e dos Estados Unidos podiam consumir. Com isso, toneladas de salmão ficaram encalhadas nos congeladores.>
Os preços despencaram, levando à falência metade dos piscicultores do país.>
"Toda a indústria do salmão corria o risco de entrar em colapso", explica Olsen.>
Desesperados para vender seus estoques, os exportadores noruegueses consideraram a venda de 12 mil toneladas de salmão para uma das maiores empresas pesqueiras do Japão, para uso na sua cozinha tradicional, não no sushi, segundo ele.>
"Se isso for permitido, eles destruirão todo o nosso trabalho para criar a nova reputação do salmão norueguês para sushi e sashimi", declarou Olsen aos seus funcionários.>
Em vez disso, ele chegou a um acordo com a empresa japonesa Nichirei para a venda de 5 mil toneladas, a serem comercializadas como salmão para sushi.>
Em 1994, com o fim do seu trabalho na comercialização do salmão norueguês para sushi, Olsen deixou Tóquio e voltou para a Noruega. Ele estava otimista sobre a consolidação do salmão no menu japonês.>
No ano seguinte, quando voltou ao Japão em visita, ele observou réplicas de niguiri de salmão, feitas de plástico, na vitrine de uma loja de sushi. >
Havia réplicas de plástico de todos os alimentos que o estabelecimento servia, sinal de que a tendência havia se estabelecido.>
"Foi ali que percebi um verdadeiro avanço, pois até as fábricas que produziam essas imitações de plástico já fabricavam niguiri de salmão", afirma Olsen.>
Mas outro evento acabaria influenciando ainda mais o consumo de salmão cru entre os japoneses.>
Depois de uma década de rápido crescimento, a bolha econômica do Japão estourou no início dos anos 1990, aumentando a popularidade dos restaurantes de sushi mais acessíveis, com correias transportadoras. >
"Na correia transportadora, enquanto o peixe circula, as crianças podem agarrá-lo facilmente", conta Olsen.>
"Elas não tinham postura negativa contra o salmão e, quando viam passar um peixe laranja ou dourado, elas pegavam. E gostavam muito.">
"O salmão norueguês praticamente se popularizou em poucos anos, graças a esta nova forma de comer", explica ele.>
Atualmente, o salmão é um dos ingredientes de sushi mais populares em todo o mundo. E a Noruega continua sendo o maior produtor de salmão por piscicultura, apesar das preocupações ambientais sobre sua indústria e do impacto para os peixes selvagens.>
Bjørn-Eirik Olsen continua viajando regularmente para o seu amado Japão e está escrevendo um livro sobre sua experiência com o salmão e o sushi, em um relato pessoal e profissional.>
"Observar a cultura japonesa se unindo com parte da norueguesa me enche de alegria.">
Ouça aqui o episódio do programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem.>
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