Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 09:11
Um clube de futebol infantil palestino na Cisjordânia (ocupada por Israel) enfrenta uma demolição iminente, apesar de uma campanha internacional para salvá-lo. Os seus apoiadores afirmam que o clube oferece uma oportunidade esportiva única para os jovens jogadores palestinos.>
No entanto, Israel insiste que o clube foi construído sem as permissões necessárias.>
Nesta terra profundamente dividida, são muitos os motivos de disputa: desde a identidade e as crenças das pessoas que vivem aqui até cada centímetro do território que pisam.>
Recentemente, isso passou a incluir um pequeno campo de futebol de grama sintética instalado à sombra do gigantesco muro de concreto que isola Israel de grande parte da Cisjordânia ocupada.>
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No contexto dos ataques de 7 de outubro de 2023, da guerra de dois anos em Gaza e da fragilidade do atual cessar-fogo, sem dúvida há problemas muito mais urgentes.>
Mas esta é uma história carregada de simbolismo, que atraiu atenção internacional desproporcional devido à conexão que tem com outra religião universal: o futebol.>
No dia da nossa visita, um grupo de crianças palestinas formava fila para cobrar pênaltis sob o sol do inverno.>
A construção do campo de futebol começou aqui, nos arredores de Belém, em 2020, e hoje oferece um local de treino para mais de 200 jovens jogadores do campo de refugiados de Aida, nas proximidades.>
As ruas estreitas e lotadas abrigam casas de descendentes de famílias palestinas que foram obrigadas a deixar seus lares ou que fugiram durante a guerra árabe-israelense de 1948.>
Em 3 de novembro de 2025, as crianças, enquanto caminhavam do campo de refugiados para o treino diário, encontraram um aviso pregado na porta do campo de futebol declarando sua ilegalidade.>
Pouco depois, o aviso foi seguido por uma ordem de demolição.>
"Não temos outro lugar para jogar", me disse Naya, de 10 anos, vestindo uma camiseta do Brasil com o nome de Neymar nas costas.>
"Aqui construímos nossos sonhos", afirmou. "Se eles demolirem nosso campo, demolirão nossos sonhos.">
Perguntei a outro jovem jogador, Mohammed, qual foi sua reação ao saber que o clube estava prestes a ser demolido.>
"Eu fiquei muito mal", me disse. "Este é um campo pelo qual tenho muito carinho".>
A comunidade reagiu, publicando vídeos nas redes sociais, lançando uma petição que já reuniu centenas de milhares de assinaturas e recebendo mensagens de apoio internacional.>
O clube afirma que, após a intervenção de um advogado, recebeu recentemente uma prorrogação de sete dias.>
Mas essa prorrogação expirou na segunda-feira (19/01), deixando a todos ali diante de uma decisão difícil.>
Como é habitual nesses casos, os proprietários do clube devem demolir o campo por conta própria ou esperar que as autoridades israelenses o façam à força, sendo que depois eles receberão a conta.>
A proximidade do muro, que percorre um dos lados do campo, é apenas uma das muitas complexidades da ocupação israelense do território que os palestinos reivindicam como base para um futuro Estado.>
Militarmente, Israel exerce controle sobre toda a Cisjordânia.>
Mas o controle administrativo, a sua governança diária, está dividido entre áreas administradas por palestinos e outras por israelenses.>
Os mapas que servem de base para essas distinções foram elaborados como parte central dos Acordos de Oslo, assinados na década de 1990 por Israel e pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP).>
A Cisjordânia foi dividida em três categorias de território.>
As Áreas A e B eram zonas sob controle civil da Autoridade Palestina (AP).>
Nas áreas marcadas como Área A, os palestinos também tinham controle de segurança nominal.>
A Área C — mais de 60% do total — deveria permanecer temporariamente sob controle total israelense.>
A ideia era que, com o tempo, o território fosse gradualmente transferido ao autogoverno palestino à medida que as negociações avançassem.>
Embora isso nunca tenha acontecido, e ambas as partes se culparam mutuamente pelo fracasso do processo de paz, os mapas continuam sendo a base de grande parte da administração atual da Cisjordânia.>
Belém está designada como Área A.>
Mas os mapas mostram que Israel exerce autoridade civil sobre a Área C em grande parte do território ao redor, até os limites da cidade.>
Israel começou a construir seu muro de concreto no início dos anos 2000, diante de uma onda de atentados suicidas e outros ataques perpetrados por palestinos, que causaram a morte de centenas de israelenses.>
Críticos afirmam que, à medida que se expandiu, o muro se tornou uma ferramenta para punir milhares de palestinos comuns, os separando de seus locais de trabalho, dividindo suas comunidades e anexando de fato partes de seu território.>
Mas o que agora está em disputa em Belém é uma pequena e estreita faixa de terreno do lado palestino do muro.>
Para os moradores do campo de Aida, que buscavam um espaço para construir um campo de futebol, era grande o suficiente para atender às suas necessidades.>
Mas, para Israel, continua sendo, e assim aparece nos mapas, parte da Área C, apesar de a construção do muro tê-lo deixado isolado no lado de Belém.>
Imagens de satélite mostram que o espaço estava vazio em 2019 e, ano após ano, é possível observar como o campo de futebol começou a tomar forma, encaixando-se perfeitamente ao lado do muro.>
A ordem de demolição alega que ele foi construído sem as permissões necessárias em um terreno sobre o qual Israel ainda exerce controle civil total.>
Para os palestinos, é irônico que lhes seja negado o direito de construir um pequeno campo de futebol na periferia de sua cidade, dentro do muro que os confina.>
Enquanto rejeita os pedidos de licença e segue demolindo construções existentes, Israel continua aprovando a construção de vastos assentamentos israelenses na Área C, considerados ilegais segundo o direito internacional.>
Em setembro passado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assinou um acordo para impulsionar um assentamento grande e altamente controverso, que abrigará 20 mil israelenses.>
Localizado entre Jerusalém Oriental ocupada e o assentamento já existente de Maale Adumim, se concluído, dividiria de fato a Cisjordânia em dois, o que, segundo os palestinos, praticamente aniquilaria suas aspirações de ter um Estado próprio.>
Israel concorda.>
"Não haverá um Estado palestino", disse Netanyahu na cerimônia de assinatura. "Este lugar nos pertence.">
Alguns de seus ministros falam abertamente sobre a anexação total da Cisjordânia.>
Em Belém, o clube de futebol, que afirma ter recebido permissão verbal em 2020 para o campo, acredita que a ameaça de demolição vai muito além da regulamentação urbana.>
"Os israelenses não querem que tenhamos qualquer esperança, não querem que tenhamos qualquer oportunidade", disse Mohammad Abu Srour, um dos membros do conselho do Centro Juvenil Aida.>
A ideia, disse Srour, é tornar a vida deles deliberadamente difícil.>
"No momento em que perdermos a esperança e as oportunidades, iremos embora. Essa é a única explicação para nós.">
Entramos em contato com o órgão israelense que administra os assuntos civis na Cisjordânia para obter comentários.>
Embora a ordem de demolição tenha sido emitida em nome deles, nos encaminharam ao Exército israelense, que supervisiona suas atividades.>
As Forças de Defesa de Israel (FDI) forneceram a seguinte declaração:>
"Ao longo da cerca de segurança, existe uma ordem de confisco e uma proibição de construção; portanto, a construção na área foi realizada ilegalmente", diz o comunicado.>
Enquanto aguardam os desdobramentos, as crianças de Aida confiam que a atenção internacional seja suficiente para fazer as autoridades mudarem de ideia.>
Mas, por enquanto, enquanto o conflito continua, o futuro de um pequeno campo de futebol está por um fio.>
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