Publicado em 26 de novembro de 2025 às 12:04
Kevin Carroll e Debbie Webber se apaixonaram na primeira vez em que se viram.>
O ano era 1967. Os dois estavam no ensino médio e eram membros do grupo de teatro das suas respectivas escolas.>
"Eu estudava em um colégio de meninos e Deb, em um colégio de meninas", contou Carroll ao programa de rádio Outlook, do Serviço Mundial da BBC.>
"E, em um teste de talentos, estávamos todos no auditório nos apresentando, quando eu disse para um amigo meu: 'Está vendo aquela menina? Vou levá-la para a festa do colégio.'">
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A reação de Webber foi parecida, segundo contou à BBC.>
"Eu estava sentada sozinha no auditório porque não conhecia nenhuma das meninas da escola que estavam no teste", ela conta. "Mas me lembro de que, quando o vi, ele me pareceu o menino mais bonito que já havia visto na vida.">
Eles não só acabaram indo juntos para a festa, como, dali em diante, passaram a querer fazer tudo na companhia um do outro.>
Eles chegaram a planejar uma fuga para uma pequena cidade no Estado americano de Maryland, onde as pessoas podiam se casar com 15 anos de idade, sem a permissão dos pais.>
Mas, duas semanas antes, a notícia de que Deb estava grávida frustrou os planos e acabou separando o casal por mais de 40 anos. Foi uma fase difícil, em que o amor de um pelo outro sempre esteve presente.>
"Antes de me casar com a minha esposa, eu disse a ela: 'Veja, realmente não acredito que, quando você diz 'eu te amo' para alguém, possa se retratar desse amor'", conta Kevin, sobre a conversa que teve com sua falecida esposa quando contou os detalhes da sua história com Deb.>
"Existe uma parte do meu coração e da minha vida que você nunca poderá ter", disse ele.>
Hoje, depois de muitas voltas da vida, Deb e Kevin estão juntos e vivem todos os dias esse amor que não conseguiram viver na juventude.>
Mas, para chegar até aqui, eles precisaram passar por uma intensa trajetória que parece obra das melhores mentes criativas de Hollywood.>
A reação dos pais de Deb à notícia da gravidez foi de total apoio. Mas era o tipo de apoio que os pais podiam oferecer às filhas naquela época, quando os valores sociais eram diferentes dos que existem hoje nos Estados Unidos.>
"Eles foram muito carinhosos, amavam Kevin, sabia que ele era um ótimo rapaz e que nos amávamos muito", contou Deb. "Mas, naquela época, tudo era muito diferente para as meninas que ficassem grávidas.">
"Foram tomadas providências para me enviar para um lar de mães solteiras, que permitia que minha mãe me buscasse nos finais de semana para sair com ela, passear e jantar.">
Nesse período, tanto Deb quanto Kevin mantinham a ilusão de que, quando ela saísse daquele local, poderiam formalizar seu amor e se dedicar a criar o bebê que estava por nascer.>
Kevin estava tão certo desta ideia que convenceu sua mãe a alistá-lo na infantaria da Marinha com 17 anos.>
"Fiquei sabendo que, se me alistasse, mesmo não estando casados, eu poderia enviar dinheiro para Deb e a Marinha ofereceria os cuidados médicos necessários para ela e o bebê", relembra ele.>
"Minha ilusão era que, quando me deixassem sair do treinamento, poderíamos nos casar.">
Mas tudo acabaria assim, na ilusão.>
Durante seu treinamento militar, Kevin recebeu uma carta de Deb, anunciando que iria entregar o bebê para adoção.>
"Recordo o sentimento", conta ele, com a voz embargada.>
"Eu estava naquele treinamento com vários marinheiros e não podia demonstrar meus sentimentos, mas meu mundo interno desmoronou.">
"Para mim, aquilo se transformou em uma grande perda", recorda ele. "Eu não culpava Deb, entendia, sabia por quê, que era o mais prático, mas foi difícil.">
Kevin estava para embarcar para o Vietnã. E, depois de terminar seu relacionamento com ele, Deb conta que ficou atormentada por pesadelos. Neles, ela abandonava seu bebê na ala do local onde ocorriam as adoções.>
Por isso, ela ficou muito aliviada quando o médico particular que a acompanhava no final da gravidez contou sobre uma família que estaria interessada no seu bebê.>
"Ele disse: 'Tenho uma família com quatro filhos e uma mãe que não pode mais ter bebês. Se você tiver uma menina, eles gostariam de adotá-la'", conta ela.>
"Isso fez com que tudo ficasse mais fácil, se é que se pode dizer isso. Fez com que eu me sentisse melhor com aquela situação.">
Deb teve uma bela menina que, segundo ela, era parecida com Kevin. Ela a entregou, sem de fato conhecer as pessoas que seriam a nova família da bebê.>
"Precisamos sair da zona do hospital", relembra ela. "Nós nos encontramos em um estacionamento, um carro se aproximou e uma mulher que me fez lembrar Jackie Kennedy saiu do carro, enquanto os meninos olhavam pela janela.">
"Minha mãe veio, pegou Val e a entregou para sua nova família", ela conta.>
Depois disso, a família de Deb vendeu sua casa e foi morar em outra região do país, onde ninguém os conhecia, para começar uma vida nova.>
Paralelamente, Kevin foi enviado como parte das Forças Especiais da Marinha americana, para combater na Guerra do Vietnã (1959-1975, com participação dos EUA a partir de 1965).>
"Meu trabalho era recuperar os pilotos que caíam em combate e, no dia 10 de outubro de 1969, fomos ao resgate de um helicóptero que transportava mantimentos", recorda ele.>
"Quando localizamos o piloto, vimos também cerca de 80 ou 90 norte-vietnamitas tentando alcançá-lo. Fui metralhado nos braços, nas pernas e nas costas e precisei usar barro de um riacho próximo para tentar evitar sangramentos.">
"Não pensei que fosse sair dali e tive uma discussão com Deus", contou Kevin à BBC, com a voz embargada.>
"Eu disse a ele: 'Não consigo acreditar que você vai me deixar morrer aqui, no meio do nada, a 30 mil km de casa, sem voltar a ver Debbie, sem ver meu bebê.'">
A resposta chegou enquanto ele perdia lentamente a consciência. Outro fuzileiro o recolheu e conseguiu evacuá-lo a tempo para tratar dos ferimentos.>
Kevin foi transportado para as Filipinas, depois para o Japão e, por fim, conseguiu regressar aos Estados Unidos, para prosseguir com o difícil e complexo processo de recuperação.>
"Eu me submeti a 18 cirurgias naquele período", relembra ele. "Desde então, tive mais 20.">
"Mas passei da cadeira de rodas para o andador, do andador para as muletas, das muletas para a bengala e nunca olhei para trás.">
Com o passar dos anos, Kevin tentou procurar Debbie, mas as limitações tecnológicas da época o deixaram com muito poucas informações sobre seu paradeiro.>
Por outro lado, Debbie fez todo o possível para tentar esquecer uma situação que, para ela, estava relacionada ao sentimento de culpa que ficou depois de entregar seu bebê.>
Debbie se casou várias vezes e teve três filhas. Já Kevin ficou viúvo e nenhum dos dois voltou a saber da filha que haviam tido juntos, tantos anos atrás.>
Com o passar dos anos, Deb chegou à conclusão de que precisava deixar sua culpa de lado. E, para começar, decidiu contar às suas outras filhas o que havia acontecido na sua juventude.>
"Era Dia das Mães", relembra ela. "Estávamos na cozinha e lhes disse: 'Tenho algo para contar: quando eu era muito jovem, tive um bebê.'">
"Expliquei a elas toda a situação e como Kevin e eu havíamos nos apaixonado.">
Uma de suas filhas tomou a iniciativa e pediu os poucos dados de que ainda se lembrava, que pudessem ajudar a encontrar a bebê.>
"Eu sabia o sobrenome, sabia que havia quatro meninos na família e a região onde eles moravam", ela conta.>
Os dados foram suficientes para que sua filha encontrasse a família que fez a adoção. E Deb escolheu um dos irmãos ao acaso para fazer contato.>
A mensagem foi respondida com uma ligação telefônica. E, do outro lado da linha, estava Val.>
"Liguei para ela às 8 horas da manhã", contou Val à BBC.>
"Naquele momento, eu já tinha amadurecido o suficiente para começar admitindo que tínhamos muito o que conversar, mas que eu reconhecia o que ela havia feito e o que havia acontecido. Que não havia rancores, de nenhum tipo.">
Para Deb, a resposta teve efeito curador.>
"Todos aqueles sentimentos de vergonha e culpa simplesmente desapareceram", afirma ela.>
Elas se conheceram naquela mesma noite e, durante o encontro, surgiu a pergunta: o que teria acontecido com Kevin?>
Elas recorreram novamente à internet e o localizaram rapidamente, graças ao obituário da sua falecida esposa. Deb decidiu, então, escrever uma carta.>
"Lamento sua perda recente e adoraria conversar sobre os tempos da escola. Espero que você esteja bem", escreveu, ela, com seu número de telefone.>
Para Kevin, receber a carta foi um milagre.>
"Nunca esquecerei o momento em que recebi aquela carta. Peguei imediatamente o telefone e disse que não conseguia acreditar que estávamos tendo aquela conversa.">
Mas a surpresa não acabou ali.>
"Eu disse: 'Tenho algo para contar'", relembra ela. "Encontrei nossa filha. Você quer conhecê-la?">
Depois de um sonoro "sim", Deb e Kevin combinaram de se encontrar na casa de Val. E, quando ambas o viram chegar, a filha recorda entre risos a reação da sua mãe biológica.>
"Ela disse 'ah, mas como ele é bonito!'">
Deb ficou reservada, enquanto Val e Kevin interagiam. Mas ela acabou percebendo que o reencontro, na verdade, era entre eles e os deixou a sós. Eles se sentaram no carro e falaram durante horas.>
Kevin relembra que, depois que contaram um ao outro tudo o que havia se passado nas suas vidas, ele confessou que nunca havia deixado de amá-la.>
Deb, emocionada, respondeu que se, em seis meses, ele continuasse sendo a pessoa maravilhosa que ela recordava e havia acabado de reencontrar, eles poderiam continuar juntos.>
"Seis meses e 14 anos depois, continua sendo incrível", conta Deb sobre o homem do qual precisou se separar por tanto tempo, mas com quem, agora, compartilha sua vida.>
Mais de 40 anos depois dos seus planos frustrados de fugir para se casarem, Kevin e Deb finalmente contraíram matrimônio. Agora que ambos estão na casa dos 70 anos de idade, sua preocupação é se manterem satisfeitos e saudáveis, juntos.>
"Somos capazes de cuidar e amar um ao outro durante esta etapa da vida. Sinceramente, não sinto falta de mais nada", conclui Deb.>
Ouça aqui o episódio do programa Outlook (em inglês), do Serviço Mundial da BBC, que deu origem a esta reportagem.>
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