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Nova ordem mundial permite que países ataquem outros 'por diversão', como disse Trump?

Nova ordem mundial permite que países ataquem outros 'por diversão', como disse Trump?

Ao anunciar que os EUA "demoliram completamente" grande parte da ilha iraniana de Kharg, o presidente americano Donald Trump acrescentou: "Podemos atingi-la mais algumas vezes, só por diversão." A declaração exemplifica como a guerra dos EUA e Israel contra o Irã está reescrevendo as regras que determinaram o comportamento entre os países desde o

Publicado em 17 de março de 2026 às 17:36

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Getty Images

O confronto entre os Estados Unidos, Israel e o Irã pode vir a ser considerado um dos primeiros conflitos importantes travados com base em uma ordem mundial emergente, na qual as regras que determinaram por décadas o comportamento dos países parecem estar perdendo parte da sua influência.

Por grande parte do período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a guerra e a diplomacia operaram formalmente dentro de uma estrutura definida pelo direito internacional e por instituições como as Nações Unidas e outras convenções.

Mesmo quando essas regras eram distorcidas ou interpretadas seletivamente, os governos geralmente tentavam justificar suas ações dentro daquele sistema. As operações militares eram tipicamente acompanhadas por argumentos legais, consultas diplomáticas ou pela formação de coalizões internacionais.

Mas, na guerra atual, estas considerações parecem ocupar espaço mais limitado.

As decisões estratégicas cada vez mais parecem ser tomadas com base em cálculos militares, políticos ou de segurança imediatos, não pela necessidade de alinhar as ações a arcabouços legais internacionais ou à aprovação multilateral.

Para o Irã, operar sob essas condições não é exatamente uma novidade.

O país vive sob extensas sanções internacionais e isolamento político há décadas. E, ao longo do tempo, Teerã desenvolveu redes e mecanismos econômicos projetados para contornar essas resoluções, sejam elas múlti ou unilaterais.

Mesmo estando sujeito a um dos regimes de sanções mais abrangentes do mundo, o Irã continua a exportar petróleo e manter sua influência regional.

Nesta cultura estratégica, a escalada, muitas vezes, foi ponderada. A reação do Irã às crises do passado tipicamente buscou elevar os custos do confronto para seus oponentes, sem despertar uma guerra regional maior.

O principal objetivo, muitas vezes, foi aumentar as pressões políticas ou econômicas sobre os adversários, até que outras partes convocassem a redução das tensões.

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'Até as guerras têm regras', relembra o aviso na Sede do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, em Genebra, na Suíça Crédito: BBC

Israel também está acostumado a operar em um ambiente onde as convenções internacionais nem sempre se traduzem em limites operacionais imediatos.

O histórico militar israelense enfatiza há muito tempo ações rápidas e decisivas, quando seus líderes acreditam que vem surgindo uma ameaça séria. Ataques preventivos e o uso de força massiva são elementos recorrentes desta técnica.

Nos últimos anos, as ações israelenses em conflitos como a guerra na Faixa de Gaza enfrentaram críticas mais fortes nos fóruns legais internacionais, incluindo o Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.

Paralelamente, Israel ainda considera que suas prioridades de segurança justificam ações militares decisivas, particularmente com a manutenção de forte apoio estratégico por parte dos Estados Unidos.

Washington encontra-se em posição diferente neste sistema.

Os Estados Unidos não foram apenas mais um participante da ordem internacional pós-1945. O país desempenhou papel fundamental na sua elaboração e manutenção.

A rede de alianças, instituições e normas legais criada após a Segunda Guerra, muitas vezes, serviu para amplificar a influência americana em todo o mundo.

O mais perto que os Estados Unidos chegaram de ignorar abertamente o sistema nas últimas décadas ocorreu durante a invasão do Iraque, em 2003. Mas, mesmo assim, Washington procurou qualificar a intervenção como parte de um esforço de coalizão mais amplo.

A chamada "coalizão dos dispostos" incluiu aliados como o Reino Unido, a Austrália e a Polônia, além de dezenas de outros governos que ofereceram variados graus de apoio.

A justificativa legal para a guerra permanece fortemente contestada até hoje, mas os Estados Unidos ainda tentaram posicionar a operação dentro de um contexto multilateral.

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Mas, no confronto atual, a ênfase na legitimidade internacional parece menos importante para todas as partes envolvidas. E as declarações das autoridades refletem um tom diferente do que costumava ser adotado.

No sábado (14/3), por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que uma série de ataques "demoliu completamente" grande parte da ilha iraniana de Kharg.

E Trump declarou à rede de TV NBC News que "podemos atingi-la mais algumas vezes, só por diversão".

Estes comentários ilustram uma abordagem mais direta e menos diplomática que as que tradicionalmente acompanhavam as principais operações militares americanas.

Nesta nova visão, instrumentos econômicos também são usados mais assertivamente como ferramentas políticas. Tarifas de importação, restrições comerciais e medidas financeiras vêm sendo cada vez mais aplicadas não apenas a rivais, mas também a parceiros de longa data.

Governos europeus, incluindo o do Reino Unido e de outros aliados da Otan, receberam críticas de Washington sobre questões que variam dos gastos com a defesa e a política de imigração até práticas comerciais e as relações com a Rússia.

Esta política pode parecer eficaz a curto prazo, especialmente se outros Estados continuarem a operar dentro das normas internacionais estabelecidas. Mas as implicações de longo prazo não mostram tanta clareza.

Se o principal arquiteto do sistema começar a depositar menos ênfase nas normas, outros governos também podem se sentir menos obrigados a respeitá-las.

O comportamento do Irã nos confrontos anteriores ilustra como seus líderes gerenciaram esses limites.

Nas crises do passado, incluindo a Guerra dos 12 Dias em 2025, Teerã respeitava, em grande parte, seus próprios limites estratégicos, mesmo respondendo militarmente.

O próprio conflito do ano passado já marcava um afastamento do arcabouço legal internacional. Ainda assim, a retaliação iraniana permaneceu ponderada.

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Quando o Irã lançou mísseis contra a Base Aérea americana de Al Udeid, no Catar, em 2025, o ataque aparentemente foi precedido por alertas informais às autoridades do Catar e dos Estados Unidos. E sinalizações similares foram observadas anteriormente, durante os ataques iranianos ao Iraque.

Mesmo depois de infligir danos significativos, a retaliação de Teerã pareceu cuidadosamente calibrada para evitar a escalada do conflito.

Mas, no confronto atual, estas restrições aparentemente se enfraqueceram.

Após a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), na primeira onda de ataques, o Irã atacou instalações americanas em toda a Península Arábica, atingindo bases militares, infraestruturas e alvos civis.

Paralelamente, as ações iranianas prejudicaram efetivamente o tráfego no Estreito de Ormuz, um dos corredores energéticos mais importantes do mundo. E as consequências foram imediatas.

Os mercados de energia reagiram fortemente e o efeito cascata da interrupção do tráfego marítimo no estreito atingiu as cadeias de fornecimento globais.

Para as empresas e os governos de todo o mundo, este episódio destacou a rapidez com que um conflito regional pode produzir choques econômicos globais quando as antigas restrições à escalada dos confrontos começam a se desvanecer.

Outras grandes potências provavelmente tirarão suas próprias conclusões desses desenvolvimentos.

A Rússia pode se beneficiar do aumento dos preços de energia, enquanto a pressão das sanções a Moscou é reduzida, apesar da oposição da União Europeia. Já a China, provavelmente, irá observar cuidadosamente até onde as normas internacionais podem se alterar e em quais direções.

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Atualmente, a influência da Europa sobre a direção dos eventos parece limitada. Apesar dos esforços diplomáticos, a União Europeia e o Reino Unido, em grande parte, apenas observa, sem definir os desenvolvimentos.

A questão mais ampla levantada pela guerra no Oriente Médio vai além do resultado de um conflito isolado. Ela se refere à permanência do sistema internacional que define as relações e a política global desde 1945.

Embora nunca tenha sido aceito universalmente e, muitas vezes, fosse contestado, o sistema fornecia uma estrutura de exercício de poder.

Se esta estrutura continuar a se enfraquecer, o resultado pode ser um ambiente internacional menos previsível, com os Estados dependendo menos de regras comuns e mais da sua própria capacidade.

E, neste cenário, mesmo os países que projetaram originalmente o sistema poderão ver sua erosão causar consequências que dificilmente seriam previstas.

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