Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 07:09
Há oito anos o carioca Rafael Cosme percorre feiras de antiguidades e antiquários garimpando negativos, slides, cromos e fotografias de brasileiros anônimos.>
Banhistas posando na praia do Flamengo. Jovens celebrando o Réveillon de 1977. Uma chuva de papel picado, do alto de um prédio, em celebração ao primeiro título mundial de futebol do Brasil, campeão na Copa de 1958.>
São registros feitos por amadores em um tempo em que nem todo mundo tinha câmera e cliques eram raros se comparados à vida digital contemporânea. Cenas que teriam se perdido, não fosse o trabalho de resgate feito pelo artista visual, que tem 41 anos. >
Um passeio pelo seu acervo, que já soma cerca de 300 mil imagens, é como um percurso voyeur pelo cotidiano do Brasil — em especial do Rio, mas também de outras localidades — do final do século 19 até o advento da fotografia digital.>
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Quando pensa sobre os grandes fotógrafos que registram o Rio antigo, como Marc Ferrez (1843-1922) e Augusto Malta (1864-1957), e os compara com esses retratos feitos por amadores, Cosme filosofa: as imagens de profissionais costumam ser "de cima", cenas amplas, panorâmicas. Já a gente comum tinha o ponto de vista íntimo, de quem fazia parte da paisagem.>
"São cenas de quem estava na praia. Considero isso igualmente monumental", comenta ele.>
Graduado em jornalismo e em cinema, Rafael Cosme não estava em busca de fotografias quando acabou mergulhando nesse trabalho de arqueologia de fotos antigas — ele chama de "resgate de fotografia vernacular".>
Há mais de dez anos, ele estava estudando a história do Rio de Janeiro por meio de personagens populares, buscando entender como era o dia a dia da República Velha, ou seja, o período que vai de 1890 a 1930. >
Vivia lendo os jornais antigos na hemeroteca do Arquivo Nacional. "Então comecei a frequentar a feira [de antiguidades] da Praça Quinze de Novembro em busca de fragmentos da cidade", conta.>
"Fotografia não era algo que me interessava, até que vi uma caixa de Kodachrome de uma mãe e de uma filha na praia de Copacabana. Eram retratos lindíssimos dos anos 1950. Bati o olho e tive a certeza de que seria dessa forma o meu mergulho na história", diz Cosme.>
Ele pagou cerca de 10 reais pelo conjunto.>
Icônico e hoje cult, Kodachrome é um filme lançado pela Kodak em 1935 que ficou famoso pelas cores vibrantes e pelo contraste marcante. Por décadas, foi o preferido por muitos profissionais da fotografia e do cinema.>
A partir desse pequeno acervo comprado na Praça 15, a vida de Rafael Cosme se transformou. Ele se tornou frequentador assíduo de feiras de antiguidades do Rio e de São Paulo e garimpeiro inveterado de antiquários. >
Catadores de lixo também o conhecem. "É comum que eu acorde com mensagens no WhatsApp às 5h de alguém dizendo que encontrou negativos no lixo", diz.>
Cosme argumenta que o valor dessas fotos é algo "extremamente subjetivo". >
"Antes de eu começar a comprar, era algo tratado como peso morto pelos catadores. Era muito comum ouvir 'eu tinha tanto disso, ninguém nunca comprou, eu me desfiz'", comenta. >
"Mas já gastei de poucos reais a mais de mil em um único conjunto.">
Ele adquiriu um escaner que digitaliza negativos e passou a organizar as imagens de uma forma particular. >
Montou um ateliê na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. É ali que trabalha diariamente. Preocupa-se em registrar, junto às fotos, todas as informações que encontra nos envelopes com os negativos. Datas, eventuais nomes, marca do filme e do laboratório. Tudo é registrado. >
E, claro, cuidadosamente faz a ampliação digital das fotos.>
Como também marca os temas, ele consegue hoje reunir narrativas sobre assuntos específicos. Daí saem as histórias mais saborosas desse Rio antigo. Por exemplo, as cenas de banhistas na praia do Flamengo ou os icônicos salva-vidas que atuavam em Copacabana nos anos 1950.>
Uma da sequências mais bonitas é a do Revéillon de 1977. Em oito fotos em preto e branco, há a imagem de um bolo com as velinhas aludindo ao novo ano. Depois, adolescentes festejam e, por fim, a comemoração termina na areia da praia.>
Não faltam belas fotos de carnaval. "Costumo dizer que não existe um acervo carioca que não tenha fotografia de carnaval. É das certezas da vida", define.>
Faz sentido. Em tempos de raras e caras fotografias, era comum que as famílias quisessem registrar apenas os momentos festivos. E a festa do Carnaval, com as fantasias, era algo que merecia ser eternizada no álbum, ao lado da comemoração de aniversário, das férias de verão e dos festejos de fim de ano.>
Cosme publica algumas das fotos encontradas em sua conta no Instagram (@villlalobos), e as interações com pessoas que reconhecem as cenas, os lugares e os momentos do passado têm sido recorrentes.>
Uma dessas trocas foi particularmente marcante para Cosme. A foto, compartilhada em 2020, era um registro típico de Carnaval. Datada de 1975, mostrava um menino sem camisa observando a porta-bandeira da escola Acadêmicos do Salgueiro em frente à Igreja de Nossa Senhora da Candelária, no centro do Rio.>
Eduardo Simão Pinto se deparou por acaso com a imagem, se reconheceu nela e ficou emocionado com o resgate de uma foto que ele nem sequer sabia haver existido.>
"Foi uma surpresa", conta ele, que hoje tem 60 anos, é agente de viagens e atua como diretor cultural da própria Salgueiro. "Era o final do desfile.">
Pinto identificou sua mãe como a mulher que está ao fundo, meio tapada pelo homem de camisa listrada. "Reconheci pelos pés." Persistente participante do carnaval da Salgueiro, Iracema Pinto havia morrido poucos meses antes da descoberta de Rafael Cosme ter sido publicada no Instagram.>
Eduardo Pinto comenta que ficou uma "bela recordação" de uma época em que "eu tenho pouquíssimas fotos". "Foi muito gratificante. Muito emocionante me encontrar nesses registros", diz.>
Também há cenas ligadas ao mundo do futebol. Chama a atenção uma sequência de seis imagens feitas no dia 29 de junho de 1958, quando a seleção brasileira ganhou de 5 a 2 da Suécia e se sagrou, pela primeira vez, campeã mundial de futebol.>
O olhar treinado de Rafael Cosme logo viu que havia uma preciosidade no conjunto que ele comprou de um catador com fotos tiradas no Edifício Barão da Laguna, condomínio inaugurado em 1950 na praia do Flamengo.>
"O país inteiro que ouvia pelo rádio vibrou, se mobilizou, foi para as janelas de suas casas para comemorar", imagina Cosme. As pessoas jogavam papel picado, faziam uma chuva bonita para festejar.>
"As mãos jogando o papel, as pessoas na janela. Não tem como medir a importância desse documento: alguém com a câmera fotográfica decidiu fotografar as mãos jogando papeizinhos, depois desceu à rua e fotografou aquele tapete de papel picado", diz o pesquisador. "Há uma dimensão profunda nesse tipo de registro.">
Afinal, como ele reflete, houve uma intensa cobertura dos festejos, com fotógrafos profissionais espalhados pela cidade. Mas a poesia de uma celebração anônima como esta é única. "E aquilo estava indo para o lixo", afirma.>
Rafael Cosme hoje vive desse trabalho de resgate. Ele diz que comercializa as fotos ampliadas — embora sempre mantenha o negativo e a digitalização em seu acervo. Também organiza exposições e vende a experiência do mergulho no cotidiano antigo do Rio na plataforma Airbnb.>
Acredita que há um caminho "natural" para que sua coleção, no futuro, seja abarcada por alguma instituição museológica. "Há já conversas nesse sentido, com entidades brasileiras e internacionais", comenta.>
Na hora de se definir, fica a interrogação. Aquele jovem que cursou jornalismo e cinema se tornou o quê, afinal? "Pesquisador, historiador, arquivista, artista também… Hoje em dia eu aceito que tem uma linguagem híbrida dentro desse trabalho, mas eu costumo me apresentar como… Não sei mais… Curador? Artista? Curador de imagens? Pesquisador, curador. Artista visual.">
"Tudo parte de uma sensibilidade", diz. "É uma contribuição que eu dou. Eu organizo e entrego. Acho isso muito bonito.">
Em texto preparado por ele mesmo para apresentar seu trabalho, diz que seu acervo compõe "um vasto mapeamento do imaginário fotográfico brasileiro" e que ele "opera entre a arqueologia e a fabulação". >
"Ao digitalizar e reunir essas imagens em séries e montagens, propõe novas leituras visuais para o Brasil, a partir de fragmentos do cotidiano", apresenta.>
Cosme, assim, organiza uma iconografia não oficial. O que ele faz é deslocar o eixo da memória visual do Rio e do país. Em vez dos nomes consagrados da fotografia, destaca o olhar íntimo e intimista, anônimo e anonimizado, um tanto voyeur e muitas vezes desastrado dos fotógrafos amadores.>
"É um trabalho muito grande para não ser feito.">
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