Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 16:11
O ataque de 18 de dezembro de 2025 precedeu a ordem presidencial. >
Naquela tarde, guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional atacaram com drones um batalhão do exército colombiano no departamento de Cesar. Sete soldados morreram e mais de 30 ficaram feridos. >
No dia seguinte, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ordenou a compra imediata de sistemas antidrone para todo o país. >
Menos de um mês depois, o ministro da Defesa colombiano, Pedro Sánchez, anunciou, em meados de janeiro, a implementação do Projeto Escudo Nacional Antridrone, com um orçamento inicial de US$ 1,68 bilhão.>
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O ministério afirmou que esta é "a estratégia de defesa do espaço aéreo mais ambiciosa e ousada" para proteger civis e agentes da lei "do uso de drones por grupos armados ilegais".>
Laura Bonilla, diretora da Fundação Paz e Reconciliação, afirma que não existe projeto similar na América Latina, embora se mostre cética quanto à sua adequação como resposta às ameaças de grupos armados na Colômbia. >
Vladimir Rodríguez, ex-diretor de Tecnologia e Resposta a Incidentes Cibernéticos do Ministério da Defesa durante parte do governo Petro, também mostrou reservas quanto ao custo e à utilidade do projeto.>
Nos últimos tempos, ataques com drones de facções armadas se repetem no país a cada poucas semanas.>
Somente entre abril de 2024 e 18 de dezembro de 2025, o exército contabilizou 393 ataques deste tipo. >
Bonilla explica que o uso de drones por grupos armados é uma tendência recente que se consolidou rapidamente. >
Na fronteira entre Colômbia e Venezuela, no nordeste colombiano, principalmente na região de Catatumbo, os drones são usados por guerrilhas como as dissidências do Frente 33 das Farc e o ELN. >
Em Cauca, outros grupos dissidentes também estão intensificando seu uso. >
Segundo as pesquisas de Bonilla e sua equipe, os grupos muitas vezes adquirem os drones pela internet e em seguida os adaptam para uso militar. >
"São as novas armas não convencionais das guerrilhas; baratas e fáceis de se conseguir. Os drones de hoje são as bombas de gás do passado", diz a analista. >
Bonilla acrescenta que as guerrilhas recrutam "operadores de drones", pessoas que sabem como manuseá-los, ou simplesmente seguem tutoriais no YouTube.>
"Não é complicado de operar", afirma a especialista, acrescentando que os grupos também utilizam os drones para vigiar e controlar os territórios. >
O exército da Colômbia apresentou seu primeiro batalhão de drones no início de outubro. >
Em uma base militar em Tolemaida, no centro do país, militares exibiram um grupo de drones equipados com inteligência artificial e capazes de atacar grupos armados pelo ar.>
Com designs semelhantes a aviões ou com hélices como as de helicópteros, essas aeronaves podem identificar rostos, rastrear veículos e algumas podem voar até 45 quilômetros, segundo informou a agência AFP.>
Em um discurso no final de 2025, Petro afirmou que a guerra na Colômbia era agora uma "guerra de drones e antidrones". >
Na mesma declaração, o presidente resumiu que os ataques com esses artefatos haviam deixado até então pelo menos 58 mortos e 200 feridos no exército, e que a vantagem aérea, antes detida pelas forças armadas, agora pertencia aos narcotraficantes. >
Petro vincula vários dos grupos armados ativos ao tráfico de drogas e disse que insiste há três anos na aquisição de armas antidrones.>
Seu pedido começa a tomar forma quase seis meses antes do fim de seu mandato presidencial.>
O ministro Sánchez esclareceu que o objetivo do projeto é garantir o controle do espaço aéreo, salvar vidas e se antecipar a novas ameaças.>
Agora, resta definir, primeiro, que empresa e de qual estado será adquirida a tecnologia, para depois treinar a equipe para usá-la e testá-la em território colombiano. >
Rodríguez, ex-diretor de Tecnologia do Ministério da Defesa, explica que um escudo antidrone funciona como "uma rede de detecção, controle e neutralização de drones, normalmente por meio de radares, sinais de rádio e outros sensores". >
"Essa rede possui camads de defesa que protegem militares, perímetros e infraestrutura essencial contra esse tipo de drone", acrescenta. >
Trata-se de uma proteção já utilizada por forças armadas como a dos Estados Unidos, Israel e alguns países na África, Ásia e União Europeia, mas que, até então, não havia sido anunciada como um projeto nacional na América Latina. >
Tanto Bonilla quanto Rodríguez explicam que esse escudo parece priorizar a defesa de infraestruturas fundamentais, como o Instituto Nacional da Indústria Militar, onde são produzidas armas; a Casa Nariño do governo, refinarias de petróleo ou passagens militares, por exemplo.>
"Adquirir essa tecnologia para esse tipo de proteção é necessário. Todos os países podem estar sujeitos a ataques específicos, mas eu não acredito que algo assim seja o que está acontecendo na regiões colombianas onde as ofensivas com drones são mais frequentes", diz a analista.>
Rodríguez compartilha das dúvidas de Bonilla se um escudo nacional antidrones é a forma mais eficaz de enfrentar essa ameaça dos grupos armados. >
Ele acredita que se trata de um investimento que não reflete uma análise precisa do conflito atual na Colômbia. >
"Temo que seja um desperdício de dinheiro em uma tecnologia que logo se tornará obsoleta.">
"Os grupos armados se transformam constantemente. Um escudo desse tipo é pensado mais para conflitos como o de Israel, não contra tropas irregulares em constante movimento que praticam guerrilha", explica.>
Bonilla se pergunta como a ciência poderá se adaptar às condições geográficas acidentadas e remotas da Colômbia. "Poucas tecnologias militares disponíveis são eficazes em zonas como a Amazônia.">
Os dois especialistas questionam, ainda, se não seria mais lógico alocar o investimento, ou parte dele, para melhorar o sistema de comunicações do exército ou reduzir o acesso de grupos armados a esses dispositivos. >
"Penso que pode ser feito mais para restringir a compra de drones convencionais na Amazônia ou por meio da China", explica Bonilla.>
O projeto do escudo antridrone está em fase embrionária e ainda há perguntas a serem respondidas para convencer toda a população. >
O que está claro é que as forças armadas da Colômbia têm acelerado sua modernização nos últimos tempos. >
Em novembro, o governo colombiano assinou um acordo com a Suécia para adquirir 17 novos caças Gripen por aproximadamente US$ 4,5 bilhões. >
Petro afirmou que essa aquisição serviria como um "fator de dissuasão" e era "importante" para acabar com a violência na Colômbia, que tem "raízes profundas em economias ilícitas, ouro, cocaína e muito mais".>
O presidente colombiano chegou ao governo prometendo paz total, cessar-fogo e negociações para colocar fim a conflitos. >
Mas, diante do fortalecimento de grupos armados e de múltiplas crises de segurança, Petro adotou uma abordagem mais confrontativa.>
Seu governo realizou controversos ataques aéreos que mataram dezenas de menores, adquiriu bilhões de dólares em novos armamentos militares e proferiu discursos veementes contra a guerrilha.>
Essa estratégia de "cenoura e porrete" tornou-se sinônimo de seu governo e será julgada pelos colombianos, juntamente com outras políticas, nas próximas eleições de maio, nas quais o movimento político de Petro luta para se manter no poder.>
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