Publicado em 20 de novembro de 2025 às 06:44
Em 1981, cartazes espalhados pelo Recife anunciando uma missa foram vandalizados. >
Havia no ar o temor de que a Igreja do Carmo, na capital pernambucana, fosse intencionalmente explodida.>
Até mesmo o Vaticano se colocou contra a missa.>
Afinal, como um evento religioso conseguiu se tornou tão polêmico?>
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Durante a ditadura militar (1964-1985), na noite de 22 de novembro de 1981, a chamada Missa dos Quilombos reuniu católicos progressistas, o cantor Milton Nascimento e o poeta e político de esquerda Pedro Tierra no mesmo lugar onde a cabeça do líder quilombola Zumbi dos Palmares foi exibida depois de sua execução, em 20 de novembro de 1695 — 330 anos atrás.>
A missa foi o primeiro grande evento público para celebrar a Consciência Negra, contribuindo para que se tornasse feriado nacional. >
Artisticamente, teve poesia e música de alta qualidade. >
Religiosamente, era uma celebração católica — contudo, incorporando referências afro, de uma maneira que ainda não era plenamente aceita pelo Vaticano naquela época. >
Politicamente, foi uma afronta: denunciava as consequências sociais da escravidão e escancarava preconceitos, além de exaltar a luta quilombola.>
"Ao denunciar a existência do racismo no Brasil, a Missa dos Quilombos afrontava o discurso oficial do regime militar sustentado no mito da democracia racial", explica à BBC News Brasil o historiador Petrônio Domingues, professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS). >
"Além disso, a afronta era intensificada com a presença de um ex-membro Ação Libertadora Nacional [principal organização de luta armada contra a ditadura, atuou de 1968 a 1974] e ex-preso político do governo ditatorial como um dos seus coautores, no caso o poeta Pedro Tierra.">
Cerca de 6 mil pessoas se apinharam no Pátio do Carmo, no centro da capital pernambucana, para acompanhar a missa. O evento teve repercussão nacional.>
"Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. […] Problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos, com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões", recitou o então arcebispo de Recife, Hélder Câmara (1909-1999).>
Perseguido pela ditadura e chamado pejorativamente de "comunista de batina" e "bispo vermelho", Câmara cobrou que a Igreja Católica não ficasse apenas "em palavra" — partindo para a ação.>
"Claro que dirão […] que é política, que é subversão, que é comunismo", disse o arcebispo, defendendo que seguia o evangelho de Cristo.>
Segundo o sociólogo Charlisson Silva de Andrade, também professor na UFS, há documentos confidenciais da época, hoje disponibilizados pelo Arquivo Nacional, com evidências de que o evento em Recife e seus organizadores foram monitorados pelos militares.>
A ideia da celebração começou a ser desenvolvida dois anos antes por dois religiosos que estavam entre os principais nomes da Teologia da Libertação no Brasil: Hélder Câmara e seu colega Pedro Casaldáliga (1928-2020), bispo de São Félix do Araguaia (MT).>
Corrente cristã surgida entre os anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação incomodava por conta de sua interpretação do evangelho como resposta à pobreza e a injustiça social — a partir da ótica dos oprimidos e promovendo luta por justiça social e dignidade humana. >
O movimento sempre foi visto como "de esquerda" e, não raras vezes, motivo de controvérsia até mesmo dentro da Igreja Católica.>
Os dois religiosos convidaram o já renomado Milton Nascimento para a empreitada. >
"Prontamente, Milton aceitou o convite, motivado pela admiração que já nutria pelo trabalho pastoral e poético de Casaldáliga e pela temática centrada no negro", afirma Domingues. >
"Ou seja, a conjunção entre antirracismo e ressignificação do cristianismo num viés progressista animaram o cantor e compositor.">
A ideia seria que Casaldáliga compusesse as letras dos cânticos e o texto-base para a missa. Ao artista, caberia a composição musical. >
"Modéstia à parte, vamos fazer a melhor coisa do mundo", escreveu Milton Nascimento ao bispo, na época. >
Em seguida, uniu-se ao projeto o poeta goiano Pedro Tierra, pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva, que havia sido preso pela ditadura no início dos anos 1970.>
Naquele momento, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) vinha defendendo trazer a Igreja Católica para o debate racial. >
A CNBB incentivava padres a abordarem questões como preconceito racial em suas paróquias e comunidades e esteve entre os apoiadores da formação do Movimento da União e Consciência Negra, núcleo de religiosos e leigos negros que militavam no então incipiente movimento negro brasileiro.>
Durante a ditadura, a CNBB foi um dos organismos da sociedade civil que se colocaram como resistência ao regime ditatorial, sobretudo pela influência de nomes como Hélder Câmara e o cardeal arcebispo Paulo Evaristo Arns (1921-2016), entre outros. >
Ainda em 1980, ficou definido que a missa seria celebrada por José Maria Pires (1919-2017), bispo da Paraíba e naquela época o único bispo negro do país — quando morreu, aos 98 anos, era o bispo mais idoso dentre os que viviam no Brasil. >
Na celebração, ele usou uma batina especial, com cores e motivos africanos. >
Antes apelidado de "dom Pelé", tomou para si a alcunha de "dom Zumbi" depois desse projeto — demonstrando seu vínculo com a causa negra.>
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O evento levaria ainda um ano para sair do papel, em grande parte por conta da agenda atribulada de Milton.>
Em um artigo acadêmico publicado este ano na revista Afro-Ásia, os pesquisadores Petrônio Domingues e Charlisson Silva de Andrade afirmaram que Milton, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra compuseram a missa a partir de uma pesquisa sobre a escravidão.>
O objetivo deles foi criar um "poema litúrgico" sobre a "ambivalência (tragédia e esperança) que constitui o 'martírio' do povo negro na América", dizem os pesquisadores.>
À Folha de S. Paulo, alguns dias antes da missa, Casaldáliga declarou que a Igreja Católica havia participado da escravidão — não só como cúmplice, mas também como instituição proprietária de pessoas escravizadas. >
Na véspera do evento, cinco mil cartazes divulgando o evento foram espalhados por Recife. >
O símbolo do projeto aparecia neles: era um mão negra segurando uma cruz, sobre um fundo vermelho. >
Conforme apontam os pesquisadores Domingues e Andrade, muitos deles foram vandalizados por opositores da missa. >
Com spray de tinta preta, a cruz foi transformada em foice, em uma referência ao símbolo comumente usado por comunistas.>
Segundo o artigo, o núcleo de opositores do evento era formado por membros do Comando de Caça ao Comunistas (CCC), organização de direita radical que atuava no país. >
Na época, houve relatos de que críticos ao evento planejavam explodir a Igreja do Carmo na véspera da celebração — o que é hoje endossado por pesquisadores. >
Em um documentário produzido em 2009 pela Universidade Católica de Pernambuco, o próprio Milton Nascimento relatou que houve ameaças de bomba.>
Fotos publicadas em jornais da época também mostram muros pichados com frases como "Abaixo a Missa Vermelha" e "Cristo sim, Casaldáliga não".>
O bispo José Maria Pires criticou, na homilia, a ausência de pessoas negras em cargos decisórios, inclusive no comando da Igreja Católica. >
Em 90 minutos da celebração, houve a apresentação de 11 canções de cunho litúrgico, todas cantadas por Milton Nascimento e um coro de 15 pessoas de Minas Gerais, formado por ele.>
Milton participou da composição da maioria dessas faixas, com exceção daquelas de tradição popular, com origem no folclore afrobrasileiro e na cultura do povo caiapó.>
A temática social perpassa todo o repertório. >
Em A de Ó (Estamos Chegando), por exemplo, canta-se que "dos novos Palmares nós somos, viemos lutar". >
Na canção Ofertório, dedicada a esse momento específico de uma missa, entoa-se: "Com a força dos braços lavramos a terra, cortamos a cana, amarga doçura na mesa dos brancos." >
"Cavamos a terra, colhemos o ouro que hoje recobre a igreja dos brancos.">
"Plantamos na terra o negro café, perene alimento do lucro dos branco.". >
Em Nome do Deus lembra que Jesus "nasceu moreno" e evoca Xangô, orixá considerado responsável pela justiça na espiritualidade iorubá.>
Não há relatos de violência durante a celebração, apesar do clima de tensão política. >
Segundo o jornal Diário de Pernambuco registrou, houve distribuição de panfletos difamando os religiosos Câmara e Pires durante a missa.>
"A Missa dos Quilombos aconteceu em um dos momentos mais delicados da ditadura militar, no início dos anos 1980, quando o regime ainda mantinha vigilância e censura, mesmo sob o discurso de abertura", contextualiza à BBC News Brasil o escritor e palestrante Alê Garcia, autor do livro Negros Gigantes. >
Depois, Milton Nascimento transformaria o projeto em disco. >
Missa dos Quilombos, o álbum, foi gravado em março de 1982. >
O repertório trazia as músicas da celebração de 1981. >
Mas tudo foi gravado em outra ocasião: ao vivo na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Santuário do Caraça, cidade de Catas Alta (MG). >
Algumas locuções incluídas na gravação, como a oração Invocação à Mariama, de Câmara, foram recuperadas do evento original.>
Dentro da Igreja Católica, o evento seguia sendo visto como algo "de inspiração marxista" e era alvo de dissenso interno. >
Em julho de 1982, tornou-se pública a notícia de que o Vaticano enviou duas cartas à CNBB reprovando a iniciativa — tudo indica que após o evento ocorrer. >
Assinadas pelo então prefeito da Congregação para o Culto Divino, o mais tarde cardeal Giuseppe Casoria (1908-2001), as reprimendas enfatizavam que era inconcebível que uma missa incluísse reivindicações de qualquer "grupo humano ou racial". >
A Congregação para o Culto Divino, atualmente chamada de Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, é uma das pastas da cúpula do Vaticano. >
Cada um desses órgãos é incumbido de zelar por uma questão da Igreja — no caso deste, é responsável por garantir que a liturgia seja respeitada. >
Cada dicastério tem um prefeito, nomeado diretamente pelo papa.>
A missiva oficial assinada por Casoria determinava que a CNBB se encarregasse de não mais permitir no futuro "atos semelhantes à chamada Missa dos Quilombos".>
"A missa denunciava o passado escravista do Brasil como pecado histórico e fazia a memória dos povos africanos como memória martirial, algo incomum na liturgia oficial até então", analisa o escritor e músico Rafael Senra, professor na Universidade Federal do Amapá (Unifap).>
"Para setores conservadores, isso politizava a eucaristia, transformando a liturgia em ato ideológico. O uso de tambores, expressões corporais e elementos da cultura afro-brasileira foi visto por críticas conservadoras como sincretismo impróprio e desvio litúrgico">
O professor avalia que o evento assumiu um posicionamento claro: "a opção preferencial pelos pobres e contra a opressão racial". >
"Isso trouxe a missa diretamente para o centro da disputa ideológica", contextualiza.>
Cabe ressaltar que o entendimento da cúpula católica mudou sobre esse tipo de celebração. Desde o Segundo Concílio Vaticano (1962 a 1965), passou a haver uma maior abertura à incorporação de realidades locais ou regionais às práticas católicas.>
Com o pontificado de Francisco (1936-2025), isso foi ainda mais incentivado — o que tornou-se nítido no Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizado em 2018 no Vaticano, no qual muitos elementos indígenas fizeram parte dos ritos litúrgicos.>
Ainda não há posicionamentos explícitos do Papa Leão 14 sobre essa questão, mas é de se esperar uma postura semelhante à de Francisco, em parte pela sua experiência pastoral, tendo vivido 40 anos no Peru.>
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A Missa dos Quilombos chegou a ter outras apresentações e adaptações. >
A mais relevante delas foi a de 1995, para celebrar os 300 anos da morte de Zumbi. Participaram 20 mil pessoas. >
Foi a única vez que ela foi realizada dentro de um templo católico — e não em uma igreja comum, mas sim no Santuário Nacional de Aparecida, a basílica mais importante do país.>
Na ocasião, o evento religioso encerrou uma caminhada política de dez dias organizada pelo sindicalista Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, então presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). >
Os participantes caminharam por 227 km, buscando atrair a atenção para a existência de trabalho análogo à escravidão no Brasil contemporâneo. >
Milton Nascimento, claro, repetiu sua participação.>
Para os entrevistados, a missa de 1981 contribuiu para consolidar o Dia da Consciência Negra no 20 de novembro.>
A ideia de celebrar a data veio do Grupo Palmares, movimento negro de Porto Alegre, no início dos anos 1970. >
Em 1978, o então Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial incorporou a efeméride. Foi quando o 20 de novembro passou a ganhar capilaridade nacional.>
"Um evento de grande proporção e de repercussão nacional, como foi a Missa dos Quilombos, foi fundamental para a ascensão da celebração na memória do povo brasileiro", comenta o sociólogo Charlisson Silva de Andrade.>
Dois anos atrás, em 2023, o Dia da Consciência Negra se tornou feriado nacional. >
"A Missa [dos Quilombos] não foi a origem da [instituição da] data, mas foi determinante para projetá-la e consolidá-la no debate público", concorda o escritor Alê Garcia.>
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