Publicado em 13 de junho de 2020 às 18:34
Em meio à crescente tensão com os militares americanos, o presidente Donald Trump fez o discurso de formatura na academia militar de West Point neste sábado (13). >
Mais de 1.100 cadetes de West Point, localizada 66 km ao norte de Nova York, foram obrigados a retornar à academia em maio e ficar de quarentena por duas semanas para acomodar a decisão de Trump de comparecer pessoalmente à formatura. As famílias dos formandos não puderam comparecer. Os testes para Covid-19 de pelo menos 15 cadetes deram positivo.>
Trump, como esperado, inseriu política na formatura: "Não é dever das tropas dos EUA resolver conflitos antigos em terras longínquas das quais muita gente nem ouviu falar", afirmou.>
O discurso, que o presidente leu num teleprompter, teve tom moroso. Trump errou a pronúncia dos nomes de dois dos mais lendários comandantes militares da história americana: o ex-presidente e general Ulysses S. Grant, que liderou a vitória do Norte na Guerra Civil (1861-1865), e Douglas MacArthur, comandante supremo das forças aliadas no Pacífico durante a Segunda Guerra.>
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Quase 700 ex-alunos de West Point assinaram uma carta na quinta-feira (11) acusando graduados da academia que atualmente integram o governo Trump, como o secretário de Defesa, Mark Esper, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, de minar a credibilidade dos militares e trair o caráter apolítico das Forças Armadas.>
"Meus generais" era o termo usado por Trump para se referir aos militares que alistou para integrar seu gabinete mesmo antes de tomar posse, em janeiro de 2017.>
Na quinta-feira, o mais importante militar da ativa no país deixou claro que o Exército não vai terceirizar um general para Trump chamar de seu.>
O Chefe do Estado Maior Conjunto, general Mark A. Milley, gravou um vídeo pedindo desculpas ao povo americano e às Forças Armadas por ter participado da encenação promovida pelo presidente no dia 1º deste mês, quando pessoas protestando pacificamente contra a morte de George Floyd foram dispersadas com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para que Trump saísse numa caminhada em direção a uma igreja episcopal que não frequenta e onde posou com uma Bíblia.>
Milley foi visto conversando com o público em uniforme de camuflagem, uma cena que reforçou a imagem de inserção oficial do Exército num artifício de propaganda política presidencial.>
O pedido de desculpas de Milley foi um recado cristalino para Trump e a classe política, diz à reportagem o historiador e autor Richard Kohn, professor emérito da Universidade da Carolina do Norte. Mas não foi, para ele, ao contrário do que sugeriram comentaristas, um momento de ruptura na relação entre civis e militares como não se via desde a guerra do Vietnã.>
"Milley lembrou ao país que o militar é o servo neutro do Estado," lembrou Kohn, "sem recorrer a um ataque pessoal ao presidente" que, nos Estados Unidos, é o comandante-chefe das Forças Armadas.>
Para os militares americanos na ativa ou veteranos, um ponto de virada pode ter sido a declaração do general Jim Mattis, o condecorado ex-secretário de Defesa da Trump, que renunciou em dezembro de 2018 por discordar da retirada de tropas americanas da Síria mas se manteve calado. Pelo menos 60% dos veteranos americanos votaram em Trump em 2016. E eles foram cruciais para o republicano em chamados estados pêndulo em que a vitória foi apertada.>
Depois que Trump ameaçou convocar o Exército para reprimir os protestos contra o assassinato do cidadão negro George Floyd, asfixiado por um policial branco em Minneapolis, Mattis deu uma entrevista contundente à revista The Atlantic, defendendo os manifestantes e condenando o uso das Forças Armadas na política interna. "Devemos rejeitar e responsabilizar aqueles eleitos que zombam da nossa Constituição," disse Mattis.>
Donald Trump obteve cinco deferimentos para não servir no Vietnã, alguns com base num fantasioso "esporão do calcâneo" no pé. Ele se referiu a ter escapado da Aids no período de esbórnia nas discotecas de Nova York, nos anos 1980, como "o meu Vietnã".>
Um episódio dos dias finais do governo de Richard Nixon voltou a ser citado com alguma frequência, desde que Donald Trump chegou ao poder tentando ignorar a separação de Poderes e usando as Forças Armadas como suporte cenográfico para suas fantasias de patriotismo.>
Em agosto de 1974, pouco antes de Nixon renunciar para não sofrer o impeachment pelo escândalo Watergate, seu secretário de Defesa, James Schlesinger, preocupado com o comportamento paranoico do presidente, disse ao chefe do Estado-Maior Conjunto, George Brown, para conferir primeiro com ele qualquer ordem militar emitida por Nixon. Tecnicamente seria um golpe branco contra a autoridade constitucional do chefe de Estado?>
Timothy Naftali dirigiu a Biblioteca Nixon de 2007 a 2011. Numa conversa por telefone com a reportagem, ele diz que a iniciativa de Schlesinger foi motivada pela covardia de Nixon, que delegava a subordinados decisões controversas. Segundo Naftali, Schlesinger temia que um renegado chefe de gabinete desse ordens malucas em nome do presidente.>
"Jantei com Schlesinger nos anos 1990 e perguntei a ele sobre agosto de 1974," lembra Richard Kohn. "Ele se debruçou, misterioso, e apenas disse: 'Alguém tinha que proteger a Constituição'.">
Tensão entre presidentes e o comando militar não é novidade na história americana, mas Tim Naftali comenta que o que Nixon dizia atrás das portas Trump tuíta. "Nixon tinha algum senso de proteção da dignidade da Presidência. Trump não tem respeito por ela," diz.>
Até a década de 1980, mal se ouvia falar de militares, ainda que na reserva, endossando candidatos políticos. Em 2016, as convenções da campanha presidencial engajaram militares para apoiar Hillary Clinton e Donald Trump.>
O principal trunfo militar de Trump, o general da reserva hoje em desgraça Michael Flynn, durou 24 dias como assessor de segurança nacional, antes de cair pelo crime de mentir para o FBI sobre suas tratativas com a Rússia, país adversário dos EUA.>
Richard Kohn acredita que o momento de maior tensão nas últimas décadas aconteceu quando o recém-eleito democrata Bill Clinton anunciou, antes de tomar posse em 1993 e assumir o posto de comandante-chefe, que autoidentificados gays iam servir nas Forças Armadas. Não era uma questão de ir contra uma cultura homofóbica, diz o historiador.>
Ele critica comandantes militares da década de 1990 por não entenderem que as tropas, na maioria, não alimentavam preconceito contra gays na Força. Acha que Bill Clinton era ignorante sobre a cadeia de comando e culpa o general Colin Powell, Chefe do Estado Maior Conjunto do então presidente George Bush pai, por não ter aconselhado Clinton no período de transição entre a eleição e a posse.>
Em seguida, Powell lançou uma campanha apócrifa contra a integração de gays, que resultou no enfraquecimento político de Clinton na proposta conhecida como "não pergunte e não conte", para que gays servissem sem se identificar como gays. >
O candidato democrata Joe Biden sugeriu na quinta-feira que Trump ia tentar roubar a eleição de novembro. Ao ser perguntado se, a exemplo de 1974, os militares discutem a cadeia de comando sob um presidente tão instável, Richard Kohn diz ter certeza. "Desde o começo desse governo, eles conversam sobre cenários incomuns," diz Kohn.>
Mas lembra também que, ao meio dia de 20 de janeiro de 2021, se o perdedor da eleição presidencial estiver morando na Casa Branca, deve ser discretamente escoltado pelo Serviço Secreto para um helicóptero. E não terá qualquer poder constitucional, seja de apertar o botão nuclear ou pedir mais um hambúrguer.>
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