Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 18:11
O intestino virou um objeto de enorme fascínio. Influenciadores nas redes sociais promovem suplementos sem comprovação científica que prometem melhorar a saúde intestinal, enquanto marcas de leite e da bebida fermentada kombucha dizem nutri-lo com "bactérias boas".>
Alguns descartam essa obsessão como uma moda passageira. Muitos médicos, porém, avaliam que o microbioma intestinal pode influenciar uma ampla gama de fatores, da saúde mental à probabilidade de desenvolver certos tipos de câncer.>
Há ainda outra possibilidade médica que me interessa em particular, que é como o intestino afeta a forma como envelhecemos: bem ou mal.>
Foi por isso que, alguns meses atrás, estive no St Mary's Hospital, em Londres (Reino Unido), conhecido pela descoberta da penicilina, me preparando para receber uma visão nada confortável sobre a minha própria saúde intestinal.>
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Eu estava lá para me encontrar com o médico James Kinross. Ele é professor de cirurgia no Imperial College London e cirurgião colorretal, mas talvez a parte mais inusitada de seu trabalho seja analisar fezes humanas.>
Semanas antes, eu havia enviado minha própria amostra de fezes a um laboratório. >
Testes desse tipo podem oferecer pistas sobre o nosso microbioma intestinal, os trilhões de microrganismos que vivem no nosso sistema digestivo (em sua maioria bactérias, mas também vírus e fungos).>
"Sou um evangelista do microbioma", afirmou ele. "Isso está profundamente enraizado em todos os aspectos da nossa saúde.">
Kinross acredita que o intestino pode ter um papel crucial no processo de envelhecimento, com consequências tanto para a longevidade quanto para o nível de força física na velhice.>
Alguns especialistas avaliam que a importância do microbioma intestinal no envelhecimento tem sido exagerada, e todos com quem conversei concordam que são necessárias mais pesquisas.>
Agora que estou na casa dos 60 anos e recém-avô, me parece um bom momento para descobrir o que o meu próprio intestino pode dizer sobre como enfrentarei as próximas décadas.>
E também para tentar responder à grande questão: se a saúde intestinal de fato influencia o envelhecimento, o que podemos fazer para melhorá-la, se é que algo pode?>
Maria Branyas Morera foi a pessoa mais velha do mundo. Após sua morte, em 2024, no norte da Espanha, aos 117 anos, cientistas coletaram amostras de suas fezes, sangue, saliva e urina e as compararam com as de 75 outras mulheres da Península Ibérica (sudoeste da Europa).>
Segundo os pesquisadores, ela levava um estilo de vida amplamente saudável: morava no campo, caminhava uma hora por dia e seguia uma dieta mediterrânea rica em azeite.>
Mas o que realmente a distinguia era o fato de que ela consumia três porções de iogurte por dia.>
Manel Esteller, geneticista da Universidade de Barcelona (Espanha) e coautor do estudo, acredita que o hábito de comer iogurte pode ter proporcionado a Morera um nível elevado de bactérias benéficas capazes de reduzir inflamações.>
"Ela tinha células que pareciam mais jovens do que sua idade", diz Esteller.>
Já foram realizados outros estudos com centenários, os super-heróis do mundo da longevidade. >
Repetidamente, cientistas analisaram o intestino dessa população abençoada de pessoas com mais de 100 anos e encontraram uma impressionante variedade de bactérias.>
Em outro estudo, publicado em 2022 na revista Nature, pesquisadores do condado de Jiaoling, no sudeste da China, coletaram amostras de fezes de 18 centenários e encontraram alta diversidade de bactérias em comparação com adultos mais jovens.>
Isso faz sentido para Mary Ni Lochlainn, professora clínica de medicina geriátrica do King's College London (Reino Unido). Ela afirma que é útil pensar no microbioma intestinal como um jardim: queremos que ele seja o mais diverso possível.>
"Se você entra em um jardim onde não há plantas e tudo parece árido, esse é um jardim de baixa diversidade", explica. "O que você quer é muitas flores, cores, sementes.">
O problema é que, à medida que envelhecemos, a diversidade do microbioma cai significativamente. Algumas das bactérias benéficas desaparecem do intestino.>
Mas pessoas idosas que fogem dessa tendência e que mantêm suas boas bactérias até os 80 e 90 anos, demonstraram viver vidas mais longas e saudáveis.>
Para Ni Lochlainn, esses estudos comprovam a relação entre intestino e envelhecimento. "Sabemos que centenários… têm microbioma mais diverso.">
"Há algo nessas pessoas que parecem seres superiores, de certa forma. Elas conseguiram manter sua diversidade.">
E não se trata apenas de quanto tempo alguém vive, mas também de como vive nos anos mais avançados. Kinross afirma que existe uma relação entre as bactérias intestinais e a fragilidade, ou a capacidade de um idoso de se recuperar de uma doença ou lesão.>
De volta ao laboratório do St Mary's Hospital, Kinross anuncia seu veredito: tenho boa "diversidade intestinal no microbioma". Ele é "geralmente saudável", o que é uma boa notícia. Mas pelo tom dele percebo algumas ressalvas.>
Elas vêm a seguir. Primeiro, ele explica que há alguns "agentes no intestino" que podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares. >
De forma um tanto alarmante, alguns microrganismos prejudiciais também foram encontrados. Escherichia coli e Clostridioides difficile estão presentes, o que não é incomum. (O uso de antibióticos ou um episódio anterior de gastroenterite pode ter causado isso.)>
Mas então chegamos à questão da idade.>
Kinross me diz que meu microbioma intestinal é aproximadamente equivalente ao de um homem italiano cinco anos mais velho que eu. Ele chegou a essa conclusão comparando meus resultados a um estudo com 62 pessoas no norte da Itália.>
Nesse estudo, o único desse tipo, os pesquisadores analisaram amostras de fezes de pessoas de diferentes idades, de 22 a 109 anos, permitindo traçar um perfil de como é o intestino em diferentes fases da vida.>
O veredito me faz refletir, com uma ponta de culpa, sobre aqueles anos de refeições prontas e lanches rápidos.>
Horários de trabalho intensos, durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19, resultaram em muitas sobremesas e guloseimas consumidas às pressas. >
Viver em Londres intermitentemente desde os meus 20 e poucos anos significou conviver com a poluição do tráfego, em vez do ar mais puro do norte da Itália. >
Não é de surpreender que meu intestino seja considerado cinco anos mais velho do que eu.>
Kinross deve ter percebido a cor esvaindo do meu rosto em pânico, porque imediatamente me tranquiliza: os homens italianos podem ter seguido dietas mediterrâneas ou vivido em áreas rurais não atingidas pela poluição urbana.>
Além disso, era uma amostra pequena.>
Ele me tranquiliza ainda mais ao dizer que "toda a maquinaria para o envelhecimento saudável" está lá e só precisa ser otimizada. Em outras palavras, se eu cuidar da minha alimentação, ainda há tempo para melhorias.>
Quanto à possibilidade de realmente melhorar o processo de envelhecimento por meio da alimentação, Esteller, da Universidade de Barcelona, se mostra otimista.>
Ele ressalta que ainda há alguma "incerteza" sobre a relação entre saúde intestinal e envelhecimento, mas afirma que as evidências já indicam de forma relativamente clara que o que colocamos no prato pode afetar tanto a "morbidade quanto a mortalidade".>
Ou seja, quanto tempo vivemos e a probabilidade de permanecer com boa saúde na terceira idade. "Mesmo na mesma cidade, entre pessoas com alta renda, quem se alimenta melhor vive mais tempo", afirma.>
Esteller recomenda o consumo de azeite, que contém polifenóis que favorecem as bactérias intestinais, e de carne de anchova (Pomatomus saltatrix ou bluefish, em inglês), um peixe marinho de dentes afiados que contém ácidos graxos e é popular no Japão, país que registra uma das maiores expectativas de vida do mundo (84,5 anos), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).>
No Reino Unido, a anchova é difícil de encontrar na maior parte dos supermercados, disponível principalmente em peixarias especializadas ou restaurantes. No Brasil, é vendida em supermercados, mas não deve ser confundida com o aliche (Engraulis encrasicolus), outro peixe que pode ser conhecido como anchova no país.>
Esteller também recomenda evitar açúcares brancos refinados e alimentos ultraprocessados sempre que possível, que podem prejudicar a diversidade de bactérias no intestino.>
Mas Esteller ressalta que algumas pessoas terão mais sorte do que outras ao tentar "hackear" o intestino, e os genes exercem influência.>
Kinross alerta que a pesquisa sobre o funcionamento do microbioma em diferentes grupos populacionais ainda está no início. Por enquanto, afirma, cada paciente deve ser avaliado individualmente.>
Munido do relatório, marco uma consulta com Raquel Britzke, nutricionista, que analisa os resultados e elabora um plano alimentar voltado para aumentar a diversidade das bactérias intestinais, na esperança de ajudar meu envelhecimento.>
O plano é personalizado de acordo com meus resultados. Nos primeiros dias da semana, ela sugere que eu faça uma tigela de café da manhã com sementes de linhaça, sementes de chia, kefir, mirtilos, kiwi ou romã. (Não difere muito da minha tigela habitual de granola com baixo teor de açúcar e iogurte.)>
No almoço, recomenda salada verde, feijão ou lentilha, brócolis, aspargos ou beterraba, e frango grelhado sem pele. Isso parece um pouco mais complicado, os ingredientes nem sempre são fáceis de encontrar quando se pega uma refeição rápida entre pautas jornalísticas. >
Para o jantar, a sugestão é salmão, aspargos e arroz integral.>
Com a sobrancelha arqueada, minha esposa demonstra ceticismo sobre minha capacidade de seguir o plano todas as noites.>
Quanto às bebidas, são recomendados sucos. No primeiro dia, preparo com dedicação um suco verde, batendo hortelã, maçã, kiwi, couve, suco de limão, sementes de girassol e água. Mas o sabor da hortelã acaba sobrepondo os outros ingredientes.>
Kefir e kombucha (bebidas fermentadas ricas em bactérias) também são recomendados e são mais fáceis de consumir. Ambas agora ocupam espaço no meu refrigerador.>
Britzke também sugere o uso de probióticos, ômega-3 e vitamina D3. Os suplementos não são baratos.>
Kinross me diz que a mudança nutricional precisa ser "significativa" para fazer diferença no envelhecimento.>
Se eu seguir rigorosamente meu novo plano alimentar, afirma, poderia perceber alterações no meu microbioma intestinal "em algumas semanas", explica.>
Mas alerta que mudanças mais "modestas" na dieta, por exemplo, se feitas um dia sim e outro não, trazem poucos benefícios para o microbioma. E, por consequência, qualquer melhora nas perspectivas de envelhecimento também é menos provável.>
"Ainda há tempo", diz ele. Mas existe um "ponto de virada" para pessoas mais velhas, quando o microbioma intestinal começa a se deteriorar.>
Há outro enigma que Ni Lochlainn, do King's College London, chama de problema do "ovo ou da galinha". Ou seja: um intestino mais diverso nos torna mais fortes na velhice, ou o fato de sermos mais fortes na velhice significa que temos um intestino mais diverso?>
Historicamente, tem sido difícil saber qual é a causa e qual é o efeito.>
Mas até essa questão pode ter sido respondida, em parte graças a pesquisas com transplante fecal, procedimento em que fezes de um humano ou animal são transferidas para outro animal (geralmente um camundongo) por cápsula ou tubo no estômago.>
Em um desses estudos, publicado em 2020, cientistas dos Estados Unidos analisaram dois grupos de 11 camundongos saudáveis. O primeiro grupo recebeu fezes de camundongos idosos; o segundo, de camundongos jovens.>
Em três meses, os camundongos que receberam fezes de idosos passaram a apresentar comportamento semelhante à depressão. A memória de curto prazo deteriorou-se, assim como a percepção espacial.>
Na prática, seus corpos envelheceram.>
Ni Lochlainn, do King's College London, admite que, para muitas pessoas, isso soa desagradável, mas esses estudos são importantes porque sugerem uma linha direta de causalidade: do microbioma intestinal para a idade do corpo.>
Nem todos compartilham do entusiasmo com o poder do intestino sobre o envelhecimento.>
A professora Kamila Hawthorne, presidente do Royal College of GPs (Reino Unido), diz que a pesquisa sobre o microbioma intestinal é "empolgante" e "certamente despertou o interesse do público", mas acrescenta: "É importante lembrar, especialmente porque a pesquisa na área ainda está se desenvolvendo, que a 'saúde intestinal' provavelmente é apenas uma parte de um quadro muito maior.">
"A boa saúde não é determinada por um único fator.">
No fim das contas, os cientistas dizem que é possível melhorar o processo de envelhecimento por meio da alimentação, embora alertem que a dieta não é tudo.>
Esteller, da Universidade de Barcelona, estima que a alimentação provavelmente determina cerca de um terço do resultado do envelhecimento. O restante é uma combinação de genética e outros fatores de estilo de vida, como exercício físico e evitar fumar cigarros.>
Quanto à minha própria saúde intestinal, ainda estou nos primeiros dias da nova dieta.>
Meu apetite está satisfeito e não sinto desejo por lanches, exceto pelas frutas e oleaginosas recomendadas: maçãs, uvas e castanhas. Mas, com um estilo de vida corrido e horários imprevisíveis, seguir um plano tão meticuloso será desafiador e tenho dúvidas sobre minha capacidade de cumpri-lo.>
Ainda assim, os exames e essa experiência serviram como um alerta sobre meu intestino e minha saúde futura.>
Reportagem adicional: Luke Mintz>
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