Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 06:09
Alguns anos atrás, a psicolinguista americana Maryellen MacDonald começou a notar um fenômeno em suas salas de aula na Universidade de Wisconsin-Madison, onde é professora emérita de psicologia e ciências da linguagem.>
"Percebi que, logo antes do início da aula, quando [anteriormente] os alunos costumavam conversar uns com os outros, agora todos estavam de cabeça baixa, olhando para o telefone", diz MacDonald à BBC News Brasil.>
"As salas de aula estavam realmente silenciosas, exceto por talvez uma ou duas pessoas. E isso me pareceu uma grande mudança", lembra MacDonald, que é autora do livro More Than Words: How Talking Sharpens the Mind and Shapes Our World (Mais do que palavras: Como a fala aprimora a mente e molda o nosso mundo, em tradução livre).>
Essa constatação despertou em MacDonald o interesse no que muitos consideram uma mudança profunda nos jovens da chamada geração Z — que costuma ser definida como aqueles nascidos entre 1997 e 2012 — em relação às gerações anteriores: a erosão nas habilidades de comunicação.>
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Segundo MacDonald, atividades antes consideradas banais, como pegar o telefone para marcar uma consulta ou contestar uma conta, hoje são encaradas com dificuldade pelos adolescentes.>
"É claro que nem todos os jovens passam por isso", ressalta MacDonald. >
"E mesmo muitas pessoas que gostam de conversar pessoalmente não querem mais atender ao telefone, porque hoje em dia [uma ligação geralmente] é para vender produtos ou tentativa de golpe.">
"Mas essa relutância real em pegar o telefone e ligar para o consultório do seu dentista, ou ter uma conversa cara a cara com um amigo, parece estar associada à geração Z", salienta.>
MacDonald destaca que há entre os jovens uma relutância de modo geral em se envolver em interações presenciais. >
E a deterioração na capacidade de comunicação é observada não apenas nas habilidades de fala, mas também de escrita.>
"E vem acompanhada da erosão dos hábitos de leitura", afirma. >
"Ler e descobrir como a linguagem funciona é parte da habilidade de escrita. Uma consequência natural de ler menos é não ser tão bom em transmitir ideias em textos mais longos.">
Em gerações anteriores, a adolescência costumava ser um período de conexão social intensa, com novos amigos e namoros, marcos na transição para a vida adulta em uma idade em que o cérebro está em desenvolvimento. Mas pesquisas indicam uma redução nessas interações.>
Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2022 apenas 36% dos jovens nos países membros relatavam interação presencial diária com amigos, queda acentuada em relação aos 53% registrados em 2006 e a maior redução entre todas as faixas etárias.>
MacDonald alerta que a deterioração na capacidade de se comunicar traz consequências emocionais e sociais. >
Ela cita estudos em que os mais jovens dizem que se sentem solitários em comparação com gerações anteriores.>
"Também relatam que têm menos amigos e interagem menos com esses amigos. Namoram menos e saem menos", afirma. >
"Dizem que desejam ter essas interações sociais, mas que falar com as pessoas lhes causa ansiedade e, por isso, acabam optando por mensagens de texto.">
Uma deterioração nas habilidades de comunicação pode ter impactos não apenas na capacidade de criar vínculos e relacionamentos pessoais, mas também no ambiente de trabalho.>
"Se não conseguem falar com os clientes ou com os colegas, ou têm medo de perguntar o que devem fazer, ou não conseguem fazer uma apresentação, tudo isso representa um problema no emprego", observa MacDonald.>
"Começamos a ver em pesquisas que empresas e gestores estão ficando preocupados com o fato de esta geração de trabalhadores não ser capaz de fazer o que precisa ser feito, de falar com as pessoas e de desempenhar suas funções.">
Em pesquisa do instituto Harris Poll publicada pela revista Fortune, 65% dos trabalhadores da geração Z disseram que não sabem sobre o que conversar com seus colegas, percentual bem acima dos cerca de 25% registrados entre os mais velhos.>
A revista cita empresas que passaram a oferecer treinamento extra para ajudar novos contratados a ganhar confiança em tarefas antes consideradas básicas, como fazer uma apresentação, manifestar-se em reuniões ou até mesmo saber que linguagem usar em um email.>
MacDonald se dedica há anos a pesquisar como as pessoas compreendem, produzem e usam a linguagem.>
Em seu livro, ela argumenta que muitos dos benefícios cognitivos de falar decorrem do fato de ser um trabalho árduo. >
Esses benefícios podem ser sentidos na atenção, na memória, na capacidade de regular emoções e na saúde cognitiva à medida que envelhecemos.>
"Se as pessoas não estão conversando umas com as outras, isso tem consequências não apenas em termos de solidão, mas também para suas habilidades cognitivas", ressalta.>
MacDonald observa que falar é um exercício importante para o cérebro, com benefícios que vão além do curto prazo e se estendem ao longo da vida.>
Falar sobre seus objetivos aumenta o foco mental e a probabilidade de concretizá-los, falar sobre um tópico que precisa aprender torna o aprendizado mais rápido e duradouro, e falar sobre suas emoções ajuda a esclarecer o que está pensando e lidar com situações estressantes.>
Apesar de os jovens estarem acostumados a ouvir outras pessoas falarem em vídeos e nas redes sociais, a psicolinguista diz que o tipo de estímulo não é o mesmo, já que compreender o que alguém está dizendo não exige o mesmo esforço mental que falar.>
"Falar é mais difícil do que compreender. E, por isso, exercitar suas habilidades de fala traz benefícios que a mera compreensão não oferece", afirma.>
Com anos de experiência no estudo do impacto da linguagem em crianças, jovens, idosos e pacientes com o mal de Alzheimer, MacDonald lembra ainda que falar ajuda a proteger contra a demência.>
"Inúmeros estudos mostram que aqueles que têm muitas pessoas com quem conversar e que se engajam em conversas possuem melhores habilidades cognitivas e resistem à demência", diz.>
MacDonald diz acreditar que os próprios adolescentes estejam cientes do problema que enfrentam. >
"Em pesquisas, eles relatam estar preocupados com o declínio de suas habilidades sociais.">
Muitos jovens hoje em dia não encontram situações que antes eram comuns e facilitavam o desenvolvimento dessas habilidades.>
MacDonald lembra que o isolamento durante a pandemia de covid-19 reduziu as oportunidades de socialização "em um momento em que deveriam estar aprendendo a interagir e a conviver uns com os outros". O trabalho remoto também teve impacto.>
Ela cita ainda a oferta abundante de entretenimento no telefone celular. >
"[O celular] é muito envolvente, ao passo que conversar com alguém exige mais esforço, o que pode gerar ansiedade", observa MacDonald.>
Outro fator apontado pela pesquisadora é a superproteção por parte de muitos pais e mães, que buscam eliminar os desafios enfrentados pelos filhos e, assim, acabam reduzindo sua capacidade de lidar com problemas.>
"Há mais ansiedade entre os jovens. E os pais, em alguns casos, tomam a frente para realizar tarefas pelos filhos, como fazer uma chamada telefônica, porque os filhos ficam ansiosos ao fazê-las", diz MacDonald.>
"É compreensível, você quer proteger seu filho. Mas, ao mesmo tempo, falar é uma dificuldade desejável", destaca.>
"Dar [aos filhos] a oportunidade de fazer uma tarefa ligeiramente difícil, como ligar para o consultório médico e marcar uma consulta, algo que está provavelmente dentro da capacidade até dos adolescentes ansiosos, é bom para eles.">
Segundo MacDonald, habilidades linguísticas exigem prática, da mesma maneira que aprender um esporte ou a tocar um instrumento musical. >
"Os pais devem saber que seus filhos precisam dessa prática, não devem fazer as coisas por eles.">
MacDonald diz que que há medidas que pais, professores e os próprios jovens podem tomar para enfrentar o problema e ressalta que mesmo quem não teve oportunidades de desenvolver suas habilidades de fala ainda pode aprender.>
Ela cita as aulas de "introdução à vida adulta", oferecidas por algumas universidades americanas, que ensinam "de lidar com dinheiro até fazer ligações telefônicas". Para os mais jovens, aulas de oratória, teatro e improviso podem ajudar.>
Mas a pesquisadora salienta que, além de desenvolver essas habilidades, também é preciso oferecer oportunidades para que os jovens possam conversar. >
Para MacDonald, a decisão de retirar os celulares das salas de aula deve facilitar não apenas o aprendizado, mas também a interação entre os alunos.>
"É uma combinação de oportunidades para praticar e, possivelmente, um pouco de aconselhamento para ajudá-los a progredir e superar o fato de que tiveram bem menos prática do que outras pessoas em seus primeiros anos de adolescência", afirma.>
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