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'Fé, família e liberdade': os incorporadores imobiliários que estão criando comunidades para nacionalistas cristãos nos EUA

'Fé, família e liberdade': os incorporadores imobiliários que estão criando comunidades para nacionalistas cristãos nos EUA

Os planos de construção de um bairro destinado a moradores simpatizantes das ideias nacionalistas cristãs geraram polêmica entre os moradores de uma pequena cidade dos montes Apalaches, no chamado Cinturão da Bíblia dos EUA.

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 07:09

Imagem BBC Brasil
O incorporador imobiliário Josh Abbotoy, no local do seu futuro projeto urbanístico, perto da cidade americana de Gainesboro, no Estado do Tennessee Crédito: BBC/Ellie House

Josh Abbotoy contempla os frondosos bosques e as pastagens encravadas entre as colinas dos montes Apalaches, no Estado americano do Tennessee.

Ele descreve o que pretende construir ali: um bairro com dezenas de lotes residenciais, em torno da atividade agrícola e, o mais importante: uma igreja.

"É muito possível que um cliente venha comprar e construir mais ou menos onde nos encontramos neste momento", afirma ele, enquanto subimos até o cume de uma colina.

Ele é o fundador da empresa imobiliária Ridgerunner, que comprou terras neste local e no estado vizinho do Kentucky. Mas este não é um projeto imobiliário qualquer.

Abbotoy é uma figura de destaque nos círculos conservadores americanos. Ele descreve seu projeto como uma "comunidade baseada na afinidade".

Ele é dirigido não só a pessoas interessadas na paz e na tranquilidade da vida rural, mas também em uma série de ideais de direita.

"Fé, família e liberdade", afirma ele. "Estes são os valores que tentamos exaltar."

Imagem BBC Brasil
Josh Abbotoy aponta para um mapa do seu projeto imobiliário no escritório da Ridgerunner, em Gainesboro Crédito: BBC/Mike Wendling

Inicialmente, quando se instalou no condado de Jackson, ele não chamou muita atenção dos moradores da região.

Mas, no final de 2024, uma reportagem da TV local trouxe a público algumas das polêmicas declarações dos primeiros clientes mais sinceros de Abbotoy: o pastor e escritor Andrew Isker, de Minnesota, e o empresário C. Jay Engel, da Califórnia.

Eles se autodenominam "nacionalistas cristãos". E colocam em dúvida os valores modernos, questionando se o sufrágio feminino e o movimento pelos direitos civis foram boas ideias.

Eles também pedem deportações em massa de imigrantes em situação legal, superando imensamente os planos atuais do presidente americano, Donald Trump.

Às vezes, eles também dizem: "Revoguem o século 20."

A reportagem na televisão fez disparar o alarme entre alguns moradores locais.

"Você não sabe quem são essas pessoas, nem do que elas são capazes", afirmou Nan Coons, uma mulher de meia-idade, durante recente entrevista perto da praça central da cidade de Gainesboro, onde fica o terreno.

"E isso dá medo", segundo ela.

Abbotoy não se identifica como nacionalista cristão, mas ele afirma que as preocupações sobre seus inquilinos são exageradas.

Desde então, o projeto de urbanização da Ridgerunner atraiu atenção nacional nos Estados Unidos.

E os moradores de Gainesboro, uma localidade de cerca de 900 habitantes e apenas um semáforo, se envolveram em uma disputa que reflete batalhas políticas muito mais importantes.

Chegam os podcasters

Isker e Engel anunciaram sua mudança para Gainesboro no ano passado, no seu podcast intitulado Contra Mundum ("contra o mundo", em latim).

Seu programa, agora, é gravado em um estúdio no escritório da Ridgerunner em Gainesboro. Eles incentivaram seus ouvintes a se mudar para comunidades pequenas, buscar influência local e se unir a eles na luta para colocar os rigorosos valores cristãos conservadores no centro do governo americano.

"Se conseguíssemos criar lugares onde se pudesse exercer o poder político, o que poderia significar fazer parte da junta de comissários do condado ou até ter influência sobre os comissários do condado e o xerife... conseguir fazer isso é extremamente valioso", declarou Isker, em um episódio do podcast.

Engel popularizou no X a ideia dos "americanos por legado" (heritage Americans, em inglês).

Este é um conceito difuso, aplicado principalmente aos anglo-protestantes, cujos antepassados chegaram aos Estados Unidos há pelo menos um século.

Engel afirma que não se refere explicitamente aos brancos, mas que o conceito tem "fortes correlações étnicas".

Ele pediu a deportação em massa de imigrantes, incluindo aqueles em situação legal. Para ele, "povos como os índios, do sudeste asiático, os equatorianos e os imigrantes africanos são os menos capazes de se integrar e deveriam ser enviados para casa imediatamente".

Nos seus programas e textos escritos, eles também têm expressado sentimentos contrários à comunidade LGBTQIA+.

Os podcasters negam ser nacionalistas brancos. Ambos são clientes da Ridgerunner e a igreja de Isker será trasladada para a capela da comunidade, quando estiver terminada.

A 'resistência'

Estas opiniões radicais alarmaram os moradores. Alguns deles criaram um grupo de resistência informal.

"Acredito que eles estejam tentando rotular nossa cidade e nosso condado como sede da sua ideologia do nacionalismo cristão", afirma a matriarca da cidade, Diana Mandli, destacada empresária local que, até pouco tempo atrás, era proprietária de um bar na praça central de Gainesboro.

No final do ano passado, Mandli liderou os protestos, escrevendo uma mensagem em uma lousa, no lado de fora do seu estabelecimento.

"Se você for uma pessoa ou grupo que promove a inferioridade ou a opressão dos outros, por favor, coma em outro lugar."

Imagem BBC Brasil
'Gainesboro: este é o seu lugar', diz o cartaz na janela, em inglês Crédito: BBC/Mike Wendling

Surgiram outros sinais contra o novo projeto.

Quando as pessoas ficaram sabendo que os responsáveis pela Ridgerunner estavam reunidos em um restaurante fast food da região, dezenas de pessoas foram até lá para confrontá-los.

Os antepassados de Nan Coons moraram em Gainesboro desde a época da Guerra da Independência dos Estados Unidos (1775-1783). Ela conta ter conversado com Engel.

"Ele me explicou que eles promovem o que ele chama de 'voto familiar'... um voto por família e, é claro, quem votaria seria o marido da família", deixando as mulheres fora do eleitorado.

Desde então, Engel vem declarando publicamente que não é "errado" que as mulheres votem, mas ele apoia a ideia do sufrágio familiar.

Imagem BBC Brasil
Os moradores locais colocaram um outdoor perto da cidade: 'Gainesboro, onde todos são bem-vindos.' Crédito: BBC/Mike Wendling

Morando em um condado onde 80% da população votou em Donald Trump nas últimas eleições, Coons está acostumada com vizinhos que detêm opiniões conservadoras.

Mas ela e outras pessoas saíram do protesto ainda mais convencidas de que as crenças dos seus novos vizinhos são extremistas demais.

Eles dizem que não querem expulsá-los da cidade, mas pretendem alertar sobre o que eles consideram opiniões extremas. E sua intenção é também frustrar qualquer tentativa futura do grupo, de assumir o controle do governo local.

"É aqui que precisamos definir os limites", afirma Coons.

O que é o nacionalismo cristão?

O nacionalismo cristão é uma nebulosa visão de mundo, que não tem uma única definição abrangente.

No seu ponto mais radical, como descrevem teóricos como o escritor Stephen Wolfe, os nacionalistas cristãos defendem que o governo seja exercido por um "príncipe cristão", um ditador religioso todo-poderoso que reine sobre as autoridades civis e oriente seus súditos rumo à "religiosidade".

Suas versões menos extremistas incluem convocações para que as leis cristãs sejam explicitamente consagradas nos códigos legais americanos, para que os líderes religiosos se envolvam profundamente na política ou, simplesmente, para que se reconheça a origem cristã dos pais fundadores dos Estados Unidos.

Esta multiplicidade de definições criou uma ambiguidade estratégica que, segundo especialistas, contribuiu para que o nacionalismo cristão se infiltrasse na corrente dominante.

Grandes ideias ou plano da direita radical?

O projeto de Abbotoy ainda está nos estágios iniciais. Sua empresa está construindo estradas e formando a infraestrutura sanitária.

A BBC visitou o local em novembro passado. Na época, os trabalhadores estavam ocupados, derrubando um velho celeiro em ruínas — um dos muitos que marcam a paisagem dos Apalaches.

Mas o negócio vai de vento em popa. Cerca de metade dos terrenos já estão contratados.

Abbotoy prevê a construção das primeiras casas e a mudança dos seus primeiros clientes para o local no início de 2027.

Imagem BBC Brasil
A construção no terreno de Brewington Farms, perto de Gainesboro, começará em alguns meses e os novos moradores devem se mudar em pouco mais de um ano Crédito: BBC/Ellie House

Ele afirma que muitos dos seus clientes estão se mudando para o Tennessee, que tem maioria republicana, vindo de Estados majoritariamente democratas, como a Califórnia e Nova York.

"As pessoas querem viver em comunidades onde sentem que compartilham valores importantes com seus vizinhos", afirma ele.

Abbotoy declarou que não se considera nacionalista cristão, mas qualifica as críticas aos seus clientes de "absurdas". O construtor afirma que eles não têm nenhuma intenção de tentar assumir o governo local.

"Eles falam de grandes ideias e livros", segundo Abbotoy.

Em relação a algumas das suas opiniões mais controversas, ele defende que "reverter o século 20 pode significar muitas coisas. Muitos conservadores diriam que tomamos muitos caminhos equivocados."

Isker e Engel não responderam aos diversos pedidos de comentários e a uma lista de perguntas enviada pela BBC, até o momento da publicação desta reportagem.

Imagem BBC Brasil
Nan Coons pertence a um grupo informal de moradores de Gainesboro que estão alarmados com seus novos vizinhos nacionalistas cristãos Crédito: BBC/Ellie House

A luta se estende por todo o país

A luta dos moradores de Gainesboro atraiu figuras muito distantes da pequena localidade do Tennessee.

Abbotoy se formou na Faculdade de Direito de Harvard. Ele também é sócio de um fundo de capital de risco conservador chamado New Founding e fundador do portal American Reformer, que publicou textos de outros destacados nacionalistas cristãos.

Por outro lado, seus oponentes receberam ajuda com pesquisas e assessoramento da organização nacional States at the Core, criada no ano passado. Seu objetivo é combater o autoritarismo nas pequenas comunidades.

Ela é financiada por um grupo de organizações de esquerda. A States at the Core não atendeu o pedido de entrevista da BBC.

Os homens da Ridgerunner destacaram a organização como prova de que a oposição ao seu projeto foi criada por liberais poderosos. Mas os moradores locais defendem que esta afirmação é ridícula.

"Ninguém me pagou para dizer nada", responde Coons.

Em Gainesboro, pessoas de todos os setores observam uma realidade muito mais ampla: uma luta política em grande escala, sendo travada na zona rural dos Estados Unidos.

Os republicanos conseguiram grandes avanços na zona rural no século 21. E, em 2024, Trump ampliou sua vantagem entre as comunidades rurais, ao receber 69% dos votos.

O Comitê de Campanha Democrata do Congresso americano anunciou recentemente investimentos na casa de dezenas de milhões de dólares, frente às eleições de meio de mandato, em novembro deste ano. Parte destes valores será dedicada a atrair eleitores rurais.

"Sem dúvida, existe um interesse renovado do Partido Democrata pelo envolvimento das pessoas da zona rural", segundo Abbotoy.

"E, paralelamente, houve uma onda de pessoas que se mudaram para pequenas cidades dos Estados Unidos, exatamente porque gostam do Cinturão da Bíblia, da cultura tradicional conservadora."

Mas Nan Coons e seus aliados afirmam que não estão dispostos a ceder zonas rurais, como sua cidade natal, para os nacionalistas cristãos.

"Se quisermos mudar esta tendência, é preciso começar pela sua rua, pelo seu bairro, pela sua pequena cidade", afirma ela.

"Preciso defender algo e é isso que eu defendo."

Ouça aqui o episódio do programa Crossing Continents, da BBC Rádio 4 (em inglês), que deu origem a esta reportagem.

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