Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 10:09
A jornalista americana Karen Hao se considera otimista em relação à inteligência artificial (IA), mesmo acreditando que as empresas responsáveis pelo seu desenvolvimento se apropriam de recursos alheios, inflam o valor de suas ações e vendem narrativas enganosas.>
"Se eu não fosse otimista, não pesquisaria nem criticaria essas companhias", afirma ela. "Acredito que o mundo pode ser melhor.">
A jornalista é especializada em empresas de tecnologia. Hao trabalhou para o The Wall Street Journal e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), onde também estudou e conheceu alguns dos desenvolvedores mais prolíficos de companhias de IA.>
Seu recente livro Empire of AI ("O império da IA", em tradução livre, aguardando lançamento em português) conta como práticas consideradas por ela imperialistas e preocupantes se escondem por trás das figuras que desenvolvem esta tecnologia.>
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Hao ganhou vários prêmios com suas investigações e seu livro é um sucesso de vendas, segundo o jornal The New York Times.>
A jornalista conversou com a BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) sobre sua obra e seu trabalho, durante o Hay Festival Cartagena 2026, o festival de ideias e literatura realizado na Colômbia no final de janeiro.>
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BBC News Mundo: Por que você escolheu para o seu livro o título O Império da IA?>
Karen Hao: Acredito que precisamos ter em mente que empresas como a OpenAI, de Sam Altman, são novas formas de império.>
Eu queria que as pessoas, mesmo se não lessem o livro, compreendessem que existe um argumento mais profundo por trás desta frase e que ela despertasse a curiosidade sobre o que essas companhias realmente estão fazendo.>
BBC: A questão, por acaso, é que essas empresas não querem que saibamos determinadas coisas?>
Hao: Que não saibamos de nada, basicamente.>
Elas deixam tudo extremamente opaco para que as pessoas não entendam como elas funcionam e treinam seus sistemas, onde constroem seus centros de dados, quanta água e energia elas usam e como vendem seus modelos para diferentes companhias e indústrias.>
Um dos motivos por que elas impõem esta opacidade é porque quanto menos as pessoas souberem, mais elas poderão manipular suas narrativas sobre esta tecnologia, do que ela se trata, quais serão os seus impactos e como ela irá nos afetar.>
Estas perguntas exigem transparência.>
BBC: Comparar empresas de IA com impérios é algo forte. Quais semelhanças você observa?>
Hao: Muitas.>
Em primeiro lugar, elas reivindicam recursos que não são delas. Recolhem dados de pessoas comuns para treinar seus modelos e também a propriedade intelectual de artistas e criadores.>
Elas também exploram trabalhadores. Os impérios são capazes de extrair muito valor de trabalhadores mal remunerados.>
A IA faz o mesmo. Ela paga muito pouco a trabalhadores do Sul global por tarefas fundamentais para o desenvolvimento da IA.>
Depois que a tecnologia foi desenvolvida, elas continuam prejudicando assalariados e seus empregos, com maior insegurança e precariedade.>
Os impérios monopolizam a produção do conhecimento e é isso que fazem estas companhias.>
Observamos na última década como os pesquisadores de IA são financiados pelas próprias empresas de IA.>
Agora, imagine. Se a maioria dos cientistas climáticos fossem financiados por empresas de combustíveis fósseis, não teríamos uma perspectiva clara da crise climática.>
O mesmo acontece com a IA. Não temos uma perspectiva precisa porque as pessoas que consultamos sobre esta tecnologia estão no bolso dessas companhias.>
Aliás, os impérios sempre se envolvem nessas narrativas morais sobre sua existência. Eles se apresentam como bons, com uma missão civilizadora de trazer o progresso.>
As empresas prometem acesso ao paraíso através da IA. Elas dizem que, se não permitirmos o acesso a recursos, trabalho ou conhecimento, perderemos para os impérios malignos que querem levar a humanidade para o inferno.>
BBC: Este último ponto faz lembrar os argumentos de Donald Trump em relação à Groenlândia. Que, sem o controle dos Estados Unidos, a China ou a Rússia poderiam se intrometer.>
Hao: Os Estados Unidos também são um império e se comportam como os impérios da IA. É uma retórica que os EUA vêm usando há muito tempo na sua construção imperialista.>
A IA também usa esta retórica. Não é algo novo.>
Mark Zuckerberg, durante a era das redes sociais, dizia que, se elas fossem regulamentadas, perderiam sua vantagem frente à China.>
Eles vendem uma narrativa de "nós ou eles" muito eficiente entre o público americano, para oferecer a estas companhias ou ao governo o poder que permite a elas desenvolver atividades verdadeiramente horríveis.>
BBC: Elon Musk costumava expressar sua preocupação sobre o desenvolvimento da IA e o que ela poderia significar para os seres humanos.>
Agora, ele parece cada vez mais contra as regulamentações. Observamos isso na recente polêmica sobre sua ferramenta Grok e a possibilidade de criar imagens nuas falsas com fotografias de pessoas reais.>
Hao: Acredito que Musk nunca tenha mudado. Sua perspectiva sobre a IA sempre foi a mesma.>
Todos os medos que ele afirma ter, na realidade, se referiam ao fato de que, antes, não era ele quem controlava a tecnologia.>
Isso é algo presente em todos esses multimilionários que constroem os sistemas de IA. Todos eles dizem que são bons e que os outros são maus.>
Musk era extremamente agressivo sobre a promoção de regulamentações sobre a IA quando não fazia parte do jogo. Foi uma espécie de mecanismo para controlar o poder de concorrentes como o Google.>
Agora que ele faz parte do jogo, quer proteger o controle da IA e da sua empresa.>
BBC: Quais as semelhanças entre a visão de Musk e a de Sam Altman, que eram aliados e, agora, são rivais?>
Hao: O discurso da OpenAI [a companhia de Altman] defendeu inicialmente o desenvolvimento sem fins lucrativos.>
Eu acreditava que eles eram muito sinceros sobre este ponto e que, em algum momento de corrupção, perderam seu propósito.>
Mas percebi que, como Musk, Altman sempre teve a mesma posição. Ele tratava de se manter no centro do poder. A OpenAI sempre foi a mesma.>
Altman observava como o Google dominava a IA e procurou criar uma organização na qual ele pudesse controlar o desenvolvimento da tecnologia.>
O Google foi e continua sendo mais rico que a OpenAI e o primeiro obstáculo para Altman foi a competição pela captação de talentos.>
Por isso, a estratégia de Altman foi oferecer um salário menor em troca de trabalhar por um propósito melhor e fazer parte da história.>
Mas, assim que eles captaram os talentos, o desenvolvimento sem fins lucrativos perdeu seu valor e a OpenAI, institucionalmente, é uma empresa totalmente focada nos lucros.>
Altman pode dizer o que quiser sobre seus motivos humanitários, mas, com o passar dos anos, ficou demonstrado que ele joga o mesmo jogo de Musk.>
BBC: O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou recentemente que a ferramenta de IA de Elon Musk, Grok, será utilizada pelo Pentágono. Como você avalia isso?>
Hao: O aumento do uso da IA na defesa ou em estruturas militares é extremamente preocupante. Esta tecnologia é imprecisa, não é confiável, sobretudo a IA generativa, como o Grok.>
Ou seja, estamos falando em integrar uma tecnologia não confiável a sistemas envolvidos em situações de vida ou morte.>
Existiu por muito tempo a norma internacional de que não deveríamos automatizar a tomada de decisões na guerra. Sempre deveria existir o julgamento humano.>
Mas a invasão da Ucrânia pela Rússia e sua defesa enfraqueceram estas normas.>
Grande parte do Ocidente se dispôs a flexibilizar algumas dessas regras rigorosas do passado. Eles começaram a automatizar cada vez mais a infraestrutura militar, o que é problemático.>
Além disso, estes sistemas são criados por algumas poucas pessoas que decidem em seu benefício e conforme seu estado de saúde mental quando acordam pela manhã.>
Eles são responsáveis por alterar sistemas de IA que afetam infraestruturas militares fundamentais. É alarmante.>
BBC: Suas pesquisas e críticas não devem satisfazer essas companhias tão poderosas. Você já sofreu pressões, desafios, obstáculos no seu trabalho?>
Hao: Quando comecei o livro, a OpenAI se mostrou muito interessada em participar. Isso logo mudou quando eles começaram a ser investigados pelo governo.>
Eles se tornaram pouco cooperativos. Eu enviava pedidos de comentários e eles não respondiam a uma única pergunta. Eu dava até seis semanas para que eles respondessem e nada.>
Isso ocorre muito com minhas pesquisas, embora algumas empresas tenham começado a perceber que é melhor entrar em contato comigo e esclarecer seus pontos de vista. Levo seus comentários e perspectivas muito a sério.>
BBC: Você e outros analistas expressaram a preocupação de que existe uma bolha da IA que, se estourasse, traria consequências dramáticas. Quais seriam elas?>
Hao: Os impactos poderiam ser enormes, como nas outras grandes crises, como na de 2008.>
Grande parte do crescimento do mercado de bolsa de valores nos Estados Unidos está baseado em empresas de IA com valor zero.>
Não houve um impulso econômico generalizado. Essas companhias simplesmente investiram umas nas outras para inflar o valor das suas ações.>
Temos observado diversos sinais de que o grande valor econômico que elas prometem ainda não chegou.>
Um relatório do ano passado demonstrou que a adoção de ferramentas de IA generativa em dezenas de empresas diminuiu. Elas não estavam tendo lucros que justificassem a aquisição desses serviços.>
As companhias de IA não têm um plano de negócio. Não têm uma substância real para sustentar seu valor. Uma quebra das bolsas terá efeitos enormes para o mundo.>
BBC: Ao cobrir a IA, encontrei otimistas e pessimistas. Você parece estar no segundo grupo, mas me corrija se eu estiver errado.>
Hao: Eu diria que, na verdade, sou muito otimista. O motivo que me leva a pesquisar e criticar é porque acredito que o mundo pode ser melhor. Se não acreditasse, não faria meu trabalho.>
Mas sou pessimista sobre a estrutura de poder corrupta existente no mundo.>
Não acredito que seja sustentável, do ponto de vista financeiro, ambiental e de direitos humanos, permitir que um pequeno grupo de pessoas controle a infraestrutura mundial a partir da Califórnia [nos Estados Unidos].>
A infraestrutura física que eles projetam transforma a terra, as redes elétricas e o abastecimento de água.>
Por isso, sua infraestrutura intelectual e social oferece às pessoas ferramentas das quais elas ficam dependentes, prejudicando suas relações sociais e seu pensamento crítico.>
Sobre isso, sou pessimista. Não acredito que a tecnologia projetada desta forma traga benefícios a longo prazo.>
Penso que, de muitas formas, a IA, sem precisar de impérios, traz muitos benefícios para muitas pessoas.>
Se conseguirmos resolver o problema atual e suas raízes, poderemos, como sociedade, encontrar um caminho mais humano e sustentável para todos.>
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