Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 11:56
Muitos de nós conseguimos encontrar defeitos no que vemos no espelho — mas o ódio intenso que Charlotte sentia pela própria aparência começou a tomar conta da vida dela no início da adolescência.>
"Eu acordava às 5h30 para me maquiar, mesmo que o ônibus escolar só passasse às 8h30", conta.>
"Eu aplicava a maquiagem compulsivamente, tirava, reaplicava, tirava de novo — tentando deixá-la o mais simétrica e perfeita possível.">
Charlotte diz que começou a se isolar, até que não conseguia mais ir à faculdade, a não ser para fazer provas. Ela não foi ao baile de formatura porque não suportava a ideia de ser fotografada.>
>
Por fim, recebeu o diagnóstico de Transtorno Dismórfico Corporal.>
Dismorfia corporal é um termo frequentemente usado nas redes sociais para expressar a insatisfação de uma pessoa com o próprio corpo. Mas o diagnóstico do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é diferente: ocorre quando a ansiedade em relação à aparência começa a interferir na vida cotidiana, explica Viren Swami, professor de psicologia social da Anglia Ruskin University.>
Trata-se de uma obsessão com algum aspecto da própria aparência que outras pessoas consideram normal, mas que, para quem vivencia o transtorno, pode parecer completamente errado, disse Swami ao podcast Complex, da BBC (áudio em inglês).>
Entre as características do transtorno estão sofrimento emocional, muito tempo gasto em ruminação e a sensação de não conseguir controlar pensamentos sobre a própria aparência.>
O transtorno também pode envolver comportamentos repetitivos, como checar o espelho com frequência ou tocar repetidamente a parte do corpo considerada defeituosa.>
"O mundo inteiro da pessoa passa a girar em torno desse aspecto do corpo, e todo o resto meio que vai desaparecendo", afirma.>
Swami diz que é muito mais comum mulheres experimentarem insatisfação corporal, mas, no caso do transtorno, não há uma divisão clara entre os gêneros.>
Charlotte começou a fazer terapia no serviço local de saúde mental antes de ser internada em uma unidade residencial para transtornos de ansiedade, em Londres.>
"Fiz terapia ocupacional durante a internação, como aulas de arte, cerâmica e composição musical — e foi assim que voltei a me conectar com a música", conta.>
"Isso me ajudou a canalizar meu perfeccionismo, tirando-o da escuridão e trazendo-o para a luz, dissipando aquela vergonha.">
Depois de receber alta, ela passou a compartilhar sua história nas redes sociais na esperança de ajudar outras pessoas.>
Swami orienta que quem possa estar sofrendo com o transtorno procure inicialmente apoio de um clínico geral.>
E, se você acha que alguém próximo pode estar enfrentando o TDC, ele ressalta a importância de ter paciência e empatia. É comum que essas pessoas busquem reafirmação para seus pensamentos diariamente, explica.>
"Em vez de encerrar essas conversas ou reagir com raiva ou frustração, é importante reconhecer que o TDC é um transtorno de saúde mental que não desaparece sozinho e que, sem ajuda profissional, muitas vezes pode piorar.">
Tilly também desenvolveu dismorfia corporal no início da adolescência.>
"Eu sentia vontade de pedir desculpa às pessoas que passavam por mim por eu ser tão feia", diz. "Eu nunca conseguia olhar para um espelho em público.">
Ela evitava roupas justas e achava "excruciante" se arrumar para festivais e festas.>
"Isso desencadeava uma espiral negativa da qual eu não conseguia me recuperar a tempo para o evento.">
No começo, ela achava que se tratava de baixa autoestima e depressão.>
"Eu não tinha consciência para perceber a conexão entre os diferentes tipos de experiências, que na verdade estavam todas relacionadas à minha aparência", afirma.>
Os sintomas da dismorfia corporal começaram a piorar quando ela entrou na universidade para estudar design de moda, já que passou a se comparar com pessoas que trabalhavam na indústria.>
Isso levou a pensamentos sombrios e angustiantes sobre sua aparência, incluindo sentimentos persistentes de não merecimento.>
Ao longo dos anos, Tilly consultou vários terapeutas, mas nenhum era especializado em imagem corporal.>
Ela começou a fazer acompanhamento com uma psicoterapeuta do NHS (o sistema p[ublico de saúde do Reino Unido), que identificou que ela tinha dismorfia corporal.>
Tilly conta que entrou para um grupo de apoio da BDD Foundation e também passou a trabalhar com uma terapeuta particular para ajudar a aliviar os sintomas.>
Ela recomenda que qualquer pessoa que esteja apresentando sintomas de dismorfia corporal pesquise sobre o transtorno antes de conversar com um médico sobre suas preocupações.>
"Isso pode fazer com que as pessoas consigam pedir o tipo certo de ajuda com mais confiança", acrescenta.>
Agora, Tilly consegue ter mais controle sobre os próprios pensamentos.>
"Se estou me olhando no espelho para me arrumar e não gosto do que vejo, se começo a sentir aquela sensação de pânico chegando, consigo interromper isso imediatamente", diz.>
"A forma como eu me vejo, dependendo do dia ou do meu humor, não é como as outras pessoas me veem — elas apenas me veem como Tilly.">
Ela afirma que passou por uma mudança completa de mentalidade.>
"Eu reencontrei a alegria na minha vida e, pela primeira vez desde a infância, senti amor por mim mesma.">
Charlotte quer que as pessoas saibam que "há esperança, é possível se recuperar".>
"Hoje me sinto realizada, feliz e em paz. Eu realmente amo a minha vida agora — e nunca imaginei que chegaria até aqui.">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta