Publicado em 5 de março de 2026 às 21:08
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino anulou as quebras de sigilo bancária e fiscal do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aprovadas na última semana pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que apura um esquema bilionário de fraudes no pagamento de pensões e aposentadorias.>
Horas antes, contudo, extratos bancários do filho do presidente Lula (PT) já haviam sido obtidos pela CPMI,com valores de movimentações financeiras divulgados pela imprensa. >
Segundo os documentos, entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026, Lulinha movimentou cerca de R$ 19,5 milhões em uma única conta bancária. >
A informação foi divulgada primeiramente pelo Metrópoles e confirmada pela BBC News Brasil.>
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Em nota, os advogados de Fábio Luís Lula da Silva afirmaram que o vazamento dos documentos recebidos pela CPMI configura "crime grave" e que o caso será comunicado às autoridades competentes.>
Na quarta-feira (4/3), Dino já havia determinado a suspensão da quebra de sigilo da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e suspeita de ter ligação com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS".>
Antunes é apontado pela Polícia Federal como um principais operadores do esquema de fraude.>
Ao suspender o ato da CPMI, Dino considerou que a votação não teve "fundamentação concreta", já que a comissão aprovou em bloco 87 requerimentos com medidas para a investigação.>
A decisão abriu precedente para que a defesa de Lulinha entrasse com um pedido de extensão do benefício, o que foi determinado pelo ministro nesta quinta-feira (5/3).>
Dino pontuou que a medida apenas anula a votação da CPMI, mas "não invalida quebras de sigilo efetuadas na investigação da Polícia Federal, sob a supervisão do STF, em procedimentos próprios".>
Ele também afirmou que a CPMI "deve, se desejar, proceder à nova deliberação das quebras de sigilo em relação a todos os alcançados pela equivocada votação 'em globo' e imotivada do dia 26 de fevereiro de 2026".>
Segundo o portal G1, a quebra de sigilo fiscal e bancário do filho de Lula foi autorizada também pelo ministro André Mendonça, relator do inquérito no STF. O caso está em sigilo e o Supremo não divulgou essa decisão.>
Ao longo de quatro anos, Lulinha realizou 1.531 transações bancárias, segundo extrato de sua conta no Banco do Brasil. >
No total, R$ 9,77 milhões entraram na conta do filho do presidente e R$ 9,75 milhões saíram. >
A maior parte da receita veio de duas empresas de Lulinha: a LLF Tech Participações (R$ 2,37 milhões) e a G4 Entretenimento e Tecnologia (R$ 772 mil). >
Há também rendimentos de investimentos bancários.>
Lulinha também recebeu dinheiro do pai durante esse período, segundo dados do extrato.>
No total, Lula enviou R$ 721mil para o filho. Desse valor, R$ 384 mil foram pagos em 22 de julho de 2022, três meses antes da eleição. Outras duas transferências aconteceram em 27 de dezembro de 2023.>
Em relação ao extrato bancário, a defesa sustentou que é "impossível avaliar sua existência, veracidade ou detalhamento", já que não teria tido acesso aos documentos enviados à CPMI. >
Os advogados ainda negaram qualquer relação de Lulinha com as fraudes no INSS, destacando que "é gritante a ausência de menção a qualquer elemento ligado às fraudes do INSS, o alegado objeto investigativo da quebra de sigilo".>
Sobre as transferências de Lula para o filho, a defesa de Lulinha afirmou que são "adiantamento de legítima herança aos filhos do presidente, devolução de custos arcados por Fábio Luís da época emergencial em que Lula esteve ilegalmente preso, ou de empréstimo à L.I.L.S. Palestras, da qual Fábio Luís possui cotas recebidas por herança".>
O extrato também mostra pagamentos a Jonas Suassuna Filho, dono do sítio em Atibaia frequentado por Lula. Suassuna Filho recebeu R$ 704 mil em parcelas mensais de R$ 10 mil.>
Segundo a defesa, os pagamentos seriam do aluguel da casa em São Paulo onde Lulinha morava.>
"Todos os movimentos e bens são registrados e declarados ao fisco, resultados de atuação legítima, ou mesmo de recebimento da herança de sua mãe, Dona Marisa", afirmou.>
Parlamentares da oposição utilizaram as informações sobre as movimentações financeiras de Lulinha para desgatar a imagem de Lula. >
Em uma publicação em seu perfil no Instagram, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, compartilhou a notícia publicada pelo portal Metrópoles e escreveu: "O filho do pai dos pobres [...] Esse aí multiplica dinheiro como ninguém". >
A base governista saiu em defesa do filho do presidente, argumentando que a divulgação das informações era ilegal e que não demonstravam relação de Lulinha com o escândalo do INSS. >
"Nenhum vestígio de depósitos do tal Careca do INSS. Foi mais um tiro que saiu pela culatra para a oposição", disse o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), em publicação no X.>
Para o sócio da Arko Advice e mestre em Ciência Política Lucas de Aragão, por mais que o governo tente mitigar a situação com uma boa comunicação, a suposta relação de Lulinha com pessoas ligadas ao escândalo do INSS atinge o governo de forma negativa e vai gerar um desconforto enorme para Lula.>
"Não há nenhum desenho nesse cenário que seja neutro ou positivo para o governo. É negativo", afirmou.>
"Ainda que o Lula tenha dito que se tiver feito errado, que pague, se tiver feito algum crime, que seja preso, que não vai proteger ninguém...Você imagina se amanhã o filho do presidente da República é preso por corrupção? Isso vai gerar um desconforto enorme", acrescentou Aragão.>
A quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha foi aprovada no dia 27 de fevereiro pela CPMI do INSS para apurar suposta ligação dele com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "careca do INSS".>
Após a votação, parlamentares chegaram a entrar em confronto e houve empurra-empurra.>
A oposição questionou o resultado, apontando suposto erro na contagem de votos durante a votação simbólica. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), rejeitou o pedido de anulação. >
A bancada governista levou a solicitação ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que manteve a quebra do sigilo de Lulinha. >
Na semana anterior, a CPMI já havia aprovado a quebra de sigilo fiscal e bancário da empresária Roberta Luchsinger, que é amiga de Lulinha. >
Em dezembro, quando a Polícia Federal realizou uma nova fase da operação 'Sem Desconto', foram revelados pagamentos que somam R$ 1,5 milhão feitos por ordem de Antunes à empresária Roberta Luchsinger. >
A mesma operação resultou na prisão do "número 2" do Ministério da Previdência, Adroaldo da Cunha Portal. >
Os investigados negaram envolvimento em quaisquer irregularidades.>
Uma das transferências feitas a Luchsinger, no valor de R$ 300 mil, foi citada em mensagens que constam na investigação da PF nas quais Antunes afirma que o dinheiro seria destinado ao "filho do rapaz". Segundo o jornal Folha de S.Paulo, os investigadores suspeitavam que a referência dizia respeito a Lulinha.>
Questionado sobre o assunto em dezembro, Lula declarou que "todas as pessoas envolvidas" no esquema de desconto ilegal de benefícios do INSS seriam investigadas. >
"Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado", afirmou.>
As investigações apontam que Antunes era um dos principais operadores do esquema e atuava como intermediário entre sindicatos e associações e servidores do INSS, recebendo valores descontados indevidamente de aposentados e pensionistas e repassando parte dos recursos a funcionários do instituto, familiares e empresas ligadas a eles.>
Segundo a Polícia Federal, pagamentos feitos por ordem de Antunes foram destinados à empresa RL Consultoria e Intermediações, que tem Luchsinger como sócia.>
Os repasses teriam partido da Brasília Consultoria Empresarial Ltda., apontada como empresa de fachada ligada ao grupo de Antunes, e teriam como justificativa serviços que não foram efetivamente prestados.>
A investigação da PF aponta que a empresária atuaria como integrante vinculada ao núcleo político da organização criminosa investigada, com papel considerado essencial na ocultação de patrimônio, na movimentação de valores e na gestão de estruturas empresariais usadas para lavagem de dinheiro. >
A investigação também aponta que ela seria um dos elos entre Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes em projetos na área da saúde.>
Em mensagens analisadas pela PF, Luchsinger relata a Antunes que "acharam um envelope com nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão" e o orienta a se desfazer de telefones. Em outro momento, envia um áudio tentando tranquilizá-lo e menciona que, "na época do Fábio", também teriam surgido acusações semelhantes, ligadas à empresa Friboi.>
A pressão contra o filho de Lula aumentou após a CPMI tomar conhecimento do depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do INSS, à Polícia Federal.>
Segundo o portal Poder360, que teve acesso ao depoimento, Claro acusa Lulinha de manter uma relação de proximidade e até uma sociedade empresarial com Antunes.>
Ele teria dito que o filho de Lula recebeu uma cifra de 25 milhões (sem especificar em qual moeda) do "careca do INSS", além de uma "mesada" de R$ 300 mil.>
Ainda, de acordo com o depoimento de Claro, Lulinha atuava como uma espécie de lobista para Antunes e eles teriam viajado juntos várias vezes para Portugal.>
Edson Claro é um dos alvos da investigação da Polícia Federal. Ele prestou depoimento em 29 de outubro de 2025.>
De acordo com o Poder360, não fica claro o tipo de sociedade que Lulinha tem ou pode ter mantido com o "careca do INSS" com base no que diz Edson Claro.>
Apesar disso, o veículo pontua que as citações ao filho de Lula na investigação são fartas. Ele é citado em conversas de WhatsApp em situações que poderia ajudar, de alguma forma, os acusados de fraudar o INSS.>
Fábio Luis, mais conhecido como Lulinha, é o filho mais velho de Lula com Marisa Letícia. Ele é formado em biologia e chegou a trabalhar como estagiário em um zoológico em São Paulo. Hoje ele tem empresas no ramo de tecnologia.>
Nos anos 2000, o filho de Lula se tornou sócio da empresa Gamecorp, que atuava no ramo de jogos eletrônicos.>
Em 2019, o Ministério Público Federal denunciou Lulinha e outras 10 pessoas por suposto recebimento de vantagens indevidas da Oi/Telemar, entre 2004 e 2016. >
Em 2020, ele foi alvo da Operação Lava Jato, investigado por suspeita de receber repasses de mais de R$ 100 milhões do grupo Oi/Telemar para suas empresas, em troca de decisões favoráveis do governo durante as gestões petistas. >
O caso foi arquivado. >
Em julho, o portal Metrópoles divulgou que Lulinha se mudou para a Espanha e só voltaria ao Brasil após o fim do mandado de Lula. Ele teria sido contratado para trabalhar para uma empresa em Madri.>
Em abril de 2025, uma investigação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal (PF) revelou uma fraude bilionária no INSS, que roubou centenas de milhares de aposentados por meio de descontos não autorizados em seus benefícios.>
Segundo a polícia, sindicatos e associações de aposentados conseguiam, por meio de convênios com o INSS, descontar mensalidades de aposentados e pensionistas sem autorização.>
Estima-se que o esquema envolva R$ 6,3 bilhões em descontos, entre valores legais e ilegais, no período de 2019 a 2024.>
Entre os investigados na primeira fase da Operação estavam seis servidores públicos, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. Ele foi demitido do cargo após a operação e preso em novembro. >
Em setembro, novas prisões foram feitas, entre elas do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS". >
Segundo a Polícia Federal, empresas ligadas a ele teriam operado como intermediárias financeiras das associações investigadas na fraude.>
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