Publicado em 27 de março de 2026 às 17:34
A proposta de relatório final da CPMI do INSS — comissão parlamentar que investigou fraudes no pagamento de aposentadorias — pediu o indiciamento e a prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conhecido como "Lulinha". O documento foi divulgado nesta sexta-feira (27/3).>
O relatório é de autoria do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), que integra a oposição ao governo Lula — parlamentares da base de Lula o acusam de agir politicamente, de olho em dividendos eleitorais em outubro. >
Gaspar afirma haver indícios de que o filho de Lula teria cometido quatro crimes: tráfico de influência; lavagem ou ocultação de bens; organização criminosa; e participação em corrupção passiva.>
Na visão de Gaspar, elementos colhidos pela Polícia Federal e compartilhados com a CPMI teriam comprovado a ligação entre Fábio Luís e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "careca do INSS".>
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Apontado pela PF como um dos principais operadores das fraudes no INSS, Antunes está preso preventivamente desde setembro.>
"Os indícios demonstram que Fábio Luís não figurou como mero espectador das atividades de Antônio Carlos Camilo Antunes: ao contrário, há elementos robustos que apontam para uma atuação consciente e interessada, em que o capital político representado pelo sobrenome presidencial era monetizado por meio de uma engenharia de interposição de pessoas e empresas, cujo elo era a empresária Roberta Luchsinger", escreveu Gaspar.>
A defesa de Lulinha nega qualquer envolvimento no desvio de aposentadorias, mas reconhece que o filho do presidente teria analisado a possibilidade de participar em um negócio de produção de canabidiol medicinal com Antunes.>
Segundo os advogados de Fábio Luís, foi isso que levou o filho de Lula a viajar a Portugal com o Careca do INSS, com custos bancados por Antunes. A parceria, no entanto, não teria ido adiante.>
Falando ao jornal Folha de S.Paulo, o advogado de Roberta Luchsinger, Bruno Salles, afirmou que "não há qualquer elemento de materialidade para o indiciamento por qualquer delito. Nos autos da investigação do STF, demonstramos que prestou serviços regularmente, recebeu os valores correspondentes e não os repassou a ninguém". >
Segundo ele, "qualquer conclusão distinta não passa de odiosa ilação com conotação eminentemente política. Não espanta que o ato final de um CPI transformada em picadeiro, seja uma grande palhaçada".>
O relatório ainda precisará ser submetido à votação na CPMI, que poderá aprovar ou rejeitar as recomendações do relator. A decisão deve ocorrer ainda nesta sexta-feira ou até sábado (28/3), último dia de funcionamento da comissão, já que o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou pedido para prorrogar a CPMI à revelia da recusa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. >
Caso o relatório seja aprovado, as acusações serão encaminhadas ao Ministério Público Federal, que avaliará uma possível denúncia criminal contra Lulinha e os outros 215 indiciados.>
A divulgação do relatório e as investigações da PF são os episódios mais recentes de uma longa história envolvendo os negócios de Lulinha que remonta pelo menos vinte e um anos.>
Em 2005, outra CPMI, a dos Correios, investigava as denúncias de que o governo comprava o voto de parlamentares para aprovar projetos no Congresso, no caso que ficou conhecido como escândalo do mensalão. Naquele mesmo ano, os negócios de Lulinha vieram à tona e, por pouco, não entraram no relatório final da comissão.>
Ao longo das duas últimas décadas, nem mesmo o perfil discreto adotado pelo filho de Lula foi capaz de tirá-lo das atenções das autoridades e da oposição. Ele foi alvo tanto de boatos quanto de investigações conduzidas pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) durante a Operação Lava Jato.>
Os inquéritos foram arquivados ao longo dos anos, mas agora, ele enfrenta uma nova leva de investigações.>
Mas o que fez com que Lulinha se tornasse, ao longo dos últimos anos, uma espécie de "calcanhar de Aquiles" do presidente Lula?>
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o escrutínio sobre a vida de filhos e parentes de chefes de Estado é comum não apenas no Brasil, mas em outros países.>
Segundo eles, os negócios de Lulinha com pessoas próximas ao governo vêm inspirando suspeitas ao longo dos anos e que isso pode ter um impacto, ainda que limitado, à campanha de reeleição de seu pai.>
Lulinha entrou no radar das autoridades (e da oposição) em 2005, ainda no primeiro mandato de seu pai. Durante a CPMI dos Correios, instalada após a revelação do caso do mensalão, as relações comerciais de Lulinha começaram a vir à tona.>
Naquela época, parlamentares de oposição pediram que a CPMI investigasse os repasses de R$ 5 milhões da Telemar (atual Oi) para a Gamecorp, uma empresa de mídia da qual Lulinha era sócio.>
As suspeitas eram de que a Telemar, que tinha entre seus sócios o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), controlado pelo governo federal, só teria feito o repasse porque Lulinha era filho do presidente Lula.>
A oposição chegou a pedir que Lulinha fosse indiciado pela CPMI, mas, na última hora, segundo divulgou o jornal Folha de S. Paulo à época, o nome de Lulinha foi retirado do relatório.>
O caso, no entanto, voltou à tona anos depois.>
Em 2007, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar os repasses da Telemar à Gamecorp.>
Como a empresa é concessionária pública e tinha o BNDES como sócio, o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para averiguar suspeitas de crimes como tráfico de influência e se o investimento da companhia na Gamecorp teria causado prejuízos aos sócios da operadora de telefonia.>
A investigação, no entanto, foi arquivada em 2012 sem que nenhum depoimento fosse tomado. Naquela ocasião, o então advogado de Lulinha, Roberto Teixeira, negou qualquer irregularidade nos repasses recebidos pela empresa e disse que "inexiste qualquer impedimento legal para que Fábio Luis possa participar de sociedade pelo fato de ser filho do atual presidente".>
Ainda de acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o procurador responsável pelo caso, Marcus Goulart teria reconhecido que a transação envolvendo as empresas e o fato de Lulinha ser filho do então presidente poderiam levantar suspeitas de favorecimento ou tráfico de influência, mas que "todas essas ilações podem convencer os leigos, mas são absolutamente insuficientes para levar o operador do direito a tomar uma decisão.">
O caso envolvendo a Gamecorp voltou a rondar a família Lula da Silva em 2015. Naquele ano, foi a vez da Força Tarefa da Lava Jato abrir uma nova investigação sobre o assunto.>
Em 2019, a PF deflagrou uma operação no âmbito da Lava Jato que cumpriu mandados de busca e apreensão contra vários alvos, entre eles, Lulinha.>
A operação apurava suspeitas de que a Telemar/Oi teria feito pagamentos de R$ 132 milhões a empresas ligadas aos irmãos Fernando e Kalil Bittar e de Jonas Suassuna. Os três, por sua vez, eram sócios de Lulinha na Gamecorp. Segundo os procuradores, a Gamecorp teria recebido um total de R$ 82 milhões.>
As suspeitas, segundo o MPF, eram de que os pagamentos haviam sido feitos em troca de decisões do governo favoráveis à empresa, como a que permitiu a fusão da antiga Brasil Telecom e da Telemar, originando a Oi.>
"O maior ativo que a Oi/Telemar buscava na Gamecorp era o fato de que entre os seus sócios estava o filho do então presidente da República", disse o então procurador do caso, Roberson Pozzobon, durante uma entrevista à época.>
A defesa de Lulinha, novamente, negou que os repasses feitos pela Telemar/Oi fossem contrapartidas por decisões do governo.>
Em 2022, a investigação contra Lulinha foi novamente arquivada. Daquela vez, a Justiça Federal de São Paulo arquivou o caso com base na suspeição do então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, o atual senador Sergio Moro (PL-PR).>
A suspeição foi declarada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e, na prática, invalidou atos praticados por Moro relacionados ao então ex-presidente Lula e pessoas ligadas a ele.>
Como a investigação contra Lulinha se baseava em quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico ordenados por Moro, a Justiça Federal de São Paulo entendeu que as evidências que embasaram a investigação também estavam anuladas.>
O nome de Lulinha começou a aparecer nas investigações sobre as fraudes no INSS depois que a PF passou a se debruçar sobre as atividades de Antunes.>
Segundo as investigações, Antunes atuaria como intermediário entre sindicatos e associações e servidores do instituto, recebendo valores descontados indevidamente de aposentados e pensionistas e repassando parte dos recursos a funcionários do INSS, familiares e empresas ligadas a eles.>
Já a empresária Roberta Luchsinger, também alvo das investigações, é apontada como amiga próxima de Lulinha e elo entre ele e Antunes, sendo suspeita de ter intermediado pagamentos para o filho do presidente.>
De acordo com o relatório da CPMI, a testemunha Edson Claro, ex-empregado de Antunes, disse à PF que "o Careca do INSS fez um pagamento de 25 milhões (em moeda desconhecida) para Fábio Luís e pagava também uma 'mesada' de cerca de R$ 300 mil.">
Além disso, aponta o relator da CPMI, a Polícia Federal identificou uma troca de mensagens entre Antunes e outro funcionário seu, Milton Salvador de Almeida Júnior.>
Nessa conversa, diz o relatório, "Milton questiona Antônio [Camilo Antunes] acerca de quem seria o destinatário de um pagamento de R$ 300 mil, ao que Antônio responde de forma lacônica: 'o filho do rapaz'. Na sequência, Milton encaminha a Camilo o comprovante de transferência de R$ 300 mil para a empresa de Roberta Luchsinger".>
Para a Polícia Federal, nota Gaspar, a expressão "o filho do rapaz" seria uma referência velada ao filho de Lula.>
O relatório da CPMI também lista três viagens que Lulinha fez à Europa em datas coincidentes com o Careca do INSS, ao longo de 2024, segundo passagens aéreas no nome dos dois levantadas pela PF.>
Eles teriam estado juntos em Lisboa em junho e novembro, e em Madri em setembro. Luchsinger teria participado da primeira viagem a Lisboa e da ida a Madri.>
"Está provado que o dinheiro roubado de aposentados e pensionistas foi utilizado em benefício de Lulinha para a aquisição, por Careca do INSS, de passagens de primeira classe em voos internacionais, bem como hospedagens de luxo em países europeus", diz o relatório de Gaspar.>
O relatório cita ainda reportagem do jornal O Globo revelando que Antunes esteve cinco vezes no Ministério da Saúde entre 2024 e 2025, segundo registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Em uma delas, estava acompanhado de Luchsinger.>
"Os indícios apontam que Fábio Luís, valendo-se de sua posição de filho do Presidente da República, teria recebido valores periódicos de Antônio Camilo, por intermédio da empresa de Roberta Luchsinger, como contraprestação pela facilitação de acesso a órgãos federais, notadamente o Ministério da Saúde e a ANVISA, onde o lobista buscava viabilizar negócios no setor de cannabis medicinal e telemedicina", escreveu Gaspar.>
Parlamentares da base do governo contestam o relatório de Gaspar e acusam o relator da CPMI de ter agido politicamente durante as investigações da comissão.>
"O relator tá preocupado em ser [eleito em outubro] senador por Alagoas. Essa é a verdade", disse o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) na CPMI, chamando também a CPMI de "circo".>
Assim como ele, outros parlamentares petistas afirmaram que a fraude no INSS começou antes do governo Lula e foi apurada em sua gestão por causa da autonomia garantida à Polícia Federal.>
"No governo Bolsonaro, os bandidos entraram pra dentro do INSS pra roubar velhinhos aposentados. E, no governo Lula, deflagrou a operação [da PF] Sem Desconto", disse a deputada Dandara Tonantzin (PT/MG), antes da leitura do relatório de Gaspar.>
No total, o relatório de Gaspar pede o indiciamento de 216 pessoas, incluindo Antunes, Roberta Luchsinger e parlamentares, como o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE).>
Entre os indiciados, estão também o ex-ministro da Previdência Carlos Lupi, o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente acusado de fraudes no Banco Master, do qual era dono.>
Apesar do foco no INSS, a CPMI acabou entrando no escândalo do Banco Master, com o argumento de apurar irregularidades em empréstimos consignados para aposentados.>
Isso levou à PF a compartilhar material sigiloso da investigação do Master com a CPMI do INSS, conteúdo que acabou vazado para a imprensa, revelando a proximidade de Vorcaro com autoridades, como parlamentares e o ministro do STF Alexandre de Moraes.>
Foi nesse contexto que a CPMI não teve sua prorrogação autorizada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Parlamentares interessados na continuidade da comissão pediram sua prorrogação ao STF, mas a maioria dos ministros negou o pedido por entender que essa decisão cabia ao Congresso.>
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Ao mesmo tempo em que se viu alvo de investigações, Lulinha também passou a ser o personagem de diversos boatos e especulações envolvendo o seu nome.>
O principal deles era o de que ele seria uma espécie de sócio-oculto do frigorífico JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.>
Os dois, por sua vez, chegaram a ser presos durante a Operação Lava Jato e firmaram acordos de colaboração premiada no qual revelaram pagamento de vantagens indevidas a políticos.>
Apesar disso, não foram encontradas evidências de que Lulinha teria tido qualquer tipo de participação societária no grupo econômico do qual faz parte da JBS.>
Agências de checagem desmentiram, pelo menos duas vezes, os boatos de que Lulinha seria sócio da empresa.>
Outro rumor que afetou a imagem de Lulinha era o de que ele seria o dono de um carro esportivo da marca Ferrari banhada a ouro.>
O boato também foi desmentido por agências de checagem.>
Impacto político>
Para a cientista política Luciana Santana, professora de Ciência Política na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Lulinha se tornou um personagem politicamente útil porque sua figura permite condensar críticas mais amplas ao lulismo e ao próprio presidente Lula.>
Segundo ela, o caso reúne, de uma só vez, suspeitas sobre a proximidade familiar e supostos acessos privilegiados a benefícios econômicos.>
"O ponto central, desde então, nunca foi apenas a figura privada de Fábio Luís, mas o valor político do enredo: transformar o filho do presidente em atalho narrativo para atingir o próprio Lula", afirma.>
A professora de Ciência Política da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Denilde Holzhacker faz uma avaliação semelhante. "Essas relações que Lulinha manteve em sua vida comercial sempre levantam suspeitas sobre o quanto ele utilizou ou não sua posição de filho do presidente para fazer negócios".>
Para Holzhacker, isso faz de Lulinha um "flanco sensível para Lula porque seu nome reaparece ligado a investigações e a narrativas sobre tráfico de influência".>
Santana também avalia que o caso tem uma dimensão simbólica.>
Segundo ela, filhos de presidentes ou de chefes-de-Estado funcionam como "atalhos morais" no debate público.>
"Em vez de discutir apenas decisões de governo, a oposição desloca o foco para a família presidencial, onde a acusação costuma produzir mais indignação, mais personalização e mais repercussão. No caso de Lulinha, isso foi facilitado pelo contraste explorado publicamente entre sua situação anterior e sua ascensão empresarial após Lula chegar ao Planalto", explica.>
Holzhacker e Santana concordam que o escrutínio à vida privada ou comercial de filhos de chefes-de-Estado é um padrão não apenas no Brasil, mas no exterior. "A gente viu isso com o filho do ex-presidente Joe Biden (Hunter Biden) e agora com os filhos e o genro do presidente Donald Trump", diz Holzhacker.>
Hunter Biden foi alvo de investigações nos Estados Unidos por suspeitas de negócios ilegais na China e na Ucrânia enquanto seu pai era vice-presidente dos Estados Unidos.>
Os filhos de Trump, por outro lado, vêm gerando polêmica por fazer negócios no ramo imobiliário e investidas no mundo das criptomoedas enquanto o pai está no comando do país.>
"A gente vê isso com filhos de políticos de outros países e, mais recentemente, até em relação a filhos de ministros do Judiciário brasileiro", diz Holzhacker.>
Ao olhar para 2026, o caso envolvendo Lulinha reativa o sentimento negativo contra o PT em relação a denúncias de corrupção. Apesar disso, ela pondera que o desgaste para a campanha à reeleição de Lula não seria automático.>
Segundo ela, isso se daria porque, apesar das citações a Lulinha no caso da CPMI do INSS, sua defesa estaria atuando para minimizar o impacto dessas investigações e porque, apesar disso, Lula ainda vem se mostrando competitivo no cenário eleitoral.>
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