Publicado em 26 de novembro de 2025 às 17:24
Enquanto o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, vive sob suspense ante a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de executar ações militares na Venezuela, muitos cidadãos venezuelanos seguem a vida tentando resolver desafios básicos como botar comida no prato.>
É quarta-feira de manhã no mercado popular de Quinta Crespo, no centro de Caracas, capital da Venezuela. Ali, uma possível escalada de conflito não parece perturbar a maioria.>
"Não vai haver intervenção, nada disso. O que nos prejudicou foi a valorização do dólar", disse Alejandro Orellano, que toma um café enquanto espera clientes que não chegam, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.>
Desde setembro, o governo Trump reúne tropas e recursos militares a poucos quilômetros da Venezuela. O dispositivo inclui mais de 15 mil militares e o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R.Ford.>
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Até a manhã de segunda-feira (24/11), ao menos sete companhias aéreas internacionais haviam cancelado voos saindo da e chegando à Venezuela após um alerta da autoridade de aviação dos EUA sobre os riscos de sobrevoar o espaço aéreo do país.>
Há semanas, os EUA realizam ataques aéreos contra supostas "narcolanchas" no Caribe e no Pacífico oriental. Ao menos 83 pessoas morreram nos ataques.>
O governo americano acusa os alvos de tráfico de drogas, mas até o momento não apresentou provas. Alguns analistas creem que os ataques são parte de um plano para forçar a saída de Maduro.>
O governo venezuelano é considerado ilegítimo pelos EUA e vários países da América Latina após as polêmicas eleições presidenciais de 2024, amplamente criticadas pela comunidade internacional. O Brasil não reconheceu a vitória de Maduro.>
Alejandro Orellano, que vende hortaliças neste mercado há cinco anos, minimiza a troca de ameaças entre os governos americano e venezuelano.>
"Olha, veja como está vazio", insiste, apontando para um corredor longo e vazio, repleto de frutas e verduras frescas.>
O inimigo comum entre os presentes parece ser a alta abrupta dos preços dos alimentos e a pouca capacidade de comprá-los.>
Um quilo de frango, por exemplo, custa cerca de quatro vezes o salário mínimo mensal oficial. Mesmo com os bônus pagos pelo governo a pensionistas e servidores públicos, o dinheiro não cobre a cesta básica.>
Outra realidade é que, desde os protestos antigovernamentais ocorridos após as contestadas eleições presidenciais de 2024, boa parte da sociedade venezuelana evita falar abertamente sobre assuntos que podem ser sensíveis para o governo Maduro.>
Durante e depois das manifestações, mais de 2 mil pessoas foram detidas, segundo dados oficiais.>
Atualmente, 884 pessoas seguem presas por motivos políticos, segundo a organização não governamental Foro Penal.>
Há relatos de pessoas detidas após dar declarações à imprensa nas quais reclamavam do governo ou questionavam os resultados eleitorais.>
Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) denunciaram graves violações de direitos humanos no contexto daquelas eleições e dos protestos que ocorreram nos dias seguintes.>
Eles relataram perseguição política, uso excessivo da força, desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais cometidas por forças de segurança do Estado e por grupos civis aliados.>
Sobre uma possível ação dos EUA no país, Consuelo, 74, é cética e hesita.>
"Que aconteça o que tiver de acontecer… e pronto!", disse à BBC Mundo.>
"Será verdade? Será mentira? Isso só deixa a gente doente, vivendo nervosa… é melhor manter a calma. As emoções também podem afetar a saúde", afirma a professora universitária aposentada, mas que ainda trabalha.>
"Eu não saio comprando por impulso. Para isso, a gente precisa ter muito dinheiro.">
Bárbara Marrero, confeiteira de 40 anos, disse: "Estamos todos esperando que algo aconteça, porque é justo e necessário. São anos mergulhados em uma miséria absoluta.">
"Os venezuelanos vivem um dia de cada vez esperando que algo ocorra, mas todos têm medo [de falar], e ninguém diz nada.">
"Estamos assustados, calados, com receio de ser presos. Eu sempre publicava coisas, mas agora não, não devo, porque não sei quem pode me denunciar", disse por telefone à BBC Mundo uma comerciante de Ciudad Bolívar, no leste do país.>
"Há esperança, fé, mas as pessoas estão caladas de medo. Ninguém fala disso; é só dentro de casa, com os seus… mas há um ar de alegria", disse a mulher, sob anonimato.>
Já é meio-dia.>
Tudo segue como de costume em uma avenida movimentada no leste de Caracas. Camelôs chamam clientes, pedestres vão e vêm…>
Ali está Javier Jaramillo, 57, que procura mercadorias para revender no Natal. Ele aguarda com expectativa o porta-aviões que os EUA enviaram ao Caribe.>
"Não acredito que esse ataque vá acontecer. Acho que pode haver um diálogo, um acordo, um acerto.">
Ainda assim, disse que, quando há cortes de energia, pensa: "Já entraram", "vão entrar".>
De qualquer forma, Jaramillo insiste: "O que mais preocupa é a comida… Não acredito que vá haver um ataque.">
"A Venezuela está muito mal (...) A inflação está nos consumindo, aqui não há dinheiro que valha dólar, euro.">
"Sou um venezuelano passando necessidade… E o que queremos é que haja um acerto.">
"Fiquem atentos, olhos abertos. Que ninguém durma!", pediu Maduro à população na noite de quinta-feira (20/11).>
"Temos que defender as instalações petrolíferas da CIA. Deram dinheiro a eles e mandaram prejudicar a economia dos venezuelanos'", continuou o governante.>
Maduro se congratula repetidamente pela gestão da economia venezuelana, afirma que o país está sob cerco dos EUA, entre sanções e o desdobramento militar no Caribe.>
Dois economistas que vivem na Venezuela consultados pela equipe da BBC para esta reportagem preferiram não dar declarações por medo de represálias do governo.>
"A inflação chegou a níveis da ordem de 20% ao mês nos últimos meses", disse outro especialista, que pediu anonimato.>
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta alta de 548% nos preços neste ano e afirma que a situação será pior em 2026, quando a inflação pode chegar a 629%, a maior do continente.>
Maduro, por sua vez, ressalta que o PIB do país crescerá 9%.>
Esther Guevara, 53, que trabalha em um laboratório médico, é uma das poucas que não esconde a preocupação diante das tensões provocadas pelo envio da frota naval dos EUA.>
"Fico apreensiva porque não sei realmente o que está acontecendo, se vão mesmo invadir, extrair… As pessoas acham que é muito fácil, muito tranquilo, e é algo sério. Muitas pessoas inocentes podem morrer.">
"Sinto que algo está sendo preparado por aí, mas estou aguardando", afirmou.>
"Trump precisa cair em si", disse Francisco Ojeda, 69, morador de Petare, bairro pobre de Caracas, e integrante da milícia do governo venezuelano, em conversa com a BBC News Mundo.>
Ojeda participou de alistamentos militares convocados por Maduro e manuseou armas de guerra, embora sem munição.>
"Aqui ninguém vai ficar parado diante de uma invasão", disse.>
"Se vierem, vieram; se não vierem, tudo bem. Mas queremos tranquilidade e harmonia para todos.">
"Nós estamos tranquilos… Aqui todo mundo dança, vai à praia, trabalha, tudo está normal.">
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