Publicado em 23 de novembro de 2025 às 17:24
Todos nós sabemos que o uso frequente do celular prejudica as relações pessoais, mas isso não nos impede de recorrer ao aparelho várias vezes por dia. >
É assim que o phubbing (expressão em inglês para o ato de involuntariamente ignorar alguém em favor do celular) se infiltra em situações cotidianas.>
A prática pode fazer com que parceiros se sintam ignorados e, no caso de pais, pode afetar crianças, do enfraquecimento de vínculos com as crianças mais novas à queda de autoestima entre as mais velhas.>
Mas em vez de culpar a falta de autocontrole, focar o uso intencional do aparelho pode ser mais eficaz, afirma a psicóloga Kaitlyn Regehr, professora associada da University College London, no Reino Unido.>
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A cada vez que for usar o aparelho, explique à outra pessoa o motivo de estar fazendo isso e, ao terminar, guarde o celular e retome a conversa.>
A recomendação parece básica, mas Regehr afirma ao programa Woman's Hour ("Hora da Mulher", em tradução livre), da BBC, que essa pequena mudança ajuda a ajustar comportamentos, já que muita gente checa mensagens, desliza notificações ou "dá só uma olhada rápida" sem se dar conta.>
O importante é ser transparente. Portanto, se aparecer uma mensagem que você precisa checar, diga à pessoa ou pessoas com quem você está: "Só preciso responder isso; depois volto a prestar atenção".>
Ao descrever a ação — "preciso ver o horário do trem" ou "estou respondendo minha mãe" —, se interrompe o hábito automático e sinaliza para a pessoa ao seu lado que ela ainda é importante.>
"Isso impede que o outro se sinta ignorado", diz Regehr.>
"E te mantém responsável, porque reduz a chance de se perder em outros aplicativos ou em rolagens intermináveis.">
Fazer isso também pode ajudar a melhorar seus relacionamentos.>
Outra pesquisa reforça o impacto dessas ações. A psicóloga Claire Hart, professora associada da University of Southampton, no Reino Unido, ouviu 196 pessoas sobre relações e uso do celular. >
Segundo ela, quanto mais alguém sente que está sendo alvo de phubbing, pior tende a ser sua relação.>
"Nem todos reagem da mesma forma", afirma. "Depende da personalidade, mas, quando alguém se sente ignorado, isso pode gerar reação.">
O parceiro então pega o próprio celular, e a dinâmica vira um ciclo no qual cada um se sente rejeitado ou menos valorizado do que o que aparece na tela.>
Cada episódio de phubbing interrompe a conexão. Depois de abandonar um momento compartilhado para olhar o aparelho, pode levar tempo até retomar o que estava acontecendo antes.>
Nossos cérebros buscam naturalmente ser recompensados. Temos certos centros neurais que reagem ao prazer — ao sexo, às drogas, a ganhar dinheiro em um cassino —, e esperam que isso se repita várias vezes.>
Isso é conhecido como sistema ou circuito de recompensa do cérebro, e é exatamente o mesmo mecanismo pelo qual uma pessoa se torna dependente de uma substância como o álcool.>
Mas há outra parte do cérebro que luta contra esses impulsos de busca por prazer e recompensa imediata: o córtex pré-frontal.>
É a região do cérebro responsável por fazer você tomar decisões menos impulsivas e mais equilibradas — aquela que faz você, por exemplo, parar de rolar a tela, levantar do sofá e decidir arrumar a casa ou praticar exercício físico.>
O que acontece com muita gente é que "a parte lógica do nosso cérebro que controla os nossos impulsos não está fazendo a sua parte, ou pelo menos não tão bem quanto poderia, está sobrecarregada pela busca por prazer", afirma Éilish Duke, professora de Psicologia na Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido.>
Duke diz que a primeira coisa que precisamos entender é que o impulso de pegar o celular e acionar a tela, que desencadeia a rolagem, é automático.>
Não temos consciência disso porque construímos esse hábito ao longo do tempo — como fechar a porta ao sair de casa, por exemplo.>
"Em uma pesquisa que fizemos há alguns anos, descobrimos que os participantes achavam que verificavam seus telefones a cada 18 minutos, mas quando usamos gravadores de tela, percebemos que, na verdade, eles verificavam (o celular) com muito mais frequência.">
Segundo a professora Ariane Ling, do departamento de psiquiatria do NYU Langone Health (EUA) , o hábito da rolagem de tela pode ser explicado pelo comportamento natural dos seres humanos, mas é agravado por fatores ambientais.>
Ling explica que o ser humano está programado para querer saber o que está acontecendo. É por isso que lemos as notícias ou, por exemplo, paramos para olhar quando há um acidente na estrada. É algo que faz parte do desenvolvimento evolutivo que nos permitiu sobreviver.>
E nosso celular foi projetado para nos alimentar continuamente com informações que nos interessam. É um casamento perfeito.>
Segundo Duke, o que acontece quando rolamos a tela do celular é que entramos em um estado de fluxo.>
O conceito de fluxo em psicologia se refere a um estado mental em que a dificuldade da tarefa que uma pessoa está realizando se ajusta muito bem ao nível de atenção e habilidade que ela tem para oferecer naquele determinado momento.>
Aplicativos como o TikTok, em que o algoritmo muda constantemente e oferece coisas novas especialmente direcionadas a você, alimentam diretamente este estado de fluxo.>
"Eles absorvem toda a sua atenção, e você entra em uma fase de distorção do tempo em que não percebe que duas horas se passaram, e você está sentado com a mão dormente, e perdeu todo esse tempo vendo vídeos de cachorrinhos", acrescenta Duke.>
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