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'Esta guerra não é nossa': a divisão na base de Trump após decisão de atacar o Irã

'Esta guerra não é nossa': a divisão na base de Trump após decisão de atacar o Irã

Os apoiadores mais fiéis a Donald Trump permanecem do seu lado. Mas uma quantidade significativa de republicanos manifesta sérias dúvidas sobre a política externa do presidente.

Publicado em 16 de março de 2026 às 16:36

Imagem BBC Brasil
O ex-apresentador da rede de TV Fox News Tucker Carlson manifestou críticas à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã Crédito: Getty Images

"Esta guerra é de Israel, não é dos Estados Unidos."

O vídeo foi postado no YouTube menos de dois dias depois que os Estados Unidos e Israel começaram seus ataques mais recentes ao Irã. Ele foi visualizado mais de dois milhões de vezes.

Mas a opinião não é de um ativista anti-Trump, nem por um crítico do presidente americano.

O monólogo veio de uma das vozes mais influentes da direita dos Estados Unidos: o ex-apresentador da rede de TV Fox News Tucker Carlson.

"Os países perdem muita liberdade durante a guerra, desce um espírito de violência e as pessoas mudam rapidamente", afirmou Carlson.

O jornalista é apoiador de Donald Trump de longa data. Ele teria se encontrado com o presidente americano várias vezes no último mês, tentando dissuadi-lo de ordenar a ação militar.

"Você pode sentir a sede de sangue nas pessoas, o ódio, e ele se acelera."

O conselho de Carlson foi claro: "Saiam imediatamente. Simples assim. Claro, também é incrivelmente complicado, mas a primeira medida é decidir que estamos saindo."

Muitos dos apoiadores mais fervorosos de Trump apoiam a atual ação militar. Mas as pesquisas indicam que um em cada quatro republicanos pensa diferente.

Este debate é a indicação mais clara que já existiu de divisões na coalizão que levou Trump de volta à Casa Branca.

Os argumentos relativos à agenda do presidente, "América em primeiro lugar", e seus apoiadores vêm subindo o tom há meses.

Mas a guerra no Irã cristalizou as lutas internas. E algumas pessoas de dentro do grupo receiam que elas poderão prejudicar os republicanos nas eleições de meio de mandato, em novembro deste ano.

O que indicam as pesquisas

É comum que a popularidade dos presidentes americanos aumente nas primeiras fases de uma ação militar, quando o patriotismo cresce repentinamente e as pessoas "cerram fileiras em torno da bandeira" do país.

Mas não foi o que aconteceu desta vez.

Uma média das pesquisas, compilada pelo portal RealClearPolitics, indica que a aprovação líquida de Trump, que está em baixa há um ano, pouco mudou desde o início da guerra no Irã.

Diversas pesquisas realizadas desde o começo dos bombardeios indicam que a maior parte dos americanos reprova a ação militar. Em uma pesquisa da rede de TV NBC News, por exemplo, 54% dos entrevistados discordam da forma como o presidente Trump vem lidando com o Irã.

Esta divisão acompanha as linhas partidárias: 89% dos democratas são contra e 77% dos republicanos são favoráveis à atuação do presidente. Mas, se olharmos mais de perto, existem cisões evidentes na direita.

Nove em cada 10 republicanos que se identificam como "Maga" (partidários do movimento de Trump "Make America Great Again") apoiam a guerra, segundo a NBC.

Estes são apoiadores incondicionais de Donald Trump — as pessoas que comparecem aos seus comícios usando bonés vermelhos e quase sempre apoiam sua agenda.

Mas a mesma pesquisa indicou que os republicanos que não se identificam como Maga são muito mais céticos em relação à guerra. Apenas a metade deles declarou aprovar a operação e mais de um terço se dizem contrários a ela.

"A geração que compõe a base raiz é composta de muitas pessoas que foram para o Iraque e o Afeganistão", afirma o ativista republicano Vish Burra, de Nova York (EUA).

Ele trabalhou para o ex-deputado americano que caiu em desgraça George Santos, filho de imigrantes brasileiros, e para órgãos de imprensa ligados ao movimento Maga.

"Quando eles encerram sua participação neste tipo de esforço de guerra infrutífero... eles voltam para casa, veem suas cidades vazias, que as fábricas foram embora e os opioides tomaram conta."

A oposição à guerra provavelmente irá se intensificar se Trump enviar soldados para lutar em terra, segundo outra pesquisa.

Uma pesquisa da Universidade Quinnipiac, realizada no final de semana de 7-8/3, concluiu que 85% dos republicanos apoiam as ações militares no Irã, mas 52% dos apoiadores do partido se opõem ao envio de forças terrestres.

Pessoas ligadas ao grupo acham que Trump pode conseguir enfrentar os riscos políticos.

O consultor republicano Matt Wylie, do Estado americano da Carolina do Sul, afirma que, apesar das fissuras, a ação militar poderá reforçar o apoio a Trump entre os republicanos tradicionais, uma categoria que inclui membros das alas Maga e "não Maga" do partido.

"Eles ainda consideram que os Estados Unidos são um farol de esperança para as pessoas que buscam a liberdade em todo o mundo", explica ele.

"E este papel traz responsabilidades: defender nossos aliados, proteger as nações livres e permanecer firme quando a tirania ameaça a paz."

Mas a quantidade de pessoas que discordam do presidente tem algumas vozes poderosas. Além de Carlson, o podcaster Joe Rogan chamou a guerra no Irã de "insana". E também há a ex-congressista do Estado da Georgia, Marjorie Taylor Greene.

Imagem BBC Brasil
Durante as eleições, o podcaster Joe Rogan recebeu Donald Trump em uma entrevista que foi considerada dirigida aos eleitores independentes Crédito: Getty Images

Greene rompeu com Trump no ano passado, em uma discussão acalorada que terminou com a sua renúncia ao cargo.

"Nós votamos para não termos mais guerras, sem novas mudanças de regime", escreveu ela no fim de semana de 7-8/3 no X, antigo Twitter.

Para Greene, que fez uma série de postagens contra o ataque ao Irã, "Trump traiu suas promessas de campanha de não fazer mais guerras no exterior".

Greene e Carlson têm alguns aliados em cargos públicos, como o congressista republicano Thomas Massie, do Estado do Kentucky. Ele deu apoio a um projeto para impedir a guerra — o plano acabou derrotado no Congresso.

Mas eles geram mais influência na internet, entre os eleitores que se consideram "Maga real": pessoas politicamente insatisfeitas, que foram atraídas pelas ideias promovidas por Trump durante a campanha, mas que, agora, se mostram indiferentes em relação ao próprio presidente.

Uma influenciadora que aparece orgulhosamente com um desenho de si própria com boné vermelho no seu perfil no X manifestou sucintamente sua opinião: "Não me lembro de ter votado em 'Irã Livre'. Eu votei em 'Tornar a América Grande Novamente'."

Imagem BBC Brasil
Greene, Carlson e Trump fotografados juntos antes da recente discórdia, em um torneio de golfe em 2022 Crédito: Getty Images

Promessas de campanha

No X e em outras plataformas sociais, as postagens vêm destacando declarações contrárias à guerra feitas no passado por Trump e seus consultores.

"Vocês não terão uma guerra comigo e não terão uma guerra contra o Terceiro Mundo comigo", declarou Trump a uma multidão em Nova York, poucos dias antes da eleição de 2024.

Em outubro do ano passado, o vice-presidente J.D. Vance relembrou uma conversa com o ativista conservador assassinado Charlie Kirk (1993-2025).

Vance afirmou que Kirk foi uma das razões por que Trump "nunca levou os Estados Unidos a um conflito militar prolongado e nunca perdeu um único americano em um conflito no Oriente Médio".

Não é mais o caso. Ainda é cedo para saber se este conflito será "prolongado", mas é a operação militar mais significativa realizada por Trump até hoje.

Até o momento, pelo menos 13 americanos morreram na guerra atual, seis deles em um acidente de avião no Iraque, na quinta-feira (12/3).

Houve mortes em Israel e nos países do Golfo. Centenas de pessoas foram mortas no Líbano, nas trocas de ataques entre Israel e o Hezbollah. Já o Irã relatou mais de 1,3 mil mortos.

Vish Burra faz distinção entre o que ele chama de "Maga raiz", descrito por ele como não intervencionista, e o grupo de doadores republicanos que, segundo ele, são favoráveis à guerra e a Israel.

Mas sua própria história indica uma divisão mais profunda na direita americana, com o sentimento anti-Israel, em alguns casos, adquirindo características de antissemitismo.

Burra foi demitido da rede de direita One America News por postar um vídeo gerado por IA mostrando baratas em uma sala com uma estrela de Davi na porta. Ele afirma que não pretendia ser antissemita.

Outros que compartilham suas opiniões sobre o Irã se preocupam menos em parecer racistas ou antissemitas, como o criador de conteúdo Nick Fuentes, de 27 anos. Ele emite opiniões sarcásticas sobre eventos atuais em suas transmissões ao vivo na internet.

Um dos seus comentários foi que "os judeus estão administrando a sociedade, as mulheres precisam calar a boca, a maioria dos negros precisa ser presa e nós viveríamos no paraíso".

Vácuo de poder

Fuentes não respondeu aos pedidos de entrevista enviados pela BBC. Dos bastidores, ele critica o establishment republicano há anos.

Mas o assassinato de Kirk ,uma figura emblemática da direita americana, e o maior descontentamento sobre questões como a economia do país e os arquivos de Epstein criaram um vácuo de poder.

Em outubro passado, Carlson convidou Fuentes para uma conversa basicamente amigável. Nela, Fuentes moderou suas visões mais extremistas, o que despertou enorme debate na direita sobre os limites do seu movimento.

Agora, os extremistas tentam tirar partido de uma oposição muito maior a uma guerra que é impopular.

Eles compõem apenas uma pequena parcela da oposição que faz muito barulho online, mas é numericamente pequena em comparação com os eleitores dos dois partidos e independentes que se opõem à guerra por diversos motivos.

Mas, nos bastidores, existem evidências indicando que as visões extremistas estão se espalhando.

O escritor conservador Rod Dreher, amigo de J.D. Vance, conta que, durante uma recente viagem à capital americana, ele fez uma pesquisa informal entre homens jovens que trabalham na política.

Dreher perguntou a eles quantas pessoas do seu grupo poderiam ser classificadas como groypers, como são conhecidos os seguidores de Fuentes.

"O número que eu mais recebi foi de 30 a 40%", afirma ele. "Isso realmente me deixou chocado."

Vance vem criticando publicamente os extremistas. Ele chegou a usar um insulto escatológico contra Fuentes, durante uma entrevista ao portal Unherd.

Mas Dreher afirma ter ficado desapontado por Vance não ter sido mais contundente nas suas denúncias.

"Estas pessoas não podem ter espaço no movimento conservador dominante como um todo", declarou ele à BBC.

Tudo depende de quanto tempo irá durar

Trump permanece sendo a força mais poderosa do Partido Republicano, o que não é uma surpresa. E seu apoio é cobiçado pelos republicanos que pretendem ganhar as primárias de meio de mandato para o Congresso, que já começaram em alguns Estados americanos.

Durante as últimas campanhas militares, desde o primeiro mandato de Trump, a oposição à direita na internet silenciou com o fim dos combates.

O professor de ciências políticas David Azerrad, do conservador Hillsdale College, afirma que "por enquanto, o presidente pode continuar a ignorar os tagarelas negativistas".

Mas Trump está em meio a um conflito complicado e potencialmente prolongado no exterior. E os especialistas concordam que tudo depende de quanto tempo irá durar a guerra e dos seus efeitos sobre a economia dos Estados Unidos, particularmente sobre os preços do petróleo.

Seu apoio poderá entrar em baixa, segundo o estrategista político Matt Wiley, "especialmente se ela se arrastar por meses, se Trump colocar tropas em terra e se forem perdidas mais vidas americanas".

Ouça aqui o episódio do programa File on 4 Investigates, da BBC Rádio 4 (em inglês), que deu origem a esta reportagem.

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