Publicado em 23 de maio de 2023 às 18:46
- Atualizado há 3 anos
Daqui a oito anos, a operação da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) – símbolo da colaboração global e da capacidade humana – chegará ao fim.>
Mas o dramático encerramento das operações da ISS não precisa ser uma ocasião sombria. Na verdade, ele pode ser o prenúncio de um futuro animador para os voos espaciais humanos que, quem sabe, já estarão em estágio adiantado.>
O projeto da ISS começou em 1998, com o lançamento do módulo russo Zarya, que foi o seu primeiro componente.>
Dezenas de países trabalharam em conjunto para realizar a maior construção humana no espaço. E o mais notável foi a parceria entre dois inimigos ressentidos – os Estados Unidos e a Rússia – após o fim da Guerra Fria e a queda da União Soviética.>
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“Foi simplesmente extraordinário”, afirma a especialista em política espacial Wendy Whitman Cobb, da Escola de Estudos Aéreos e Espaciais Avançados da Força Aérea dos Estados Unidos.>
Para ela, “é realmente uma grande história de cooperação pós-Guerra Fria. A indústria espacial russa estava em maus lençóis. Esta foi uma oportunidade para que os Estados Unidos e a Rússia abrissem uma nova era de trabalho conjunto.”>
O resultado foi uma enorme estação espacial com o tamanho de um campo de futebol, pesando mais de 400 toneladas. Ela orbita o nosso planeta à velocidade de 29 mil quilômetros por hora e seu custo é de pelo menos US$ 150 bilhões (cerca de R$ 744 bilhões).>
A ISS está continuamente habitada desde a chegada da sua primeira tripulação, em novembro de 2000. Mas seus equipamentos estão envelhecendo e, em 2031, ela será retirada de órbita e trazida de volta à atmosfera terrestre, para finalmente cair no Oceano Pacífico.>
Milhares de experimentos científicos já foram realizados na ISS, seja no lado americano e russo da estação, seja nos módulos construídos por europeus e japoneses que foram conectados a ela.>
As pesquisas incluíram a investigação de doenças como o mal de Alzheimer e Parkinson, o estudo de novos estados da matéria e o desenvolvimento de formas de cultivar alimentos no espaço, como alface e rabanetes.>
Morar e trabalhar na estação “foi uma experiência fantástica”, segundo o astronauta Frank de Winne, da Agência Espacial Europeia. Ele visitou a estação duas vezes, em 2002 e 2009. Para de Winne, “é uma experiência única na vida, trabalhar em uma parceria internacional e fazer avançar a humanidade”.>
Mas nem todos concordam que o sucesso da estação tenha sido tão grande.>
O astrônomo real britânico Lord Martin Rees, por exemplo, afirma que o preço tem sido alto demais para o retorno científico obtido. “Com certeza, apenas pela ciência, não valeu a pena”, segundo ele.>
Ele sugere que os países se concentrem mais em missões robóticas, como o Telescópio Espacial James Webb, amplamente bem sucedido, ou as missões em andamento para Marte.>
“Mandar pessoas para o espaço é incrivelmente caro”, afirma ele. “Acho que o futuro dos voos espaciais humanos é para bilionários ou aventureiros.”>
Mas, além das pesquisas, algumas pessoas defendem que a principal conquista da estação foi consolidar a humanidade como uma espécie espacial.>
Antes do lançamento da ISS, nós estávamos começando a aprender sobre as viagens espaciais de longa duração, com os cosmonautas russos que passaram mais de um ano na estação espacial MIR. Mas a ISS nos levou para outro nível, segundo a analista espacial Laura Forczyk, da consultoria americana Astralytical.>
“Ela mudou as nossas ideias sobre o significado de ser uma civilização espacial”, afirma ela.>
De Winne concorda: “Nós não poderíamos ter deixado de construir a estação espacial. Há tantas coisas que aprendemos. Será um dia triste [quando ela for retirada de órbita].”>
Seja como for, o fim da ISS irá encerrar uma demonstração impressionante da colaboração humana, que sobreviveu a guerras e conflitos no nosso planeta.>
A recente invasão da Ucrânia pela Rússia representou o teste mais rigoroso já enfrentado pelo projeto. E, embora a colaboração tenha prosseguido até o momento, uma nova parceria parece improvável no futuro próximo.>
“Os russos não irão mais participar”, afirma a historiadora espacial Cathy Lewis, do Museu Nacional do Ar e do Espaço dos Estados Unidos. “Eles falaram em seguir seu próprio caminho e não serão aceitos após a invasão da Ucrânia.”>
Mas o futuro após a ISS já está sendo planejado. Espera-se que novas estações espaciais comerciais assumam o lugar da ISS na órbita da Terra.>
A Nasa já terceirizou o transporte de seres humanos até a órbita baixa da Terra para as empresas norte-americanas SpaceX e Boeing. E a agência também começou a assinar contratos no valor de centenas de milhões de dólares para o desenvolvimento de novas estações espaciais.>
Essas estações podem tornar-se pequenos laboratórios de pesquisa ou destinos para turistas espaciais, mantendo a presença da humanidade em órbita ao redor do nosso planeta.>
Uma das empresas contratadas é a Axiom Space, que já transportou astronautas que pagaram para embarcar em foguetes da SpaceX até a órbita da Terra.>
A empresa espera começar a anexar módulos à ISS em 2025. Esses módulos poderão ser eventualmente separados para formar sua própria estação, que pode vir a ser alugada para possíveis clientes. Mas nem todos ficaram convencidos com a ideia.>
“Sou realmente cético sobre esses casos comerciais”, afirma o astrônomo Jonathan McDowell, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsoniano, nos Estados Unidos. “Simplesmente não estou convencido de que uma estação espacial possa ser administrada de forma lucrativa.”>
Mas a Nasa e outros parceiros da ISS estão ansiosos para explorar estas oportunidades.>
“Estamos em grandes discussões com todas essas empresas”, afirma Josef Aschbacher, chefe da Agência Espacial Europeia. “Estamos muito interessados em encontrar uma forma de continuar após o fim da ISS.”>
Para a Nasa, a liberação dos US$ 3 bilhões (cerca de R$ 14,9 bilhões) gastos anualmente com a ISS irá permitir que a agência se dedique a outros objetivos nos voos espaciais humanos, especialmente o transporte de astronautas novamente para a Lua e, um dia, para Marte.>
A agência está agora conduzindo seu programa Artemis para voltar à superfície lunar. Em 2024, quatro astronautas irão voar ao redor da Lua pela primeira vez desde 1972, com a Apollo 17. Já o retorno à superfície do satélite está planejado para 2025.>
“A estação é cara”, afirma o especialista em política espacial John Klein, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. “Eles estão tentando seguir adiante com o programa Artemis.”>
A Nasa também quer construir uma nova estação espacial perto da Lua, conhecida como a estação lunar, com a ajuda de parceiros internacionais. A construção poderá começar ainda nesta década.>
Ela não terá o tamanho nem a escala da ISS, mas pode se tornar uma parte importante dos voos espaciais humanos futuros para a Lua e além, servindo de posto avançado para os astronautas que viajam de e para o nosso satélite natural.>
Por fim, existe a possibilidade de que a ISS não seja totalmente destruída. Algumas empresas receiam que retirar a estação inteira de órbita seria um desperdício e que alguns dos seus módulos e recursos poderiam ser redirecionados ou reutilizados no espaço.>
A Nasa ainda não declarou se está aberta a essas ideias, mas poderá mudar de opinião à medida que se aproximar o prazo para a retirada da ISS de órbita.>
“Não encontrei ninguém envolvido no espaço que realmente queira apenas jogá-la no oceano”, afirma Gary Calnan, CEO (diretor-executivo) da empresa norte-americana CisLunar Industries.>
No final de 2022, a CisLunar e diversas outras empresas apresentaram à Casa Branca uma proposta para reutilizar alguns aspectos da estação espacial, como fundir parte do seu metal ou redirecionar alguns dos seus módulos. Calnan afirma que a Casa Branca foi receptiva.>
“Eles gostaram da ideia”, ele conta. “Ela se enquadra na política de reúso e economia circular do governo atual.”>
De qualquer forma, o projeto da ISS chegará ao fim em 2031, seja em um inferno ardente ou sendo desmantelada para outras finalidades.>
No seu lugar, podem surgir outras estações espaciais menores, prontas e aguardando para dar continuidade à presença humana em órbita da Terra, com astronautas indo mais além para pôr os pés na Lua.>
A ISS irá deixar um legado impressionante, mas, nos anais da história, pode ser apenas o começo.>
“Ela deixa essa noção de que, apesar da nossa obsessão com o nacionalismo e as fronteiras, somos capazes de cooperar”, afirma Lewis. “Podemos fazer isso. Podemos compartilhar a riqueza.”>
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