Publicado em 20 de outubro de 2025 às 20:32
Centenas de pessoa hospitalizadas e mais de 20 mortas: esse foi o saldo de um escândalo que abalou a reputação do vinho italiano – e que mudou para sempre a vinicultura na Itália.>
O ano era 1986 e o país se consolidava como um dos maiores produtores de vinho do mundo. Com milhares de hectares de vinhedos e um clima favorável, a produção anual ultrapassava os 70 milhões de hectolitros (1 hectolitro equivale a 100 litros).>
O cenário, porém, era de estoques excessivos e forte concorrência interna, o que pressionava os preços para baixo. Muitos pequenos produtores e comerciantes, especialmente nas regiões do norte da Itália, buscavam maneiras de aumentar o teor alcoólico de vinhos baratos sem elevar custos, o que abriu espaço para práticas ilegais de adulteração.>
Em março de 1986 foram registrados os primeiros casos de envenenamento na província de Asti, localizada na região do Piemonte, muito conhecida pela vinicultura. Duas pessoas morreram e várias foram internadas após consumir um vinho de mesa vendido localmente.>
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Uma investigação foi aberta e, após testes em laboratório, se descobriu que alguns comerciantes estavam adicionando nos vinhos uma substância que ficou conhecida dos brasileiros nas últimas semanas: o metanol.>
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"Naquele momento, a vinicultura italiana ainda estava crescendo e as práticas e pesquisas sobre qualidade estavam em um ponto muito inicial", explica Milena Lambri, pesquisadora da Universidade Católica do Sagrado Coração especializada em enologia e segurança alimentar.>
"Muitos produtores não sabiam trabalhar o vinho da maneira correta e decidiram adicionar metanol para ampliar o teor alcoólico e deixar seus produtos mais competitivos".>
Os primeiros casos rapidamente levaram à descoberta de uma adulteração em larga escala, envolvendo centenas de milhares de litros de vinho contaminado.>
O Ministério da Saúde italiano ordenou o recolhimento imediato de garrafas suspeitas e, em poucos dias, 25 milhões de litros de vinho adulterado foram confiscados, segundo os registros da época.>
Em algumas garrafas, as autoridades relataram ter encontrado mais de 20 vezes o limite permitido de metanol.>
Eventualmente, as investigações identificaram duas empresas do Piemonte como os principais centros de mistura de metanol em vinho. Mas toda uma rede de comerciantes intermediários que compravam vinho a granel, adulteravam e revendiam sob rótulos genéricos de baixo custo, também foi rastreada.>
Mas o escândalo não terminou nas fronteiras italianas. Em pouco tempo, países que importavam vinhos italianos, como Suíça, Alemanha, França e Bélgica, também apreenderam lotes suspeitos.>
As exportações italianas de vinho foram suspensas temporariamente e governos emitiram alertas contra o consumo de vinho italiano. Ao todo, milhões de litros da bebida foram apreendidos e descartados como lixo industrial em toda a Europa.>
As investigações atingiram mais de 60 empresas produtoras de vinho e, por fim, mais de 40 indivíduos foram acusados formalmente, vários dos quais foram condenados.>
O julgamento principal relacionado ao escândalo só foi concluído em 1993. As sentenças variaram de 14 a 2 anos de prisão - embora nenhum dos réus tenha cumprido as penas decretadas inicialmente, diante dos recursos abertos pelas defesas.>
Muitos processos pedindo indenizações também foram abertos pelas vítimas e suas famílias contra os produtores e vinícolas envolvidos. Alguns deles demoraram mais de duas décadas para serem resolvidos, mas por fim nenhuma compensação foi paga, após os réus serem considerados incapazes de arcar com o fardo financeiro.>
E assim como está acontecendo no Brasil, que hoje vive uma onda de intoxicações por metanol por ingestão de bebidas alcoólicas adulteradas, o caso abalou profundamente a confiança dos consumidores.>
Até mesmo os produtores de vinhos finos, que não estavam envolvidos no escândalo, acabaram sofrendo. No final de 1986, o mercado italiano de vinhos acumulava perdas de 1 trilhão de liras, com uma queda de 20% no valor geral do setor. As exportações caíram mais de 40% e as vendas internas despencaram 70%.>
Mas o que aconteceu em seguida talvez tenha marcado ainda mais o mercado italiano de vinhos.>
Segundo especialistas, foi a partir do escândalo de adulteração com metanol que as vinícolas locais "viraram a chave" de quantidade para qualidade.>
"Todos nós consideramos que este escândalo talvez tenha sido a oportunidade mais importante para o mercado de vinhos italiano", diz Milena Lambri.>
"Os produtores mudaram completamente a forma de fazer vinicultura e enologia, começando pelo campo e pelo solo, monitorando o clima, monitorando o crescimento das plantas, o manejo da viticultura, trabalhando com fertilização, manejo da copa, tudo isso.">
Segundo a especialista, passou-se a investir muito mais conhecimento e pesquisa. E os próprios consumidores passaram a se importar mais com a qualidade do vinho consumido.>
"A Itália aprendeu uma lição muito dura com essa tragédia. Mas se recuperou, criando um renascimento do vinho e elevando sua qualidade. Hoje, os controles de qualidade permanecem rigorosos, mas as vinícolas italianas estão cada vez mais buscando a excelência", afirma Gaetano Cataldo, sommelier e consultor do mercado de vinhos italiano.>
O escândalo também forçou uma modernização institucional: regras mais rígidas, controles laboratoriais, certificações de segurança.>
Uma lei de 1992 se tornou um marco na regulamentação das denominações de origem na Itália, estabelecendo uma estrutura clara e rigorosa para a produção e comercialização de vinhos com denominação de origem.>
Com isso, os vinhos passaram a ser classificados de acordo com o tipo de uva, seu local de origem, os métodos de cultivo e o teor alcoólico, facilitando a identificação da qualidade pelos consumidores.>
A implementação da lei também foi acompanhada por um sistema de controle e fiscalização rigoroso, com a criação de comitês nacionais e regionais responsáveis pela supervisão.>
"O sistema também ajudou com a rastreabilidade e graças a ele hoje é possível checar toda a cadeia de produção de um vinho", resume Gaetano Cataldo.>
As mudanças implementadas ainda serviram como uma espécie de "seleção de qualidade", afirma Lambri.>
"Apenas os mais cuidadosos e interessados em impulsionar uma nova linha na cultura do vinho e na enologia sobrevieram", diz a pesquisadora da Universidade Católica do Sagrado Coração.>
Lambri explica que o país hoje precisa seguir a regulamentação europeia sobre produção de vinho, mas suas próprias leis são mais rigorosas do que a da União Europeia (UE). "O mercado de vinhos italiano tem provavelmente a regulamentação mais rigorosa do mundo atualmente", diz.>
Hoje, o país exporta menos que nos anos 80, mas tem uma produção mais focada em vinhos finos do que no passado.>
Ainda assim, a Itália vem competindo com a França pelo título de maior produtora do mundo, com 44 milhões de hectolitros em 2024, de acordo com a Agência de Pagamentos da Agricultura (AGEA).>
E, eventualmente, os italianos voltaram a confiar totalmente na qualidade do vinho, tanto que a população é hoje a terceira que mais bebe vinho no mundo, com um consumo per capita em torno de 42 litros por ano.>
Para efeito de comparação, no Brasil o consumo per capita de vinho em 2024 foi de 2,1 litros.>
O Brasil vive atualmente um pico de casos de intoxicação por metanol, com 41 casos confirmados, segundo a atualização mais recente do Ministério da Saúde, de quarta-feira (15/10). As mortes chegaram a 8, com 6 casos em São Paulo e 2 em Pernambuco.>
No caso brasileiro, as investigações iniciais encabeçadas pela Receita Federal em parceria com a Polícia Federal, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Ministério da Agricultura, apontam que o metanol foi usado clandestinamente na produção de bebidas alcoólicas.>
As bebidas afetadas são destiladas, como cachaça, aguardente e whisky. Segundo a Receita Federal, há indícios de que o metanol, utilizado no uso de indústrias químicas, foi desviado para o uso de combustíveis e acabou sendo também utilizada ilegalmente na adulteração do setor alcoólico.>
E apesar de se tratarem de casos diferentes, os especialistas da indústria do vinho afirmam que há muito que o Brasil pode aprender com a forma como a Itália superou o seu próprio escândalo com metanol.>
Para Gaetano Cataldo, os desafios vivenciados pelos dois países mostram a importância de "permanecer vigilante", assim como de garantir que a população esteja informada sobre tudo que está acontecendo, para minimizar as consequências.>
O especialista afirma ainda que o Brasil pode se beneficiar de um sistema de rastreabilidade mais rígido, como o da Itália.>
"Também é necessário e recomendado ensinar as pessoas a beberem conscientemente e, ao mesmo tempo, com responsabilidade, porque apenas alguns criminosos não podem afetar a reputação de um país tão grande como o Brasil", diz.>
Milena Lambri afirma que o caminho pode estar no reforço do cumprimento das regras.>
A especialista diz ainda que os consumidores estão cada vez mais atentos à qualidade dos produtos e sua origem, o que naturalmente já aumenta a responsabilidade dos fabricantes.>
"Os produtores precisam prestar muita atenção na interação com o conhecimento do consumidor, que está a cada ano mais rico em competência e em informação, especialmente com a internet.">
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