Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 11:11
O feijão sempre esteve na base da alimentação do brasileiro — antes mesmo de o território se tornar Brasil. >
Já era consumido pelos nativos antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus, lembra a gastrônoma e historiadora Camila Landi. >
Os povos originários costumavam comer feijão combinando-o com farinha de mandioca, aponta ela, que é professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.>
Até os anos 1960, eram muitas as variedades que coexistiam e dividiam as preferências, tanto dos produtores quanto dos consumidores. >
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No Estado de São Paulo, por exemplo, eram comuns os feijões bico-de-ouro, rosinha, jalo, chumbinho, manteiga, mulatinho e roxinho.>
Desde os anos 1970, contudo, há um tipo que é preponderante no prato do brasileiro: o feijão-carioca, ou o feijão-carioquinha. Trata-se de um grão marrom claro, rajado com manchas mais escuras.>
Hoje ele é consumidor por 60% dos brasileiros, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). >
O sucesso do feijão carioquinha é produto do trabalho da ciência brasileira, desenvolvido a partir de uma mutação que surgiu espontaneamente em uma plantação no interior de São Paulo. >
Um dos protagonistas dessa história é o engenheiro agrônomo Luiz D'Artagnan de Almeida, considerado o "pai do carioquinha", que morreu no último dia 2 de janeiro.>
Em um artigo publicado na revista da Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos em 2017, em coautoria com a engenheira agrônoma Elaine Bahia Wutke, pesquisadora no Instituto Agronômico, em Campinas, ele contou como o carioca acabou se tornando "a mais bem sucedida cultivar na história brasileira do feijão".>
"Cultivar" é o termo que designa as plantas desenvolvidas a partir de técnicas de melhoramento genético, geralmente com o objetivo atingir características agronômicas superiores, como maior produtividade e maior resistência a pragas. >
É diferente, por exemplo, da "variedade", que designa um grupo com diferenças que se desenvolveram naturalmente dentro de uma mesma espécie. >
Assim, o feijão-carioca é uma cultivar, não uma variedade.>
O relato do agrônomo conta que tudo começou em 1963, no município paulista de Ibirarema, quando o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes percebeu uma novidade em sua lavoura de feijão.>
Antunes, que depois enveredaria por carreira política, chegando a ser prefeito da cidade, era então chefe da Casa da Agricultura local.>
Na fazenda Bom Retiro, de sua propriedade, ele havia semeado um feijoeiro do cultivar chumbinho — que apresenta casca marrom-escura.>
"Passado um tempo, ele e um tio constataram algumas plantas cujos grãos possuíam textura listrada, manchados de preto e marrom, nessa mesma lavoura", escreveu Almeida.>
Segundo o agrônomo relata em seu artigo, Antunes era dado a uma "curiosidade profissional" pelas "coisas do campo" e então decidiu, por si só, fazer "uma experiência prática".>
"Percebendo que essas novas plantas eram mais robustas, cresciam com muita facilidade, eram menos suscetíveis às doenças e mais produtivas, fez seleção massal, acreditando se tratar de uma mutação genética natural", aponta.>
O engenheiro químico Luiz Gustavo Lacerda, professor de engenharia de alimentos na Universidade Estadual de Ponta Grossa, ressalta que esse é um capítulo importante da história, o fato de que ela começa a partir de "uma mutação natural".>
"Muitas pessoas acreditam que surgiu por meio de modificações genéticas, em laboratório. Isso não é verdade", pontua ele à BBC News Brasil.>
A seleção massal realizada por Antunes é um método de melhoramento genético mais simples, feito a partir da colheita e mistura das sementes de plantas diferentes.>
Em sua casa, o feijão foi preparado e a família aprovou. O caldo parecia consistente e o aroma, atrativo.>
Três anos depois, Antunes resolveu separar um saco de 30 quilos desse feijão para análise. O material foi encaminhado ao Instituto Agronômico, em Campinas, órgão de pesquisa e desenvolvimento do governo estadual paulista.>
Foi quando, como pontua o artigo, a amostra foi "oficialmente catalogada" sob a denominação carioca — e o número I-38700. >
Luiz D'Artagnan de Almeida foi então designado como "responsável direto pelas avaliações", "pela multiplicação dessa cultivar" e para "seu futuro lançamento".>
Havia, porém, um receio: o preconceito dos consumidores. Naquela época, era estranho um feijão que não tivesse coloração homogênea. Poderia parecer algo ruim, estragado.>
Era preciso ressaltar os prós, para que os contras — de fundo meramente estético ou mesmo de hábito — fossem abafados.>
D'Artagnan de Almeida e sua equipe não só fizeram pesquisas. Dedicaram-se a divulgar os resultados. Viraram embaixadores do novo feijão.>
A primeira apresentação pública da variedade ocorreu em agosto de 1968, em encontro técnico realizado em Serra Negra. >
"Os pesquisadores divulgaram os animadores resultados que comprovavam a produtividade superior, a resistência às doenças prevalentes na época e as qualidades culinárias desse feijão", pontua o texto de Almeida.>
Em estudo publicado em 1971, foi constatado que o carioquinha rendia muito mais do que as outras variedades. Em média, produzia 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.>
Mas se as vantagens para o produto pareciam inquestionáveis, ainda havia a barreira da preferência do consumidor. >
Em ata de reunião ocorrida na Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo em outubro daquele ano, ficou registrado que era preciso implementar um plano de multiplicação das novas sementes — mas havia o problema: "a premissa de sua não aceitação".>
No artigo, o agrônomo conta que "era bastante difícil a introdução e oferta de cultivares com sementes cujo tegumento fosse de coloração pintada ou rajada, como no caso do carioca".>
D'Artagnan de Almeida era um dos que advogavam para o fato de que era preciso também ressaltar as qualidades alimentícias do produto — e não só suas vantagens produtivas.>
No caso, suas referências vieram de casa. Afinal, se ainda quando a seleção da cultivar estava sendo feita, ele levou amostras para que sua mulher cozinhasse e o resultado havia sido aprovado pela família, ele também podia contar com o veredito profissional materno.>
A mãe do agrônomo talvez tenha sido a primeira a fazer o carioquinha de forma não caseira. Então proprietária de um restaurante em Monte Mor, no interior paulista, ela passou a usar o carioca em vez do feijão-preto em sua receita de feijoada.>
O engenheiro agrônomo Sérgio Aguusto Morais Carbonell, pesquisador do Instituto Agronômico, ressalta à BBC News Brasil este ponto. Além de a nova variedade produzir mais e ser mais resistente a pragas, "o feijão fazia um bom caldo e era muito saboroso".>
De forma massiva, a investida popular veio por campanha de marketing do governo paulista, que chegou a distribuir para as pessoas pacotinhos de meio quilo do novo feijão, acompanhados de encartes com receitas.>
Em parceria com a Associação dos Supermercados de São Paulo, o governo também montou barracas de degustação do novo feijão nos pontos de venda.>
A cultivar foi oficialmente lançada em 1969, sob a responsabilidade de D'Artagnan de Almeida. Cinco sacas do feijão foram destinadas à multiplicação e amostras de semestres passaram a ser distribuídas a produtores, sobretudo na região sudoeste do estado, que concentrava a maior produção.>
Um folheto de quatro páginas acompanhava as amostras. Ali, além das vantagens produtivas, havia também a preocupação em apresentar as qualidades culinárias da nova versão — inclusive com receitas destinadas, àquela época, às donas de casa.>
Os agrônomos do Instituto de Campinas passaram a rodar o Estado dando palestras para agricultores e divulgando o novo feijão. Nessa campanha, eles acabaram ganhando um cabo eleitoral de peso: o agrônomo José Norival Augusti (1940-2017).>
Agrônomo da Casa da Agricultura de Taquarituba, ele sempre foi um sujeito obcecado por fazer com que os produtores rurais implementassem técnicas modernas, sustentáveis e de vanguarda, não se resignando a manter o conforto do que parecia óbvio. Ele era entusiasmado, afeito à incorporação de novidades.>
D'Artagnan de Almeida reconhece que os esforços de Augusti foram fundamentais para a disseminação das novas sementes. Não à toa, Taquarituba se autodenominaria a "capital do feijão" nos anos 1970.>
De acordo com o artigo de Almeida, Augusti "colaborou destacadamente para a difusão dessa cultivar, distribuindo amostras de sementes e realizando as primeiras vendas de sementes para a região".>
"Ele curiosamente relatou que, em conversas com o agricultor, incentivava aquele interessado na aquisição de 20 sacos de feijão bico-de-ouro que acabasse adquirindo pelo menos um do carioca", conta.>
Em livro sobre o tema publicado em 1992, Cultura do Feijão em Taquarituba, Augusti admite que havia uma desconfiança inicial dos agricultores porque o feijão era "manchadinho". Mas isso foi superado safra após safra — tanto pela maior produtividade e maior resistência a pragas como pela aceitação popular ao produto em si.>
No blog Fios da Memória, que Augusti manteve até seus últimos dias de vida, ele afirma que foi em Taquarituba ocorreram "as primeiras vendas comerciais" da nova variedade. "[Em 1972/1973] foi também iniciado o plantio do feijão-carioquinha e o município foi o primeiro a plantar comercialmente a variedade que depois foi adotada no país […]", crava.>
O agrônomo de Taquarituba também relata que fez experiências práticas, em cultivos de campo, comprovando que o feijão-carioquinha era mais resistente às pragas do que outras variedades.>
Como ressalta o professor Lacerda, eram plantas que "produziam mais e eram mais resistentes do que as demais".>
"O sucesso foi rápido. O feijão carioca se destacou por produzir mais do que as variedades tradicionais, além de apresentar maior resistência a doenças comuns da época", diz Lacerda. "Também conquistou os consumidores por formar um caldo mais claro e encorpado e por cozinhar mais rápido, o que facilitava o preparo no dia a dia.">
"Outro ponto importante foi sua capacidade de se adaptar bem a diferentes solos e climas em várias regiões do Brasil", acrescenta o engenheiro. "Esse desenvolvimento teve grande impacto na alimentação do país. Antes da década de 1970, o feijão preto era o mais consumido em muitas regiões. Com o aumento da produção do feijão carioca, o preço caiu e ele passou a fazer parte da mesa da maioria dos brasileiros.">
A cultivar acabou se espalhando por outras regiões do Brasil nos anos 1980, com boa aceitação. >
"A descoberta de uma mutação de feijão-chumbinho em uma lavoura […] foi origem de um novo tipo de feijão […]. O tipo carioca apresentava potencial altamente produtivo, resistência às doenças que acometiam a cultura, sabor agradável e rápido cozimento", pontua a publicação Arroz e Feijão: Tradição e Segurança Alimentar, da Embrapa.>
Está no prato da maioria da população, mas não é hegemônico considerando os paladares regionais, vale ressaltar. >
"O feijão-comum possui vários tipos comerciais, e os preferidos, dependendo da região, são o preto, o mulatinho, o carioca, o roxo-rosinha e o jalinho. O consumo do feijão-preto prevalece nos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, sul e leste do Paraná, sudeste de Minas Gerais e sul do Espírito Santo, já o mulatinho é bastante consumido no Nordeste e o carioca em todo o Brasil, representando cerca de 60% da produção do País", esclarece a publicação da Embrapa.>
"O tipo roxo-rosinha é o preferido em Minas Gerais e Goiás. A pluralidade de tipos dá ao povo brasileiro, também diverso, mais uma experiência gratificante", conclui.>
"Por mais que seja produzido em outras regiões, o feijão carioquinha é mais consumido em São Paulo devido à própria divulgação na época aos agricultores paulistas da região e também, por resistências culturais diversas", analisa Landi.>
Carbonell lembra que houve um intenso empenho de D'Artagnan de Almeida e sua equipe em divulgar a novidade para os paulistas -- e isto impactou na adoção maciça.>
"O consumo do feijão carioca foi maior em São Paulo porque ele surgiu no próprio Estado, onde a produção se expandiu rapidamente, tornando o grão mais disponível e mais barato para a população local", analisa Lacerda. >
"Além disso, São Paulo já contava com forte estrutura agrícola, mercados consumidores urbanos e apoio da pesquisa, o que facilitou sua difusão.">
"Em outras regiões do país, o feijão carioca precisou competir com hábitos alimentares já consolidados e variedades tradicionais, como o feijão comum no Sul e Sudeste e o feijão-de-corda no Nordeste. Assim, a adoção fora de São Paulo foi mais lenta, não por falta de qualidade, mas pela força da cultura alimentar regional, embora com o tempo o feijão carioca tenha se espalhado e se tornado o mais consumido no Brasil", comenta Lacerda.>
"Os resultados obtidos da pesquisa com melhoramento genético de feijão, a partir desse ponto, promoveram uma revolução no comércio de feijão no Brasil, marcando uma mudança na preferência dos consumidores para o tipo carioca", salienta o texto da Embrapa.>
Em artigo publicado pelo Instituto Agronômico no ano 2000, Almeida colocou o lançamento do carioquinha como "um divisor de águas na evolução dessa lavoura".>
"Esse fato promoveu uma reversão da tendência declinante da produtividade da terra, ao mesmo tempo em que formou o alicerce da modernização dessa atividade", escreveu o agrônomo. >
"Com isso, contrariando a perspectiva de que teria havido prioridade absoluta para produtos de exportação, a pesquisa publica paulista sustentou o desenvolvimento de uma cadeia de produção tipicamente de mercado interno.">
O Instituto Agronômico divulgou nota de pesar pela morte do agrônomo D'Artagnan de Almeida, ressaltando que sua pesquisa "revolucionou a mesa dos brasileiros". >
"Por sua contribuição científica, o pesquisador ficou carinhosamente conhecido como o 'pai do carioquinha' e recebeu diversas homenagens", pontua o texto.>
O engenheiro agrônomo Carbonell ressalta ainda que o feijão é um ingrediente indispensável à nutrição do brasileiro. >
"É um dos produtos do agro mais importantes para a segurança alimentar porque tem uma excelente quantidade de proteína e fibra em seus grãos, podendo ser consumido seco ou em subprodutos de outros alimentos como enriquecimento", pontua.>
"É um alimento com grande diversidade de tipos, portanto pode oferecer a lima população crescente de vegetarianos e veganos, opções de sabores e odores para novas culinárias e alimentação", acrescenta ele.>
Segundo o artigo coassinado por Almeida, o nome do novo feijão acabou ficando carioca por ideia de um dos empregados de Waldimir Antunes, que "percebeu a semelhança entre a aparência dos grãos e a dos porcos criados na fazenda, conhecidos por tal nome".>
"O curioso é que o nome carioquinha foi atribuído por sua similaridade com um porco caipira da região que possui a pelagem rajada, da raça carioca", comenta a historiadora Landi. "Portanto, foi uma associação pela similaridade da pelagem, não tendo relação com o Rio de Janeiro, como muitos pensam.">
Almeida ressalta que não passa de lenda urbana a versão de que o nome feijão-carioca seria em alusão ao padrão gráfico das famosas calçadas de Copacabana, no Rio.>
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