Publicado em 19 de março de 2026 às 18:34
"A vida é como andar de bicicleta. Para se manter equilibrado, é preciso seguir em frente.">
A frase não é umas das milhares atribuídas erroneamente a Albert Einstein (1879-1955) na internet. O físico de fato a escreveu a seu filho Edward em uma carta de fevereiro de 1930.>
Um dos cientistas mais relevantes da história, Einstein seguiu isso à risca e se manteve ativo até o fim de seus dias.>
Ele recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1922 e um reconhecimento mundial que transcendeu a ciência. Existe a física antes dele e a física depois de suas descobertas.>
>
Jornalistas e biógrafos o descrevem como um rebelde com imensa curiosidade e totalmente apaixonado pela ciência.>
Apesar da reputação de ser um homem distante e solitário, na verdade ele cultivava fortes laços familiares e de amizade que duraram toda a sua vida.>
Mas como essa mente brilhante administrava seu tempo, como eram suas rotinas e quão verdadeiro são os estereótipos atribuídos ao gênio?>
Para Einstein, havia algo muito mais significativo do que a sabedoria que o acompanhou ao longo de sua vida.>
"A imaginação é mais importante que o conhecimento", disse ele ao jornalista George Sylvester Viereck em entrevista publicada no jornal Saturday Evening Post, em outubro de 1929.>
Quando criança, Einstein teve dificuldades para falar e aprender.>
"Ele tinha tanta dificuldade com a linguagem que as pessoas ao seu redor temiam que nunca aprenderia", escreveu Maja Einstein, irmã de Albert, a sua amiga Sybille Blinoff em uma carta em maio de 1954.>
O próprio Albert Einstein refletiu na vida adulta sobre a infância e os problemas de aprendizagem.>
"O adulto médio nunca se preocupa com questões como espaço e tempo. Esses são conceitos que ele aprendeu quando criança. Mas, como me desenvolvi tão lentamente, comecei a me questionar sobre espaço e tempo apenas quando já era adulto".>
"Consequentemente, eu investiguei o problema mais profundamente do que uma criança comum", disse o próprio Einstein ao físico alemão e vencedor do Nobel James Franck, em um dos testemunhos que o escritor Walter Isaacson coleta na biografia Einstein, sua vida e universo.>
No entanto, alguns pesquisadores argumentam que a capacidade de Einstein de se concentrar e sistematizar, ou seja, sua capacidade de identificar as leis que governam um sistema e, ao mesmo tempo, sua aparente falta de empatia, poderiam ter sido uma manifestação de autismo, o que nunca foi comprovado.>
A genialidade de Einstein combinada com sua extrema capacidade de concentração o levou a escrever em 1905 cinco influentes pesquisas científicas que incluem, por exemplo, a equação mais famosa da história da ciência (E = mc2).>
Alguns chamam esse período de "ano milagroso".>
Na época, Einstein, com apenas 26 anos, trabalhava em um escritório de patentes suíço oito horas por dia, seis vezes por semana.>
"Ele podia trabalhar um dia inteiro em apenas duas ou três horas. No resto do dia, desenvolvia suas próprias ideias", diz Peter Bucky, radiologista e amigo de Einstein, em seu livro The Private Albert Einstein (A Vida Privada de Albert Einstein, em tradução livre).>
Aquele ano foi a demonstração de que a mente de Einstein podia lidar com uma variedade de ideias simultaneamente.>
Essa habilidade também se refletia no dia a dia em casa com sua família.>
"Mesmo o choro mais alto de um bebê não parecia incomodar meu pai. Ele era capaz de continuar seu trabalho completamente imune ao ruído", descreveu seu filho Hans Albert Einstein para Bucky.>
O violino era outro instrumento que lhe permitia aguçar essa concentração.>
"Ele costumava tocar violino na cozinha tarde da noite, improvisando melodias enquanto refletia sobre problemas complicados. Então, de repente, ele dizia: 'Entendi!'. Como se por inspiração, a resposta para o problema tivesse chegado a ele no meio da música ", acrescentou Hans Albert Einstein.>
Embora houvesse momentos na vida de Einstein em que parecia excelente em conciliar muitas tarefas ao mesmo tempo, também é verdade que gerenciar o equilíbrio entre sua vida profissional e privada não era fácil para ele.>
Além do "ano milagroso" em que sua produtividade foi impressionante, o cientista continuou a publicar pesquisas e análises inovadoras: seis em 1906 e dez em 1907, enquanto trabalhavam no escritório de patentes.>
Pelo menos uma vez por semana, ele tocava violino em um quarteto de cordas e cuidava de seu filho Hans Albert, que tinha cerca de três anos na época.>
"Quando minha mãe estava ocupada em casa, meu pai deixava seu trabalho de lado e cuidava de nós por horas. Lembro-me dele contando histórias e tocando violino com frequência", lembrou Hans Albert em uma entrevista.>
Mas em 1911 as coisas começaram a dar errado, e seu relacionamento com a família se tornou difícil. Para Einstein, a vida profissional começou a pesar mais que a vida pessoal.>
"Ele está trabalhando incansavelmente nos problemas dele, pode-se dizer que vive apenas para eles", disse a então esposa de Einstein, a física Mileva Maric, à amiga Helene Savic em uma carta de 1912.>
As tensões no casamento, juntamente com a crescente reaproximação com sua prima Elsa, que mais tarde se tornaria sua segunda esposa, tornaram-se insustentáveis em 1913.>
Trabalho excessivo — até então ele tinha três empregos — tensão mental e problemas domésticos eram demais para Einstein.>
"Ele estava com a impressão de que a família estava gastando muito do seu tempo e que ele tinha o dever de se concentrar totalmente em seu trabalho", disse seu filho Hans Albert em uma série de entrevistas à BBC em 1967.>
Quando Einstein se separou de Mileva, em 1914, ele também se distanciou das crianças, e isso o perturbou profundamente.>
Ele então mergulhou na ciência para escapar de sua tristeza.>
Sua dedicação à pesquisa científica, que resultou na teoria da relatividade geral, ao lado de outras descobertas, deixou Einstein exausto em 1915.>
"Meus sonhos mais ousados se tornaram realidade", escreveu a seu amigo Michele Besso no final daquele ano. "Eu estou feliz, mas kaput (totalmente quebrado)".>
Esse processo não apenas o deixou exausto, mas seus episódios de distração se tornaram mais frequentes, e ele acabava se esquecendo de comer.>
"Muitas vezes estou tão envolvido com meu trabalho que esqueço de almoçar", escreveu ele a seu filho em uma carta em maio de 1915.>
Quando Einstein se casou novamente, seu casamento com Elsa foi muito diferente do anterior.>
Eles tinham quartos separados e ele ficou muito satisfeito por ela cuidar dele o tempo todo.>
"Elsa decidia para ele quando comer e para onde ir; ela fazia sua mala e entregava-lhe dinheiro nos bolsos. Esses detalhes permitiram que ele se concentrasse mais no cosmos do que no mundo ao seu redor", detalha Isaacson em seu livro.>
Einstein gostava de velejar e passear. Eram formas de clarear sua mente depois de momentos de intensa concentração. Muitas vezes ele fazia caminhadas acompanhadas de Elsa, suas filhas ou simplesmente sozinho.>
Há várias histórias sobre as distrações de Einstein, incluindo algumas nas quais ele foi visto perdido na rua e teve que pedir ajuda para voltar para casa, embora muitas delas possam ser exageradas.>
Após a morte de Elsa, em dezembro de 1936, e já morando nos Estados Unidos, Einstein voltou a mergulhar no trabalho.>
Em uma carta a seu filho Hans Albert, em janeiro de 1937, Einstein admitiu que achava difícil se concentrar, mas esse trabalho o manteve ativo.>
"Enquanto eu puder trabalhar, não devo e não vou reclamar, porque o trabalho é a única coisa que dá substância à vida", escreveu ele em uma das cartas compiladas pelos Arquivos Albert Einstein (AEA) da Universidade Hebraica de Jerusalém.>
Einstein certamente não era um homem vaidoso.>
Ele construiu uma imagem de "professor gentil, embora às vezes distraído, mas infalivelmente doce, que vagava perdido em pensamentos, ajudava as crianças com a lição de casa e raramente se penteava ou usava meias", descreve Isaacson em sua biografia.>
Em 1909, seus cabelos e roupas começaram a ficar cada vez mais bagunçados.>
"Cheguei a uma idade em que, se alguém me disser para usar meias, não preciso", disse Einstein, brincando, para um vizinho, segundo Bucky.>
Entre as muitas histórias que muitas vezes se repetem sobre Einstein, uma delas é que ele tinha diferentes conjuntos de roupas, mas todos iguais para não perder tempo escolhendo diariamente o que vestir.>
No entanto, nem a biografia detalhada de Isaacson nem os arquivos autorizados que contêm material original do cientista mencionam essa história.>
"Nunca vi uma fonte confiável afirmando que Einstein tinha o mesmo tipo de roupa", disse Roni Grosz, diretor da AEA, à BBC News Mundo, por email.>
De acordo com as fotografias, o cientista costumava repetir o uso de uma jaqueta de couro para eventos formais e informais.>
Quando uma amiga descobriu que Einstein tinha uma alergia leve a suéteres de lã, ela foi a uma loja e comprou para ele algumas camisetas de algodão que ele usava o tempo todo, descreve Isaacson.>
Talvez daí venha parte do mito de que o cientista usava o mesmo tipo de roupa para não perder tempo pensando no que vestir todos os dias.>
E sua famosa foto despenteado também se tornou icônica.>
Até "a atitude despojada dele em relação aos cortes de cabelo era tão contagiosa que Elsa, Margot e sua irmã Maja ostentavam os mesmos cabelos grisalhos", especula Isaacson.>
Einstein era um homem muito austero. Ele não tinha ambição por dinheiro além daquele que lhe permitia viver sem luxo.>
Em uma reportagem no Saturday Evening Post de 1929, o jornalista descreve a mesa de Einstein como sóbria.>
"O único instrumento de Einstein é sua cabeça. Ele não precisa de livros, e seu cérebro é sua biblioteca", detalha ele.>
Quando lhe foi oferecido o cargo no Institute for Advanced Study em Princeton, Nova Jersey (EUA), na década de 1930, seus pedidos para seu novo escritório também eram poucos.>
"Uma mesa ou escrivaninha, uma cadeira, papel e lápis. Ah, sim! E uma grande cesta de lixo, para poder jogar fora todos os meus erros", pediu Einstein, segundo o biógrafo Denis Brian em seu livro Einstein, uma vida, de 1996.>
Sua rotina diária também era simples: ele acordava, tomava café da manhã e lia os jornais.>
Então, por volta das 10 da manhã, ele caminhava lentamente de sua casa para o instituto, chamando a atenção das pessoas com quem encontrava, pois na época já era uma celebridade.>
Einstein trabalhou até que a dor do rompimento de um aneurisma o forçou a ir ao Hospital de Princeton, onde morreu em 18 de abril de 1955, aos 76 anos.>
Até o fim, o cientista lutou para encontrar uma teoria de campo unificada para o campo eletromagnético e o campo gravitacional. Mas ele não teve sucesso.>
No entanto, sua perseverança, genialidade e descobertas fizeram dele a face mais famosa da ciência nos últimos séculos, e ele nunca perdeu sua humildade.>
"Não tenho talentos especiais, sou apenas curiosamente apaixonado", escreveu Einstein a Carl Seelig, seu primeiro biógrafo, em março de 1952.>
Este texto foi publicado originalmente em 2 de maio de 2020.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta