Publicado em 24 de março de 2026 às 07:34
Uma controversa lei sobre laicidade da província canadense de Quebec será analisada pela Suprema Corte do país. E especialistas jurídicos afirmam que a decisão terá impactos sobre muitos outros aspectos além da liberdade religiosa no Canadá.>
Este caso tem o potencial de testar a unidade nacional e o equilíbrio entre a Justiça e as autoridades eleitas.>
"Este provavelmente será o caso constitucional mais importante de toda uma geração", afirma a diretora-executiva da Fundação da Constituição Canadense, Christine Van Geyn.>
O centro da questão é o Projeto de Lei n° 21. Ele proíbe servidores civis, como juízes, policiais e professores, de usar símbolos religiosos no trabalho.>
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A Coalizão Avenir Quebec ("Futuro de Quebec", CAQ), governista, aprovou o projeto em 2019. Mas, para superar os questionamentos legais, os legisladores empregaram uma invenção única do Canadá, a controversa "cláusula não obstante".>
Esta brecha jurídica permite que os governos ignorem certos direitos constitucionais, incluindo a liberdade religiosa e a igualdade de direitos.>
A Associação Canadense de Liberdades Civis (CCLA, na sigla em inglês) qualificou os argumentos de Quebec na Justiça como "arrepiantes".>
"Um governo poderá invocar a cláusula para proibir o aborto? Para criminalizar o discurso político crítico ao governo? Para legalizar a tortura?", escreveu a CCLA em um artigo recente de opinião no jornal Le Devoir, publicado em francês (a língua oficial de Quebec).>
"Segundo a lógica do governo de Quebec, mesmo nestes casos, a Justiça não só ficaria impotente, mas também restrita ao silêncio.">
Na segunda-feira (23/3), a corte deu início a quatro dias de audiências sobre o questionamento constitucional ao Projeto de Lei 21, com mais de 50 partes intervenientes, incluindo o governo federal do país.>
Como ocorre na França, o Estado laico é fundamental para a identidade de Quebec.>
Da mesma forma que o conceito de "separação entre a Igreja e o Estado" vigente nos Estados Unidos, os promotores do laicismo acreditam que as instituições estatais devem ser mantidas neutras, quando o assunto é religião.>
Mas o que isso significa no dia a dia passou a ser objeto de grandes debates.>
Os apoiadores do Projeto de Lei 21 defendem que é uma medida razoável consagrar a separação entre a Igreja e o Estado em Quebec. Mas seus críticos afirmam que o projeto é discriminatório, dificulta a integração das minorias religiosas e atinge injustamente as mulheres muçulmanas, embora a legislação não mencione especificamente nenhuma religião.>
Para tentar isolar a legislação das batalhas jurídicas, a coalizão CAQ incluiu preventivamente a "cláusula não obstante" no projeto de lei.>
A cláusula é o capítulo 33 da Constituição do Canadá. Ela permite que um governo federal ou provincial ignore certas "liberdades fundamentais" de religião, expressão e associação, bem como direitos legais e de igualdade.>
A cláusula está em vigor por um período de cinco anos, o que oferece aos eleitores o tempo necessário para reagir com consequências políticas, caso discordem da lei. Ela está sujeita a renovação e, em teoria, pode ser postergada indefinidamente.>
No início dos anos 1980, o Canadá procurou repatriar sua Constituição do Reino Unido e incorporar um Estatuto de Direitos e Liberdades, similar ao Bill of Rights existente nos Estados Unidos.>
A cláusula foi usada como uma "grande barganha" para que todas as províncias aprovassem as medidas, incluindo aquelas que receavam que um estatuto de direitos oferecesse mais poder à Justiça do que aos legisladores democraticamente eleitos.>
A cláusula se aplica a alguns direitos do estatuto, mas não todos. Os direitos democráticos e ao idioma, por exemplo, são excluídos.>
A "cláusula não obstante" foi criada como válvula de segurança. Quebec a utilizou por várias vezes nas últimas décadas, mas ela vem sendo cada vez mais empregada por outras províncias para criar leis controversas.>
Além do Projeto de Lei 21, a cláusula foi invocada recentemente por Ontário para reduzir o tamanho da Câmara de Vereadores de Toronto; por Alberta, para ordenar o retorno ao trabalho de professores em greve; e por Saskatchewan, para exigir o consentimento dos pais para que estudantes com menos de 16 anos pudessem alterar seus nomes ou pronomes na escola.>
Isso fez com que algumas pessoas defendessem que ela está sendo empregada além da compreensão geral de que serviria apenas como último recurso.>
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O professor de direito Errol Mendes, da Universidade de Ottawa, também é parte interveniente no caso da Comissão Internacional de Juristas do Canadá. Ele afirma ter alertado, ao lado de outras pessoas, que a cláusula é ampla demais e poderia ser mal empregada.>
"Agora, nossas previsões estão se tornando realidade, pois começou lentamente a haver cada vez mais uso da cláusula", segundo Mendes.>
A audiência desta semana será a primeira em que a Suprema Corte do Canadá analisa um questionamento da cláusula desde 1988.>
A Associação Canadense pelas Liberdades Civis e a professora muçulmana de Quebec Ichrak Nourel Hak — que usa hijab — são algumas das partes que apresentaram recurso contra o Projeto de Lei 21.>
Eles defendem em declaração que, em Quebec, "o Projeto de Lei 21 vem infringindo a dignidade, os direitos e a liberdade de indivíduos que trabalham ou pretendem trabalhar no serviço público" e "causa impactos desproporcionais a minorias religiosas específicas, como as comunidades muçulmana, sikh e judaica".>
A província de Quebec defende que a questão não é se o projeto restringe as liberdades, pois este ponto é protegido pela "cláusula não obstante".>
"De certa forma, o Capítulo 33 constitui uma das bases do Estatuto Canadense", afirma Quebec na sua petição.>
Eles afirmam que o propósito do projeto de lei é proteger a neutralidade religiosa do Estado e apoiar um senso de identidade cívica comum.>
A província defende que nenhum ponto da cláusula impede que ela seja utilizada preventivamente e sua adoção está de acordo com a jurisprudência da Suprema Corte.>
Muitos canadenses pedem limites para o uso da cláusula, incluindo o governo federal.>
Em setembro, o ministro da Justiça do país, Sean Fraser, declarou que a decisão da corte "irá definir como os governos federal e provinciais podem usar a 'cláusula não obstante' nos próximos anos".>
Ele qualificou o Estatuto de Direitos canadense de "pilar da nossa democracia e reflexão dos nossos valores comuns".>
Nos documentos judiciais, o governo federal não entra nos méritos do Projeto de Lei 21, mas defende que a cláusula não pode ser usada como cheque em branco.>
Ottawa pede ao tribunal que defina limites para sua invocação.>
O governo canadense defende que ela não se destina a "ser usada para distorcer ou aniquilar os direitos e liberdades garantidos pelo Estatuto", nem reduzi-los a "des peaux de chagrin", ou seja, fazê-los definhar até ficarem irreconhecíveis (a expressão em francês é uma referência ao romance A Pele de Onagro, de Honoré de Balzac, 1799-1850).>
Este argumento foi objeto de resistência por parte das províncias. Muitas delas também atuam como intervenientes neste caso.>
Quebec acusou Ottawa de encenar um "ataque à soberania parlamentar das assembleias legislativas de todo o Canadá".>
Cinco primeiros-ministros provinciais declararam que Ottawa deveria retirar seus argumentos legais. Segundo eles, esses argumentos "ameaçam a unidade nacional, buscando prejudicar a soberania dos legislativos provinciais".>
"De fato, a posição do governo federal representa um ataque direto aos princípios constitucionais básicos do federalismo e da democracia", afirmaram, em declaração conjunta, os líderes das províncias de Saskatchewan, Alberta, Ontário, Quebec e Nova Escócia.>
Nas suas argumentações específicas, a província de Alberta defende que a cláusula é "um compromisso disputado e conquistado com dificuldade", criado com a intenção de "preservar a soberania parlamentar".>
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