Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 06:09
Nas praias do Rio de Janeiro, nunca se ouviu tanto espanhol; nos comércios de Santa Catarina, nunca o Pix foi tão usado pelos turistas; nos aeroportos das capitais do Nordeste, nunca aviões chegaram com tantos "gringos".>
O Brasil encerrou 2025 batendo recorde no turismo internacional: quase 9,3 milhões de estrangeiros visitaram o país, um crescimento impressionante de 37,1% em relação a 2024, segundo dados do Ministério do Turismo.>
Esse é o maior volume já observado na série histórica, com início em 1970, impulsionado especialmente pela chegada em massa de argentinos. >
Os "hermanos" foram responsáveis por 36% do fluxo turístico internacional no país, com quase 3,4 milhões de visitantes. No ano anterior, o número ficou em 1,9 milhão (29% do total), o que indica crescimento de 73%.>
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Os estrangeiros também nunca gastaram tanto por aqui, desembolsando US$ 7,86 bilhões (R$ 41,4 bilhões) em viagens ao Brasil em 2025, segundo dados divulgados pelo Banco Central — o maior valor da série histórica, com início em 1994.>
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No cenário global, o Brasil foi o destaque em 2025, segundo o relatório mais recente do braço de turismo das Nações Unidas (ONU Turismo) — no ano passado, foi o país com mais crescimento na chegada de estrangeiros, bem à frente dos próximos da lista, Egito (+20%), Marrocos (+14%) e Seychelles (+13%).>
Já o relatório da consultoria internacional da indústria do turismo Phocuswright que mede o número de reservas ligadas a viagens no mundo, mostra o Brasil liderando o crescimento mundial.>
Na comparação com 2024, foram 37,3% mais reservas, muito à frente do segundo colocado, o México, que cresceu 18,2%.>
A BBC News Brasil consultou especialistas brasileiros e estrangeiros para saber se esses números indicam se de fato o Brasil entrou na rota do turismo internacional. >
Mesmo com seu tamanho continental e atrativos variados, o Brasil sempre apresentou números tímidos de viajantes internacionais se comparado a países menores como México (com 45 milhões de visitantes em 2024, impulsionado pelo turismo americano em Cancún) e Tailândia (33 milhões em 2025).>
Em 2024, o Brasil recebeu menos turistas até do que a República Dominicana (com seus resorts de Punta Cana) e a Colômbia.>
Os resultados positivos de 2025, então, são vistos com otimismo pelo mercado e pesquisadores, apesar de alguma cautela pela grande inflada de argentinos nos números.>
Segundo o professor Alexandre Parnosso Netto, pesquisador de turismo na USP (Universidade de São Paulo), o dado bruto é positivo e mostra que o país voltou a aparecer no radar de diferentes mercados pelo mundo.>
"Mas ele precisa ser acompanhado de políticas estruturantes para se transformar em desenvolvimento de longo prazo", ressalta.>
Diretor-executivo da plataforma de reservas Booking.com para as Américas, Ian Ackland avalia que o Brasil vive um claro aumento de visibilidade e relevância internacionais. >
"Isso se reflete não apenas nos números oficiais do turismo, mas também em sinais iniciais da intenção dos viajantes, como o comportamento de busca", conta.>
No Booking.com, uma das maiores plataformas globais do setor, segundo Ackland, o Brasil tem se mostrado atrativo o ano inteiro, não restrito a uma única alta temporada de verão, com crescimento exponencial de buscas para cidades como São Paulo, Búzios e Florianópolis.>
Na lista de 2026 de destinos que serão tendências durante o ano, o Booking incluiu Manaus, que é porta de entrada para a Amazônia.>
Carolina Sass de Haro, analista da consultoria internacional Phocuswright e sócia no Brasil da consultoria Mapie, concorda que existe otimismo: "Foi um ano de virada estrutural, e não apenas um 'bom verão'", diz.>
Mas como o Brasil conseguiu resultados bons e o que ainda pode ser feito? >
Os dados não deixam dúvidas que os quase 3,4 milhões de argentinos foram os principais responsáveis pelo crescimento expressivo do turismo internacional no Brasil.>
Eles puderam ser vistos especialmente nos Estados fronteiriços do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco, segundo dados da Embratur.>
A liderança argentina não é novidade. Historicamente, o país é a principal origem de turistas que chegam ao Brasil.>
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Segundo o professor Alexandre Parnosso Netto, o argentino gosta do Brasil por vários motivos: proximidade geográfica, clima, praias, hospitalidade, preços relativamente acessíveis e afinidade cultural. >
"Para o argentino, mesmo que ele já tenha ido ao Chile ou ao Uruguai, geralmente a primeira viagem verdadeiramente internacional é para o Brasil, pela cultura e pelo idioma diferentes", disse.>
O recorde de visitas desse ano ocorre por uma combinação de fatores que têm muito a ver com a economia argentina.>
Para tentar controlar o problema crônico da inflação, o governo de Javier Milei tem usado uma política monetária que tenta manter o peso valorizado em termos reais na comparação ao dólar (ou ao real).>
Isso significa que o poder de compra do peso para compras (e viagens) no exterior em 2025 estava maior em relação aos anos anteriores. >
Ao mesmo tempo, a Argentina tem ficado mais cara em dólares (o que afasta os turistas internacionais) e para os próprios argentinos, que têm pagado mais caro por serviços básicos e cujos salários muitas vezes não acompanham a inflação acumulada. >
Com isso, em alguns casos, passar as férias de verão em Florianópolis (onde muitos conseguem chegar de carro) pode sair mais barato do que viajar a Mar del Plata, tradicional balneário do país.>
Os argentinos ainda contam cada vez mais com uma facilidade que o brasileiro já conhece: o Pix.>
Várias plataformas digitais argentinas agora oferecem aos turistas no Brasil a possibilidade de pagar via QR code, com menos taxas que cartões de crédito. >
Só na primeira quinzena de janeiro foram registrados mais de US$ 8 milhões (R$ 42,2 mihões) em transações, segundo dados compilados pelo jornal La Nación.>
Para a analista Carolina Sass de Haro, apesar da forte dependência do mercado argentino, o dado mais relevante de 2025 é que, mesmo desconsiderando os vizinhos, o Brasil registrou mais de 1 milhão de turistas adicionais vindos de outros mercados, especialmente EUA e Europa. >
"Isso mostra que o movimento é mais do que conjuntural: trata-se de um reposicionamento do Brasil no mapa global do turismo", diz.>
"A dependência da Argentina ainda preocupa. Se houver forte perda de poder de compra, sentiremos o impacto. Mas, segundo nossos cenários, o maior risco não é perder o turista argentino, e sim não conseguir substituir essa concentração por um mix mais equilibrado de mercados emissores", completa de Haro.>
O crescimento do Brasil no setor vem acompanhado de uma recuperação global do turismo pós-pandemia — que voltou a quase 100% dos níveis antes de 2020 em 2024 e voltou a crescer em 2025.>
Mas, como os dados deixam claros, o Brasil tem ganhado mais tração que outros países. >
Isso se dá, segundo os especialistas consultados, por uma combinação de boas estratégias e planos do poder público, além de o país se encaixar nas maiores tendências atuais de viagem.>
Uma das iniciativas citadas é o "Plano Brasis", lançado pela Embratur em parceria com o Sebrae, que define diretrizes para a promoção internacional do Brasil até 2027, com estratégias específicas para cada Estado e para uma melhor distribuição do fluxo turístico pelo país.>
Além de melhoria da imagem internacional e uma maior articulação institucional, o professor Alexandre Parnosso Netto avalia que o Brasil tem acertado em outro ponto: uma comunicação mais alinhada com o que o turista contemporâneo busca.>
"Isso é: experiências, diversidade cultural e natureza", diz.>
A analista Carolina Sass de Haro percebe que a comunicação brasileira deixou de focar exclusivamente em "sol e praia", passando a destacar sustentabilidade, diversidade cultural, gastronomia e experiências autênticas.>
"Há uma demanda global crescente por natureza e autenticidade, uma busca por destinos com boa relação custo-benefício e um certo esgotamento de destinos superlotados", diz.>
Na avaliação de Ian Ackland, da Booking.com, as pesquisas mais recentes da plataforma têm indicado grande interesse global por viagens mais "espontâneas e exploradoras".>
"É uma tendência que beneficia destinos como o Brasil, que oferecem uma grande quantidade de experiências em um único país", avalia.>
Os dados do Booking.com também apontam que 43% dos viajantes querem se conectar com a natureza e 59% embarcariam para um destino mesmo que isso significasse enfrentar barreiras com idioma — outras duas tendências que beneficiam o Brasil.>
O país viu ainda o aumento na oferta de voos e rotas internacionais, além de avanços importantes nos investimentos em hotéis.>
Somente no recorte de dezembro, foram 6.811 voos internacionais, um aumento de 10% em relação a dezembro de 2024. Até setembro de 2026, 64 novos voos e 16 frequências adicionais já foram autorizados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).>
Soma-se a isso o marketing quase espontâneo dos influencers de viagens nas redes sociais e da presença de famosos que curtiram o país — como o caso da cantora Dua Lipa, que fez shows em novembro no Rio e São Paulo, sem deixar de turistar e postar para quase 90 milhões de seguidores fotos nas duas cidades.>
"Com as redes sociais, influencers, artistas e visitantes comuns acabam funcionando como embaixadores informais do país, mostrando um Brasil mais diverso, acolhedor e seguro do que muitos imaginam", explica Parnosso Netto.>
"Essas experiências positivas compartilhadas em tempo real ajudam a desconstruir a imagem simplificada e, muitas vezes, estigmatizada de 'país perigoso'.">
A violência, porém, segue sendo vista como um empecilho para o Brasil se firmar ainda mais no cenário internacional, além da necessidade de uma continuidade dos planos do poder público.>
"Na prática, o Brasil é visto como um destino incrível, mas que exige planejamento e cuidados específicos. É, sim, a 'bola da vez', mas ainda com um asterisco importante: a segurança", avalia a analista Carolina Sass de Haro.>
"Para realmente entrar na rota global, não basta comunicar melhor.">
As análises de operadores internacionais e dados de busca e reserva mostram que o turismo internacional no Brasil mantém uma concentração persistente nos mesmos ícones: Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, praias famosas do Nordeste (como Porto de Galinhas, Pipa, arredores de Salvador) e, em menor grau, Amazônia. No caso dos argentinos, o litoral de Santa Catarina também tem muita força.>
Mas diante do tamanho do Brasil, há vários outros destinos que poderiam ser explorados no cenário internacional, na visão dos especialistas.>
Esses foram alguns dos destinos com potencial de entrar na rota do turismo internacional, segundo os analistas entrevistados para esta reportagem:>
Atrativos: os rios cristalinos de Bonito (MS) e a observação de uma fauna única >
Atrativos: as cachoeiras e comidas da Serra da Canastra e o charme das cidades históricas >
Atrativos: a vida cultural de Belém e a experiência em comunidades tradicionais perto de Manaus>
Atrativos: as praias de mata preservada de São Sebastião e Ilhabela e acesso fácil ao maior aeroporto do país>
Atrativos: turismo em vinícolas e de serra>
Atrativos: alguns dos cenários mais bonitos do país no caminho que vai de Jericoacoara (CE) até os Lençóis Maranhenses (MA), passando pelo Delta do Parnaíba (PI)>
Atrativos: as cachoeiras e trilhas na Chapada dos Veadeiros (GO) e no Jalapão (TO)>
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