Publicado em 23 de setembro de 2024 às 13:57
Pela segunda vez em apenas cinco anos, o presidente do Brasil abrirá a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, enquanto o país literalmente pega fogo. >
Mas Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao contrário do que fez seu antecessor, Jair Bolsonaro (PL), em 2019, não deverá minimizar o problema.>
Diante de uma ONU dividida pelo momento delicado na geopolítica global, na manhã de terça-feira (24), Lula deverá usar o catastrófico cenário de incêndios — considerados os piores nos últimos 20 anos tanto na Amazônia quanto no Pantanal, segundo o Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus, da União Europeia — como exemplo do que o mundo todo deve enfrentar em breve e prova da urgência em implementar uma agenda de combate a mudanças climáticas globalmente.>
Em que pese a responsabilidade do governo, que, como admitiu o próprio Lula, não estava “100% preparado” para lidar com a situação, o presidente brasileiro deve responsabilizar a associação de fenômenos como El Niño e comportamentos humanos criminosos e predatórios em relação ao meio ambiente pelas cenas de destruição.>
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Integrantes do governo têm usado o termo “terrorismo” para se referir aos possíveis atos criminosos que detonaram as queimadas, embora ressaltem que o governo Lula não pretende se vitimizar no palco internacional.>
O presidente deverá ainda citar outros eventos climáticos extremos ao redor do mundo. >
Tudo isso para argumentar que o tempo de ação para os líderes globais está se esgotando e que o mundo pode em breve atingir um ponto de não retorno que comprometeria a própria sobrevivência humana.>
A urgência que o presidente deverá imprimir ao tema em seu discurso ainda não é uma unanimidade em seu próprio gabinete ministerial. >
Enquanto o Brasil organiza a COP30, a ser realizada em novembro de 2025 em Belém, parte do governo defende, por exemplo, a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas, algo a que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), se opõe. >
Além disso, o plano da Petrobras, de quem o governo é acionista majoritário, é seguir ampliando a produção diária de barris de petróleo até chegar a 5,3 milhões de barris por dia em 2030. >
No domingo (22), Lula fez um discurso na Cúpula do Futuro, um evento da ONU. Ele criticou a falta de ação internacional para cumprir as metas de desenvolvimento sustentável — que segundo Lula "foram o maior empreendimento diplomático dos últimos anos, e caminham para se tornar o nosso maior fracasso coletivo".>
A atmosfera para a Assembleia Geral da ONU agora é significativamente distinta da vista no ano passado — tanto na forma como no conteúdo. >
Se em 2023 Lula chegou a Nova York com uma grande delegação e “certa pompa e efeito surpresa”, como definiu um embaixador brasileiro que acompanha a agenda, “agora, já não há mais que se falar que ‘o Brasil voltou’, a posição internacional já está restabelecida”.>
A delegação foi reduzida, e há “uma bem-vinda austeridade”, adicionou o mesmo diplomata, em conversa reservada com a BBC News Brasil.>
Acusado pela oposição de gastos excessivos com hotel e viagens em 2023 — o que, na visão do Planalto, teria afetado a popularidade do governo —, Lula optou desta vez por se hospedar na residência do representante do Brasil na ONU. >
Ministros com agendas paralelas à do presidente, como Fernando Haddad (PT), da Fazenda, viajaram em voo de carreira.>
“Será algo menos grandioso e ambicioso agora, até porque o discurso é confrontado com a realidade”, afirma Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).>
"Lula deve se concentrar em três aspectos nos quais o Brasil realmente tem a contribuir. Além das mudanças climáticas, o combate global à fome e à pobreza e a reforma de mecanismos multilaterais.">
No combate à fome, o Brasil tem tentado exportar experiências domésticas bem-sucedidas, como o programa Bolsa Família, ao mesmo tempo em que se esforça para construir uma rede internacional para criação e adoção de novas políticas públicas no tema: a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza Extrema, lançada no âmbito do G-20. >
Em Nova York, Lula deverá receber das mãos do fundador da Microsoft e filantropo Bill Gates um prêmio por sua trajetória no combate à fome — ele quer atrair recursos do bilionário para a causa.>
Já na proposta de reforma da governança global, o governo do petista repisa uma pauta tradicional da diplomacia brasileira.>
Desta vez, diplomatas brasileiros chegaram a cogitar a evocação do artigo 109 da Carta das Nações Unidas para, com maioria qualificada na Assembleia Geral, forçar uma reconfiguração de órgãos como o Conselho de Segurança, cada vez mais travado por três dos cinco membros permanentes e com poder de veto: Estados Unidos, China e Rússia. >
Na representação brasileira em Nova York, houve até quem se pusesse a pensar em como chegar a uma espécie de “Constituinte” para a ONU.>
Mas cinco diplomatas brasileiros com expertise no assunto com quem a BBC News Brasil conversou demonstraram dúvida sobre a viabilidade ou a conveniência de lançar algo nesta linha no discurso do presidente e anteviam que a questão deveria ficar em aberto até instantes antes de Lula subir ao púlpito da Assembleia Geral.>
Eles argumentam que, hoje, as negociações multilaterais “são muito mais difíceis” e “travadas” do que nos dois primeiros mandatos do petista e que qualquer ideia é lançada em um “terreno polarizado e desfavorável”. >
Propostas de reforma mal colocadas poderiam gerar o indesejável resultado de uma piora nas condições de negociação multilaterais.>
Prova da dificuldade foi dada no último domingo (22), quando a Rússia tentou derrubar um compromisso proposto pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, batizado de Pacto do Futuro, que tentava atualizar certas regras da relação multilateral. >
Entre outros pontos, o pacto propõe reformar o Conselho de Segurança até 2030, aliviar a dívida internacional para os países mais pobres e reformar os organismos financeiros como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial nos próximos seis anos. >
O texto acabou aprovado por 143 votos, mas não por consenso como boa parte da plenária desejava. >
Em breve manifestação na ONU, Lula comemorou os avanços trazidos pelo pacto, mas afirmou que “nos faltam ambição e ousadia” para melhorar a representatividade das Nações Unidas, onde o Sul Global estaria sub representado.>
Ele voltará à carga em seu discurso na Assembleia Geral, e Lula deverá usar o atual conflito em Gaza como exemplo da disfuncionalidade da ONU, da incapacidade dos líderes de buscarem e implementarem soluções pela paz e impedirem tragédias humanitárias. >
Depois de ter comparado a situação dos palestinos com o Holocausto — o que gerou uma resposta dura de Israel e uma crise diplomática entre os dois países —, Lula não repetirá a dose, mas, segundo um de seus auxiliares, frisará a desproporcionalidade do uso da força por Israel.>
Não por acaso, fome, clima e reforma de mecanismos multilaterais são os mesmos temas que o Brasil tem pautado no G20, grupo das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana, do qual o país é o atual presidente. >
Segundo um embaixador brasileiro, Lula tenta “promover a confluência entre a Assembleia Geral e o G20”. >
Em Nova York, ele patrocinará a primeira reunião do bloco das 20 maiores economias do mundo estendida à audiência da Assembleia Geral. >
Cerca de 90 países confirmaram presença no evento, de acordo com a assessoria do Planalto.>
Diante de uma série de derrotas recentes para sua liderança regional, a agenda G20 tem se mostrado prioritária para o Brasil.>
Na América Latina, que Lula pretendia liderar, o argentino Javier Milei se recusa a participar de reuniões do bloco do Mercosul, e o venezuelano Nicolás Maduro descumpriu os termos do acordo de Barbados para garantir a lisura das eleições presidenciais, aprofundando a crise no país — e tem fustigado o Brasil em suas tentativas de mediação. >
O México deixou as conversas tripartites que os brasileiros promoviam com a Colômbia para buscar saídas para a situação venezuelana. >
De outro lado, Lula foi criticado por Gabriel Boric por, segundo o líder chileno, deixar de condenar em termos mais fortes o que ele vê como um recrudescimento autoritário na Venezuela.>
Até mesmo a Nicarágua, de Daniel Ortega, historicamente um aliado do petista, tem imposto constrangimentos diplomáticos ao Brasil, por não endossar medidas tidas por Brasília como autoritárias. >
Para um embaixador brasileiro que atua na região e falou reservadamente à BBC News Brasil, “é impossível hoje liderar o Sul Global", porque "não parece existir uma agenda mínima com que esses países pareçam concordar”.>
“Os problemas estão aí e não se pode negá-los, mas diante disso, qual seria a alternativa? Se retirar?”, questiona Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).>
"Para o Brasil, interessa o multilateralismo para aumentar seu peso e condição de negociação no mundo. E, se não Lula, quem poderia ser este líder? Talvez (o primeiro-ministro indiano Narendra) Modi, mas não há muitas opções.">
Para Lopes, o que o governo Lula tem tentado e seguirá tentando é “se credenciar como um interlocutor confiável tanto do Sul como do Norte, ser um promotor e um fiador de diálogos”.>
É nesta posição que o Brasil copatrocinará, junto com a Espanha, o evento Em defesa das democracias, combatendo extremismos. >
Quando foi pensado por Lula e o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, o foco do evento era a atuação da direita radical com milícias digitais, algo que preocupa as duas administrações.>
De acordo com um auxiliar de Lula, o plano é que cada país apresente uma espécie de “cardápio de soluções para lidar com a extrema direita e discursos de ódio”. >
“Se a extrema direita está todo o tempo se articulando internacionalmente, por que os democratas também não deveriam fazê-lo?”, explica esse mesmo auxiliar. >
Devem participar da conversa os líderes de Chile, Boric, do Canadá, Justin Trudeau e da França, Emmanuel Macron. >
Em maior ou menor grau, os três têm tido sua liderança doméstica colocada em xeque por movimentos de direita em cada um desses países.>
No caso do Brasil, Lula deve salientar a recente contenda entre o bilionário dono da plataforma X, Elon Musk, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a derrubada de perfis que espalhariam falsas notícias e a necessidade de representação legal da rede no Brasil. >
A escalada da disputa judicial culminou na decisão de Moraes de suspender o acesso ao X em todo o país.>
O governo Lula defende que este é um exemplo exitoso de preservação da soberania nacional frente a ataques extremistas externos, a despeito de críticas indiretas de países como os Estados Unidos, que, por meio de sua embaixada em Brasília, salientaram a importância da garantia à “liberdade de expressão” ao comentar o caso. >
O assunto também deve entrar no discurso de Lula, que, sem citar Musk, deixará claro que fala sobre o bilionário. >
“Seremos sempre intolerantes com qualquer pessoa, tenha a fortuna que tiver, que desafie a legislação brasileira”, disse Lula em pronunciamento oficial de rádio e TV por ocasião do 7 de setembro.>
O recente aprofundamento da crise venezuelana, no entanto, que levou o candidato à Presidência pela oposição, Edmundo Gonzalez, a pedir asilo na Espanha deve forçar o tema na mesa do encontro, o que pode causar constrangimentos ao Brasil.>
“Se virar algo sobre a Venezuela, acabou o evento”, afirmou à BBC News Brasil um embaixador brasileiro com conhecimento do assunto. >
Os diplomatas do Brasil defendem que este não é o foro ideal para o assunto, mas admitem que é possível que Sánchez tenha interesse de discutir possíveis ideias para a questão da Venezuela, a serem tentadas ainda antes da posse de Maduro, marcada para janeiro.>
Auxiliares do presidente defendem que Lula cite a situação da Venezuela em seu discurso no plenário da Assembleia Geral da ONU, mas a intenção é que o modo como essa menção acontecerá permita que o Brasil siga sustentando conversas tanto com Maduro quanto com a oposição.>
Ainda às margens da ONU, o Brasil fará com a China uma reunião com cerca de 20 países do Sul Global, entre os quais estariam Índia, África do Sul e Indonésia, para debater opções para o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia. >
Nenhum dos dois países envolvidos diretamente no conflito, no entanto, participará do evento, que tampouco contará com a presença do próprio Lula. >
Embora o presidente tenha tentado exercer papel direto na mediação do conflito no ano passado, com declarações que foram alvo de críticas no Brasil e no exterior, não houve qualquer tipo de avanço prático promovido pelo brasileiro no cenário.>
Além dos eventos multilaterais nas Nações Unidas e às suas margens e de reuniões bilaterais com Macron, Sánchez, o primeiro-ministro alemão Olaf Scholz, o primeiro ministro haitiano, Garry Conille e a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, este ano Lula optou por comparecer em dois eventos laterais, que lhe conferem prestígio pessoal.>
Ele discursará na iniciativa Global Clinton, após convite feito por telefone, em agosto, pelo ex-presidente americano Bill Clinton, que patrocina o evento.>
E participará de um talk-show com Bill Gates na premiação anual Goalkeepers, da Fundação Bill e Melinda Gates, em que será laureado por seu trabalho em combater a fome.>
Nos dois casos, ele espera levantar doações para suas agendas ambiental e de combate à fome junto aos bilionários americanos que circulam nesse tipo de evento. >
E também enriquecer seu portfólio como personalidade e líder global de expressão mundial.>
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