Publicado em 20 de setembro de 2025 às 07:33
No ponto mais alto do sítio histórico de Olinda, em Pernambuco, o enorme reservatório de água dos anos 1930 não passa despercebido: tem o tamanho de um prédio de seis andares, fica em frente à principal igreja da cidade e destoa do conjunto arquitetônico ao redor.>
Mas o que faria esse prisma retangular de concreto entrar na história da arquitetura brasileira está apenas em dois dos lados de sua fachada.>
Em vez de ser uma caixa-d'água comum, com quatro lados "cegos" (sem nenhuma abertura), o prédio projetado pelo arquiteto Luiz Nunes utiliza um elemento construtivo que havia sido criado no Recife alguns anos antes: o cobogó.>
Era a primeira vez que um edifício de expressão aparecia "vazado" - um estilo que seria replicado nas décadas seguintes em dezenas de prédios do Rio de Janeiro, de Brasília e de São Paulo, além de casas Brasil afora.>
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Depois de cair em certo esquecimento, a peça tem sido redescoberta por arquitetos nos últimos anos e é vista com potencial de refrescar ambientes em tempos de calor extremo - neste fim de semana, o Brasil enfrenta sua sexta onda de calor do ano, segundo a Climatempo, com temperaturas acima acima de 40 graus em várias localidades.>
É que o cobogó faz uma barreira contra o Sol, ao mesmo tempo que deixa passar alguma luminosidade. Também oferece alguma privacidade para quem está dentro, que consegue ver quem está fora. >
E, o mais importante, permite que o vento circule. >
Essa peça, que surgiu na indústria da construção pernambucana, acabou fazendo parte de estratégias usadas pelos arquitetos modernistas do século 20 para amenizar o calor em épocas em que o ar-condicionado não havia se popularizado ou sequer sido introduzido no Brasil.>
"Ele pode criar uma zona de proteção ou de transição num edifício, funcionando como 'colchão' de ar", explica a arquiteta Guilah Naslavsky, especialista em modernismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).>
"O cobogó é uma solução bioclimática, um ícone que combina a sustentabilidade com a poética da arquitetura brasileira", afirma Marcella Arruda, co-curadora da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em cartaz no Pavilhão da Oca, no Ibirapuera, e que tem como tema o clima e o futuro das cidades.>
Na caixa-d'água de Olinda, por exemplo, a fachada de cobogós, ao ser barreira de Sol e permitir a passagem de vento, auxiliava para amenizar o calor incidente nas tubulações, preservando e resfriando a temperatura das águas no tanque. >
É uma "climatização passiva" que ocorre no edifício por si só. >
Hoje, os prédios construídos no quente Recife, como em tantas cidades brasileiras, pouco utilizam dessas estratégias que fizeram na história ali. >
Em endereços mais nobres, fachadas são completamente fechadas em vidros verdes e azuis, um material conhecido por absorver e irradiar calor. Muitas vezes, sem varandas.>
Nas suas pesquisas para o livro Cobogó de Pernambuco, o arquiteto Cristiano Borba encontrou a patente de peça construtiva, datada de 1929.>
Apesar de não existir uma explicação registrada sobre a escolha do nome, a história que se conta passa bem longe de uma origem africana ou indígena - como a sonoridade da palavra pode indicar. >
O Dicionário Aurélio sacramentou: "co-bo-gó" une as iniciais dos três engenheiros residentes no Recife por trás da criação.>
Cobogó, conforme a sua patente, portanto, seria a peça quadrada específica com fileiras de oito furos vista na caixa-d'água de Olinda. >
Todos os outros tipos de elementos vazados que vieram depois, com diversos desenhos e formatos, teoricamente não seriam um cobogó.>
"É um grande caso de chamar o todo pela parte", explica Borba, doutor em Desenvolvimento Urbano pela UFPE. Algo que acontece ao chamarmos curativos de "band-aid" ou lâminas de barbear de "gilette", por exemplo. >
Toda a funcionalidade que o cobogó demonstraria ter, porém, não era o objetivo inicial dos três engenheiros por trás da invenção, conta a pesquisadora Guilah Naslavsky.>
O trio não estava atrás de um elemento vazado para ventilar, mas de um bloco de cimento pré-fabricado, mais prático e barato para construção, "para ser usado basicamente como um tijolo", resume. >
Ou seja, um elemento industrial, que poderia ser produzido em larga escala e estar presente na estrutura das grandes construções.>
A ideia dos engenheiros era que o cobogó pudesse ser preenchido ou deixado aberto, conforme o desejo do construtor. >
"Eles não tinham uma preocupação muito plástica ou estética. Queriam construir rápido e muito", completa Borba.>
Foi o uso dado pelo efervescente cenário arquitetônico moderno do Recife que fez essa peça construtiva ganhar outros usos. E, assim, a caixa-d'água de Olinda, num ponto cultural de destaque em Pernambuco, é o ponto inicial dessa transformação.>
A parede vazada permitia a permanência por mais tempo dentro da estrutura, com proteção do sol e com o vento passando, num uso mais parecido com o que se dá hoje. >
"É muito normal que, depois, venham as soluções mais populares, as não eruditas, que acabaram fugindo do padrão dos oito furinhos", explica Borba. >
Para o pesquisador, o custo menor do que outros materiais e a certa proteção à entrada de animais ou pessoas, fez essa ideia se espalhar.>
Nas casas do interior nordestino, eles foram enchendo jardins, muros, varandas e quintais. >
"Então isso vai ganhando esse apelo de fato e se criando uma identidade visual popular", diz Borba.>
Depois do Grande Recife, o Rio de Janeiro teve os primeiros projetos de destaque com uso de cobogós, como os edifícios ao redor do Parque Guinle, em Laranjeiras. >
Na recém-construída Brasília dos anos 1960 - nas palavras de Cristiano Borba, uma "filhote de arquitetos nordestinos" -, os cobogós, impulsionados pelo modernismo de Oscar Niemeyer, viraram parte da identidade.>
Até hoje, prédios das regiões nobres brasilienses são famosos por suas fachadas com aberturas. >
"Brasília era o grande laboratório de experimentação de todos os arquitetos modernos. Ali, foram surgindo os primeiros cobogós de autor, com assinatura, projetados para edifícios específicos", explica.>
Em escritórios de arquitetura atuais, o cobogó vive uma fase de resgate do passado - além de ser incentivado pelo seu efeito de luzes e vento.>
Ele também aparece até como um divisor de ambientes internos, permitindo luminosidade entre a cozinha e sala ou até mesmo no banheiro.>
"Ele tem um contexto de design, mas também pode trazer a lembrança da casa da avó ou de algum ambiente que traz uma memória afetiva", diz João Gomes Neto, fundador da Obi, empresa especializada em revestimentos e cobogós em João Pessoa (PB).>
O empresário avalia que o aumento da procura por cobogós também está relacionado a uma tentativa de arquitetos em trazer o conforto térmico nos projetos, especialmente após a pandemia, quando ficamos mais tempo dentro de casa.>
"É um ambiente que respira", resume Neto.>
Na verdade, nenhuma das duas exatamente, segundo os pesquisadores.>
Um dos mitos em torno do cobogó é que ele tem sua origem nos muxarabis, uma treliça de madeira vazada, de origem árabe, usada principalmente em janelas, varandas ou fachadas na arquitetura islâmica.>
Elementos vistos, inclusive, em dois conhecidos sobrados mouriscos de Olinda.>
Os muxarabis permitiam justamente a entrada de luz e ventilação nas casas.>
Para o arquiteto Cristiano Borba, o elemento vazado com essa função sempre esteve presente na história em locais de clima quente, sendo impossível definir quem o criou.>
"Isso vai sempre aparecer na Ásia, no Oriente Médio e até na arquitetura indígena", explica.>
Ou seja, a explicação dos pesquisadores é de que o cobogó, que surgiu como um elemento puramente industrial, no fim se tornou uma continuidade de um hábito de resolver edifícios em climas em que você precisa gerar uma sombra e certa permeabilidade ao vento. >
"Quando a gente chega no trópico úmido Atlântico nordestino, isso torna-se necessário", diz.>
Num cenário de crise climática, com o planeta cada vez mais quente, os cobogós têm espaço para ganhar uma função no conforto térmico, dizem os pesquisadores.>
Por que não imaginar prédios públicos com corredores cheios de cobogós e espaços abertos para permitir a circulação de ar? Ou prédios residenciais em que a fachada poente (fundos) tenha uma camada de proteção de cobogós? E casas com áreas mais permeáveis à ventilação?>
"Não aprendemos com esse passado, e nossa cidade está cheia de prédios com fachadas brancas, fechadas, com painéis de vidro, sem varandas, elementos vazados, nada. Só para torrar lá dentro", diz Guilah Naslavsky sobre o Recife.>
Segundo a pesquisadora, essa tendência pode ser vista inclusive em comunidades, onde é comum encontrar fachadas de vidro quando a família consegue algum dinheiro. >
"Vira uma banheira de vidro azul sem condição térmica.">
Um dos problemas vistos pelos arquitetos é que o Brasil hoje já é um país extremamente urbanizado e construído. Seria difícil imaginar uma reformulação de edifícios para incluir elementos vazados como cobogós.>
Outro aspecto que se move contra a peça é o medo que o brasileiro passou a ter da rua. >
Apesar de os cobogós darem uma certa privacidade (quem está dentro consegue ver mais quem está fora do que o contrário), ainda assim deixa a construção com abertura à cidade.>
Mas há espaço para uma retomada, na avaliação de pesquisadores.>
"Temos arquitetos jovens, sobretudo no interior, no sertão, recriando esses elementos em áreas muito quentes. Mas são soluções residenciais pontuais", diz Naslavsky.>
Para a Bienal de Arquitetura de São Paulo, os curadores escolheram expor uma releitura de cobogó sustentável. "Inicialmente fabricado em cimento e cerâmica, hoje em dia pode ser feito com o aproveitamento de resíduos da construção civil na sua composição, como mostramos na exposição", diz o também co-curador e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Clevio Rabelo.>
Uma pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre a possibilidade de usar cobogós em favelas mostrou que ele pode ser útil, especialmente os chamados "de seção variável" (cuja abertura de entrada é maior que a de saída, permitindo o vento ganhar mais velocidade). >
"Cobogós possuem grande relevância quanto ao conforto térmico das residências, principalmente na ventilação no contexto de melhorias habitacionais das favelas", diz o artigo assinado pelas arquitetas Thaís Stefano e Luciana Figueiredo.>
"Poderia virar uma moda, uma tendência e uma diretriz. Poderia. Acho que faria sentido e teria até apelo", comenta o arquiteto Cristiano Borba, ressaltando que o uso só faz sentido, claro, em climas que permitam existir essa abertura constante. >
"A gente não tem isso nos prédios do programa Minha Casa Minha Vida, mas poderia ter", sugere Guilah Naslavsky.>
"Se não tivéssemos ficado tão paranoicos com a vida exterior à casa e mantido a tradição, hoje, estaríamos mais tranquilos em relação à compra de ar-condicionado." >
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