Publicado em 16 de fevereiro de 2026 às 15:09
Sob o olhar atento da Justiça Eleitoral, a Acadêmicos de Niterói abriu o desfile do grupo especial do Rio de Janeiro neste domingo (15/2), exaltando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e distribuindo ataques a opositores do governo.>
A decisão de homenagear a história do petista levou o tema ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), devido a acusações de campanha eleitoral antecipada. A Corte recusou na quinta-feira (12/2) um pedido do partido Novo para proibir a escola de entrar na avenida, mas os ministros deixaram claro que o teor do desfile ainda será alvo de escrutínio pela Justiça Eleitoral.>
A escola encantou apoiadores do presidente e enfureceu opositores. O ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje principal rival político de Lula, recebeu diversas menções ao longo do desfile.>
Logo na comissão de frente, atores interpretaram importantes momentos recentes da política brasileira, com uma ótica favorável ao petista. Usando máscaras de Lula e dos ex-presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer, os atores mostraram Temer roubando a faixa presidencial de sua antecessora, tratando o impeachment da petista como um golpe.>
>
Depois disso, grades cercaram o ator que interpretava Lula, em referência a sua prisão pela operação Lava Jato, enquanto Bolsonaro emergia, interpretado por um ator fantasiado de palhaço Bozo, e recebia a faixa presidencial de Temer.>
No quarto carro alegórico da escola, o personagem do palhaço Bozo reaparece, agora sentado atrás das grades, simbolizando a prisão de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.>
Já a ala "Neoconservadores em conserva", que ironizava setores da sociedade inclinados à direita, gerou especial revolta entre parlamentares bolsonaristas, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).>
Segundo descrição da ala disponibilizada pela Acadêmicos de Niterói, "a fantasia traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos".>
"Na cabeça dos componentes, há uma variação de elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo. São eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da Ditadura Militar e os grupos religiosos evangélicos", continua a descrição.>
Damares Alves acusou a escola de "perseguição religiosa" e disse que apresentará uma ação na Justiça "por estarem desrespeitando a fé de milhões e milhões de brasileiros".>
"Deixa eu dizer uma coisa: usar verba pública para ridicularizar igreja evangélica é inadmissível", disse ainda.>
A fala da senadora faz referência aos valores recebidos pela escola, dentro do financiamento público de todo o grupo especial do Rio de Janeiro.>
O apoio federal foi concedido por meio da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), que destinou R$ 12 milhões às doze escolas — cada uma levou R$ 1 milhão.>
O financiamento público do desfile sobre Lula pode se aproximar de R$ 10 milhões, considerando também valores repassados às escolas do grupo especial pelo governo estadual e as prefeituras do Rio de Janeiro e de Niterói.>
O desfile foi marcado também pela presença de celebridades. O ator e humorista Paulo Vieira interpretou Lula, enquanto a atriz Dira Paes representou a mãe do presidente, dona Lindu. Ela veio caracterizada de retirante, com um boneco de bebê no colo e crianças em volta, interpretando a migração da família do interior de Pernambuco para São Paulo, quando o petista ainda era pequeno.>
O refrão do samba-enredo trouxe o grito historicamente usado por eleitores do petista: "Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula". >
A música também cita o número do PT (13), ao falar que Lula levou "treze noites, treze dias" para migrar com sua mãe de Pernambuco a São Paulo quando criança, e faz referência a Bolsonaro, sem citá-lo diretamente, no trecho: "Assim que se firma a soberania / Sem mitos falsos, sem anistia".>
O presidente assistiu ao desfile do camarote da prefeitura do Rio, sem entrar na avenida com a escola.>
Na tentativa de evitar problemas com a Justiça Eleitoral, ele acompanhou também as outras três escolas que desfilaram no primeiro dia do grupo especial: Imperatriz Leopoldinense, Portela e Mangueira, e desceu à avenida apenas para beijar a bandeira das quatro agremiações.>
Sua participação no Carnaval do Rio foi registrada nas suas redes sociais de forma institucional, sem exaltações especiais ao desfile da Acadêmicos de Niterói.>
A primeira-dama Janja Lula da Silva, que era aguardada para desfilar em um dos carros alegóricos da escola, desistiu de participar por causa da controvérsia em torno do desfile e ficou com o presidente no camarote.>
Antes do desfile, a direção nacional do PT adotou uma série de orientações para seus militantes sobre como se comportar em relação ao desfile.>
Segundo publicação no Instagram do diretório do Rio de Janeiro, a recomendação era não utilizar vestimentas, faixas ou qualquer elemento visual com referência ao PT ou ao número 13, às eleições de 2026 ou a pleitos anteriores, assim como expressões como 'Lula 2026' ou 'Lula outra vez'.>
A orientação diz ainda para "não realizar ataques depreciativos a pré-candidatos" e tomar cuidado com publicações nas redes sociais.>
As recomendações terminam com o seguinte aviso: "Destacamos que a eventual ação que descumpra as recomendações é capaz de prejudicar significativamente o Partido dos Trabalhadores e o Presidente Lula".>
Procurado pela reportagem, o Palácio do Planalto não quis se manifestar. A BBC News Brasil entrou em contato com a Acadêmicos de Niterói por meio do WhatsApp da escola e enviou e-mail para sua assessoria de imprensa, mas não obteve retorno.>
"Não dá para falar da história do Lula, que é um líder político, sem falar de política. Então, obviamente, a gente fala de política, mas a gente não faz campanha política. A gente não está pedindo voto", disse o enredista da escola, Igor Ricardo, em entrevista à agência Associated Press, durante o desfile.>
A oposiçaõ ao governo Lula tentou evitar o desfile tanto na Justiça eleitoral como na Justiça comum, sem sucesso.>
O TSE rejeitou um pedido do partido Novo para impedir o desfile por considerar que seria censura, mas os ministros deixaram claro que veem risco de crime eleitoral, o que poderia levar a punições à aguardada candidatura à reeleição do presidente.>
"É um ambiente muito propício a que haja excessos, abusos e ilícitos. A festa popular do Carnaval não pode ser uma fresta para ilícitos eleitorais", afirmou a presidente do TSE, Cármen Lúcia, no julgamento.>
Após assistir ao desfile, o advogado eleitoral Alberto Rollo disse à BBC News Brasil que houve "excessos" que podem levar a punições.>
Antes de a escola entrar na avenida, sua percepção era diferente, de que não havia campanha antecipada na escolha do tema e na letra do samba-enredo, porque não havia pedido expresso de voto no presidente.>
Na ocasião, ele explicou à reportagem que o artigo 36-A da Lei das Eleições diz que "a menção à pretensa candidatura" e "a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos" não configuram propaganda antecipada, desde que não envolvam pedido explícito de voto.>
No entanto, ele diz que houve "exageros" no desfile. "O primeiro foi mencionar centenas de vezes aquele refrão de um jingle de campanha do Lula: 'olê, olê, olá, Lula, Lula' ao longo dos 79 minutos do desfile. Eu achei que aquilo era um comício eleitoral e não um desfile de escola de samba", analisa.>
"Segundo ponto, o desfile fez referência a motes de campanha de hoje, por exemplo a escala do trabalho 6 x 1, falou de defesa da soberania do Brasil, contra o tarifaço. Falou da isenção do Imposto de Renda de R$ 5 mil. Então, essas coisas de hoje não são homenagem para o passado. Para mim, isso é referência à eleição futura", continuou.>
Segundo Rollo, ainda que não haja pedido de voto explícito, a Justiça Eleitoral também não autoriza o uso de "palavras mágicas que façam referência à eleição".>
"E eu acho que houve essas palavras mágicas. Então, vai dar pano pra manga. Tem a análise sobre se houve abuso de poder econômico, abuso de poder político, que dá a cassação do registro [da candidatura], e se houve propaganda antecipada, que [a punição] é multa. Mas quem vai decidir é o TSE".>
Outros especialistas ouvidos antes do desfile consideraram que a letra do samba-enredo faz promoção ilegal da futura candidatura porque a música cita o número do PT, slogans eleitorais do partido e feitos do atual governo.>
A doutora em direito constitucional e advogada eleitoral Ingrid Dantas cita como exemplo o trecho "em Niterói, o amor venceu o medo", que faz referência ao slogan eleitoral de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro.>
Ela lembra que a polarização entre esses dois campos segue forte e deve marcar a disputa presidencial, com a anunciada pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente.>
"Nós temos, por meio desse enredo, uma tentativa clara de influenciar a vontade do eleitorado, induzindo que Lula é o mais apto ao cargo eletivo da Presidência da República", avaliou.>
"Ainda que não haja um pedido expresso de voto, nós temos o uso do que o Tribunal Superior Eleitoral entende como 'palavras mágicas' que induzem o eleitor ao número de campanha daquele candidato", continuou.>
Por outro lado, a professora não vê o crime de abuso de poder político, porque o desfile não está sendo promovido diretamente pela Presidência da República e os valores recebidos de órgãos públicos foram os idênticos aos destinados a outras escolas.>
Por isso, Dantas não acredita que Lula será considerado inelegível no futuro. A punição, diz, se limitaria a uma multa por campanha antecipada.>
Em 2022, por exemplo, o TSE multou o então presidente Jair Bolsonaro em R$ 5 mil por campanha antecipada devido à realização de uma motociata em abril daquele ano, antes do início oficial da corrida eleitoral.>
Já o advogado Guilherme Barcelos, fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), viu riscos maiores.>
Na sua avaliação, uma futura candidatura de Lula poderá ser questionada no TSE por atos de conduta vedada, devido ao dinheiro público envolvido, e por uso indevido dos meios de comunicação social, já que o desfile foi transmitido em TV aberta e divulgado em outras plataformas.>
"O artigo 73 da Lei das Eleições descreve as condutas vedadas. Nesse caso, estariam se utilizando de recursos públicos para insuflar eleitoralmente a figura de um pré-candidato", disse.>
"O argumento [a favor do desfile] é que todas as escolas receberam o mesmo valor, e esse financiamento tem previsão legal. A questão é que foi usado com desvio de finalidade", continuou.>
Antes de transmitir o desfile, a TV Globo destacou as acusações de campanha eleitoral antecipada contra da escola e o andamento do caso no TSE. A emissora fez uma narração contida da agremiação na avenida. >
A TV Globo também levou ao ar em janeiro vinhetas das doze escolas de samba, mas optou por não reproduzir trechos do samba da Acadêmicos de Niterói que citam o presidente diretamente, nem a referência indireta a Bolsonaro.>
De acordo com a ação apresentada pelo Novo no TSE, a Acadêmicos de Niterói receberá até R$ 9,650 milhões de diferentes governos, sendo o maior valor um repasse de R$ 4 milhões da prefeitura de Niterói, comandada por Rodrigo Neves (PDT), ex-petista.>
O mesmo montante foi destinado à Unidos do Viradouro, outra escola niteroense do grupo especial. "Isso significa que o valor do repasse não tem qualquer relação com qual é a escola, o tema, nem a homenagem do enredo", disse a prefeitura de Niterói à reportagem.>
O restante que estaria disponibilizado para a Acadêmicos de Niterói inclui R$ 1 milhão do governo federal via Embratur, R$ 2,5 milhões do governo estadual do Rio de Janeiro, comandado pelo bolsonarista Cláudio Castro (PL), e mais R$ 2,150 milhões da Prefeitura do Rio, governada por Eduardo Paes (PSD).>
Esses três valores não foram distribuídos diretamente pelos governos à escola, mas repassados por meio da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), através de contratos com os governos para impulsionar o carnaval.>
No total, a Liesa recebeu R$ 77,8 milhões, sendo R$ 12 milhões da Embratur, R$ 40 milhões do governo estadual e R$ 25,8 milhões da prefeitura carioca. Segundo o jornal Extra, uma parte teria ficado com a liga e o restante teria sido distribuído entre as doze escolas.>
Questionada pela BBC News Brasil, a Liesa não informou quanto exatamente foi destinado às escolas, respondendo apenas que "todos os valores são distribuídos igualmente entre as agremiações".>
O presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), chegou a participar do ensaio técnico da Acadêmicos de Niterói, mas não desfilou. >
Em resposta às críticas, ele disse que o financiamento do carnaval do Rio desse ano repetiu o mesmo valor destinado pela Embratur em 2025.>
"Eu tenho plena convicção de que é um investimento correto e necessário, fazer com que o mundo conheça o nosso carnaval, a nossa maior festa. E isso traz turistas, traz gente. Isso gera emprego e gera renda", argumentou, em vídeo divulgado nas suas redes sociais.>
Freixo também enfatizou que os valores são repassados em contrato com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e depois distribuídos igualmente entre as doze agremiações.>
"Não há nenhum favorecimento com alguma relação com o enredo. Se uma escola homenageia o Lula, se outra homenageia a Rita Lee, se outra vai homenagear o Ney Matogrosso, essa é uma escolha de cada escola. Nós somos um órgão de promoção do Brasil e não de censura", reforçou.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta