Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 09:09
Seguindo os passos de Madonna e Lady Gaga, a cantora colombiana Shakira se apresentará para um público estimado de um milhão de pessoas em um show gratuito nas areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 2 de maio. A produtora Bonus Track, responsável pelo evento, fará o anúncio oficial na tarde desta quinta-feira (12/2).>
Mas antes de comandar aquela que ficou conhecida como a maior pista de dança do mundo, a cantora teve que rebolar. Literalmente. Em um périplo pelo Brasil, com entrevistas em dezenas de programas de rádio e TV, além de shows por dezenas de cidades, não houve o que a artista não fizesse para conquistar os brasileiros.>
Imagens do arquivo do SBT cedidas à BBC News Brasil mostram uma dessas entrevistas, em 1997. No domingo de Páscoa, a cantora deixava sua família para participar do Domingo Legal, sob o comando de Gugu Liberato.>
O apresentador, conhecido nos bastidores por seu anseio por audiência, pediu à colombiana para sambar, fazer a dança do ventre — que mais tarde se tornaria um elemento central em coreografias de hits como Hips Don't Lie — e aprender "a dança da bundinha", inspirada em A Dança do Bumbum, do grupo É o Tchan.>
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Isso tudo fazia parte da estratégia que a Sony Music havia criado para que Shakira fizesse sucesso no Brasil. Além do carisma da artista, que também aprendeu a falar português, a gravadora contou com um investimento de US$ 2,8 milhões.>
Foi o suficiente para levá-lo ao estrelato, com mais de um milhão de discos vendidos, em um mercado especialmente difícil para cantores estrangeiros. Bad Bunny que o diga — o porto-riquenho só conseguiu chegar ao topo das paradas brasileiras nesta semana, dez anos após começar a cantar, impulsionado por uma apresentação histórica no Super Bowl.>
Uma das principais razões para a dificuldade de cantores estrangeiros fazerem sucesso no Brasil é a competitividade do mercado. O país, afinal, é o que mais escuta a própria música, com 75% do consumo no streaming voltado à produção nacional, segundo a Luminate, empresa especializada em dados da indústria do entretenimento nos quais as paradas da revista Billboard se baseiam.>
Calejado por décadas nos corredores de gravadoras brasileiras, Luiz Calainho, que era diretor de marketing da Sony Music e, depois, viria a se tornar vice-presidente do selo, sabia de todas essas dificuldades. Ele, então, montou para Shakira uma estratégia que atravessava todas as plataformas de mídia.>
Além de levá-la aos canais de TV e emissoras de rádio, convidou repórteres de jornais e revistas para irem até a Colômbia entrevistá-la e a levou para encontros com executivos e vendedores de lojas como a Americanas, uma das vitrines que mais comercializavam CDs no país.>
Um pouco mais tarde, quando já era conhecida, a cantora fez ainda uma peregrinação pelas cinco regiões do Brasil, levando seus shows não só a capitais ou regiões metropolitanas, mas também aos rincões do país.>
Só no interior paulista, por exemplo, ela se apresentou em Barretos, conhecida como a meca do sertanejo, por sua Festa do Peão, e Ribeirão Preto, com ingressos por preços que, mesmo levada em conta a inflação, hoje girariam em torno de R$ 150 — quase um terço do valor das entradas mais baratas de sua última turnê, Las Mujeres Ya No Lloran, que passou pelo Brasil no ano passado.>
Houve ainda outro fator considerado um pilar para o sucesso de Shakira no Brasil: uma parceria com a rádio Jovem Pan, que era a estação mais ouvida pelos jovens no país.>
Luiz Calainho conta que ofereceu ao dono da emissora, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, US$ 1 para cada disco que a artista vendesse no Brasil.>
"Se não me engano, cada música dela tocava de três a quatro vezes por dia, fora todo o envolvimento editorial. A Jovem Pan virou sócia do produto", ele conta. "Shakira vendeu, se não me engano, 1 milhão e 60 mil cópias de discos. Só nesta operação a emissora ganhou US$ 1 milhão.">
O executivo explica as cifras: na época, um real equivalia quase diretamente a um dólar, e cada disco custava em torno de R$ 15. Foram, então, US$ 15 milhões de lucro bruto, valor atualmente inalcançável para a maior parte do mercado.>
Hoje, ele compara, um investimento desse porte faria pouco sentido, porque o alcance da mídia tradicional não é mais o mesmo. No fim dos anos 1990, a Jovem Pan atingia 15 milhões de pessoas por dia, segundo reportagens da época. Hoje, alcança metade desse público no rádio — mas ao longo de um mês inteiro, não de um dia.>
O rendimento dos CDs também minguou, afirma Calainho, que se ampara em relatórios como os do Instituto Pró-Música, representante da Federação Internacional da Indústria Fonográfica no Brasil.>
A última publicação da entidade mostra que, embora o mercado de discos tenha voltado a crescer — com uma alta de 31,5% em 2024, o que gerou a maior receita desde 2017 —, ele se tornou ínfimo perante o streaming.>
No cenário atual, a venda de CDs e vinis representa só 0,6% dos R$ 3 bilhões movimentados pela indústria fonográfica brasileira, ante os 11% dos direitos autorais gerados por execuções de músicas em eventos e os 88% do streaming, que responde pela maior parte da receita.>
"Vivíamos em outro planeta. Havia essa capacidade milionária de investimento porque, na outra ponta, a rentabilidade do CD era estratosférica. A prensagem custava US$ 0,89, mais US$ 4 de direitos autorais. A gente vendia por R$ 15. Até um determinado momento, você pagava o investimento, mas, depois, era dinheiro na veia e na alma da gravadora", diz Calainho. "Isso não existe mais.">
O que também parece não existir mais, afirma o executivo, é a disponibilidade dos artistas. A própria Shakira era outra na época — seu visual, aliás, era marcado por cabelos pretos que em nada lembram o loiro pelo qual ela é lembrada hoje.>
Tamanha era sua disposição que, no Domingo Legal, a cantora foi até jurada do quadro A Banheira do Gugu, no qual homens de sunga agarravam e tentavam impedir que mulheres de biquíni retirassem sabonetes de uma banheira.>
Ela já havia se acostumado à TV brasileira. Em uma de suas primeiras entrevistas no Brasil, no Programa Livre, de Serginho Groisman no SBT, a plateia, formada em sua maioria por jovens, não poupou a artista de pedidos como "podemos ver seus 'pies descalzos'?", em referência à música Pies Descalzos, Sueños Blancos. A resposta? "Sim. Só espero que eles não estejam tão sujos.">
"Há 30 anos, o artista sabia que tinha que ir para a rua, ir à loja, ao programa de TV. A disposição dos mega-artistas agora é outra, e a dinâmica é diferente", afirma Calainho, à frente da L21 Corp, agência que comanda uma série de empresas do ramo do entretenimento, de gravadoras a casas de shows.>
"Também havia coisas que hoje em dia não são nem mais possíveis, né? A Banheira do Gugu seria completamente inviável", ele acrescenta. "Mas Shakira era uma artista que estava realmente a fim de virar a carreira no Brasil.">
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