Publicado em 31 de março de 2025 às 13:39
Vá a um supermercado nos Estados Unidos e as prateleiras estarão abastecidas com pastas de morango St Dalfour e conservas de framboesa Bonne Maman — alguns dos mais de US$ 200 milhões (R$ 1,1 bi) em geleias que a Europa envia para os EUA a cada ano.>
Mas tente procurar geleias feitas em terras americanas nos supermercados da Europa — e você provavelmente ficará de mãos vazias.>
Os EUA exportam menos de US$ 300 mil (R$ 1,7 milhão) em geleia a cada ano para o bloco.>
Esse é um desequilíbrio que a empresa americana JM Smucker, uma das maiores vendedoras desses produtos nos EUA, atribui a um imposto de importação de mais de 24% que suas geleias enfrentam na União Europeia (UE).>
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"O valor minúsculo das exportações dos EUA para a UE é inteiramente atribuível às altas tarifas", escreveu a empresa em uma carta à Casa Branca este mês, ao pedir para o governo Trump abordar a questão enquanto se prepara para cobrar tarifas "recíprocas" sobre os maiores parceiros comerciais do país.>
"Tarifas recíprocas dos EUA sobre geleias e compotas da UE serviriam para nivelar o campo de jogo", defendeu a empresa, observando que a maior tarifa dos EUA para geleias é atualmente de apenas 4,5%.>
Globalmente, a pressão de Trump para implementar tarifas contra parceiros comerciais próximos — muitos dos quais têm cargas tarifárias médias semelhantes às da América — gerou raiva e perplexidade, ao mesmo tempo em que atraiu alertas de economistas sobre preços mais altos e outras possíveis dores de cabeça econômicas.>
Algumas empresas nos EUA ecoaram essas preocupações, mas os apelos de Trump por tarifas também canalizam frustrações de longa data que muitas empresas sentem sobre a concorrência estrangeira e as políticas que enfrentam no exterior.>
A carta da Smucker foi uma entre centenas enviadas à Casa Branca, que buscam influenciar o próximo conjunto de tarifas, com previsão de divulgação no dia 2 de abril.>
Os produtores de maçãs levantaram a grande disparidade em impostos de importação que essas frutas enfrentam em países como Índia (50%), Tailândia (40%) e Brasil (10%), bem como regras sanitárias em países como a Austrália, que segundo eles bloqueiam injustamente as exportações.>
As empresas de streaming chamaram atenção para impostos digitais no Canadá e na Turquia, que disseram "discriminar injustamente" companhias dos EUA.>
O lobby do petróleo e gás natural criticou as regulamentações no México que exigem uma parceria com a empresa estatal de petróleo, além de outras políticas.>
A própria Casa Branca destacou tarifas desiguais de etanol no Brasil (18% ante 2,5% nos EUA), tarifas de automóveis na Europa (10% ante 2,5% nos EUA) e motocicletas na Índia (até alguns anos atrás, 100% versus 2,4% nos EUA).>
Trump sugeriu que o plano de tarifas recíprocas ajudará a remediar essas queixas, cujo anúncio é chamado de "Dia da Libertação".>
Mas mesmo as empresas que buscam remediar problemas próprios expressaram hesitação sobre a estratégia do presidente de tarifar primeiro e perguntar depois, o que aumenta o risco de retaliação e uma guerra comercial amplificada.>
Conforme o dia 2 de abril se aproxima, ainda há uma incerteza generalizada sobre os objetivos e o escopo dos planos da Casa Branca, especialmente porque Trump lança uma série de outras pistas sobre o que será feito.>
"Vamos ser legais", disse ele na semana passada. >
Ao mesmo tempo, o presidente dos EUA anunciou tarifas potencialmente devastadoras sobre carros e peças de automóveis estrangeiros. >
"Acho que as pessoas ficarão agradavelmente surpresas", complementou Trump.>
A Índia já disse que reduziria as tarifas sobre motocicletas — uma aposta aparente de que as tarifas de Trump são uma estratégia projetada para ganhar vantagem em negociações comerciais.>
No entanto, analistas alertam que esperar que Trump planeje usar tarifas recíprocas para negociar mudanças pode gerar desapontamento, já que o presidente também indicou que poderia ficar satisfeito com um simples revide.>
"Alguns dias são sobre vingança e apenas equalizar as coisas. Outros dias são sobre reduzir tarifas. Há então outros dias, os terceiros dias, que são sobre trazer a manufatura para os Estados Unidos", avalia William Reinsch, consultor sênior do Center for Strategic and International Studies (Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos), um organização sediada de Washington.>
"Ele usou todos esses 'dias' em momentos diferentes. Não há uma estratégia única aqui em que você possa confiar.">
A incompatibilidade entre a ferramenta contundente das tarifas e as questões mais específicas que as empresas querem que a Casa Branca defenda levou a uma dança delicada.>
As empresas sugerem tarifas de acordo com o interesse delas, ao mesmo tempo em que esperam evitar repercussões das taxas abrangentes que Trump sugeriu.>
Por exemplo, a fabricante NorthStar BlueScope Steel, que emprega 700 pessoas nos EUA e funde aço a partir de metal reciclado, pediu a Trump que expandisse as tarifas sobre aço e alumínio.>
Ao mesmo tempo, no entanto, pediu uma isenção de tarifas para as matérias-primas de que precisa, como sucatas.>
Da mesma forma, o grupo de lobby do qual JM Smucker e outros grandes fabricantes de alimentos fazem parte, a Consumer Brands Association, alertou contra "tarifas excessivamente amplas e abrangentes" que podem tornar mais caro a importação de ingredientes como cacau, que não são produzidos nos EUA.>
"Não quero necessariamente que o governo atual diga, 'vamos impor uma tarifa'", disse Tom Madrecki, vice-presidente de resiliência da cadeia de suprimentos do grupo, em um fórum recente sobre tarifas, organizado pela organização Farmers for Free Trade ("Agricultores pelo Livre Comércio", em tradução livre).>
"É esse equilíbrio cuidadoso entre adotar uma política comercial dos EUA em primeiro lugar e uma ação para combater políticas comerciais injustas no exterior. Mas talvez não exatamente dessa forma [como Trump está fazendo]", complementou Madrecki.>
Wilbur Ross, que atuou como secretário de comércio de Trump durante o primeiro mandato, entende que as preocupações comerciais se dissiparão à medida que os planos do presidente dos EUA se tornem claros. >
Ele entende que 2 de abril pode ser um "grande passo" nesse sentido.>
Mas ele observa que o presidente vê pouca desvantagem em usar tarifas, encarando-as como uma fonte de novas receitas ou uma maneira de reduzir importações e incentivar mais a manufatura local.>
"Ele está muito comprometido", avalia Ross. >
"As pessoas deveriam saber que algo assim estava por vir, porque ele tem falado sobre isso há muitos e muitos anos.">
Os republicanos, tradicionalmente o partido pró-comércio, continuam a apoiar a estratégia de Trump, mesmo quando os anúncios de tarifas foram responsabilizados pela recente liquidação do mercado de ações e a fraqueza da confiança empresarial e do consumidor revelada por pesquisas recentes.>
Em uma audiência recente sobre comércio, Jodey Arrington, um republicano que representa o Texas, reconheceu que pode haver "alguma dor associada no início", mas manteve a promessa de Trump de que as tarifas vão criar oportunidades para os eleitores no final.>
"Parece-me que não é americano não lutar para que nossos fabricantes, produtores e trabalhadores tenham simplesmente um campo de jogo equilibrado", defendeu ele.>
"Estamos simplesmente tentando redefinir esses relacionamentos [comerciais] de forma que joguemos no mesmo conjunto de regras", acrescentou Arrington. >
"Assim, todos ganham", concluiu ele.>
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