Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 08:09
Entre os dias 25 e 29 de novembro de 1975, delegações de oficiais de inteligência de seis ditaduras militares do Cone Sul reuniram-se na Academia de Guerra do Chile, em Santiago, a fim de coordenar ações contra opositores na região.>
Organizado pessoalmente pelo coronel do Exército do Chile e titular da Direção de Inteligência Nacional (Dina), Manuel Contreras Sepulveda, o encontro tinha por objetivo deixar para trás a colaboração eventual e lançar uma guerra secreta contra a subversão no continente.>
O motivo da reunião foi sintetizado em documento preparatório distribuído um mês antes pelos anfitriões nos seguintes termos: >
"A Subversão desde alguns anos se encontra presente em nosso Continente, amparado (sic) por concepções político-econômicas contrárias à História, à Filosofia, à Religião e aos costumes próprios dos países de nosso Hemisfério".>
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Diante disso, o regime chileno propunha a criação de um "Sistema de Coordenação de Segurança" integrado pelos seis Estados — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai — e todos os que quisessem aderir ao arranjo, com exceção de "países marxistas".>
O esquema teria três pilares: um banco de dados sobre elementos subversivos — algo similar ao que tem a Interpol, em Paris, mas dedicado à subversão, segundo o documento preparatório —, uma central de informações alimentada por transmissões via telex, meios de criptografia, telefones com misturadores de voz e correios e reuniões de trabalho periódicas.>
Segundo Nilson Mariano, jornalista, escritor e mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a cooperação entre ditaduras do Cone Sul sempre existiram, mas antes de 1975 eram ocasionais e bilaterais.>
Autor de Operación Cóndor: terrorismo de Estado en el Cono Sur (Lohlé-Lumen, 1998) e As garras do condor (Vozes, 2003), Mariano afirma que essa irregularidade era motivada pelo "descompasso entre os períodos autoritários nos países da região".>
Para o pesquisador, a Operação Condor "sistematizou e organizou essas cooperações que antes eram pontuais".>
Paradoxalmente, dos seis Estados representados em Santiago há exatos 50 anos, cinco viviam sob regimes policiais que, àquela altura, já haviam esmagado de forma inequívoca a oposição doméstica.>
A mais longeva era a do Paraguai, onde o general Alfredo Stroessner se mantinha no poder havia mais de 20 anos.>
Em seguida, figuravam as do Brasil e da Bolívia, com mais de 10 anos cada uma.>
Entre as novatas, estavam as do próprio Chile e do Uruguai, com pouco mais de dois anos, mas sem ameaça séria à vista.>
A Argentina, embora formalmente uma democracia em novembro de 1975 sob o governo da presidente María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, já vivia sob o signo da chamada Guerra Suja.>
Instalada no centro do poder, a organização armada Aliança Anticomunista Argentina, a Triple A, promovia sequestros e chacinas de militantes de esquerda desde 1973.>
Em menos de quatro meses, os argentinos também cairiam sob o tacão militar.>
Coube ao coronel do exército uruguaio e chefe da delegação do país, José A. Fons, batizar o novo sistema.>
"O presente Organismo se denominará Condor, aprovado por unanimidade, conforme a moção apresentada pela delegação do Uruguai em homenagem ao país sede", informa a ata de encerramento da oficialmente denominada Primeira Reunião Interamericana de Inteligência Nacional, de 28 de novembro de 1975.>
Por ironia, a majestosa ave de rapina típica dos Andes, que passou a simbolizar a operação, é associada em toda a América Latina à autonomia e à liberdade, chegando, no Brasil, a servir de emblema à geração romântica do poeta baiano Castro Alves (1847-1871), defensor apaixonado da abolição da escravidão.>
A reunião de Santiago não se limitou a batizar a parceria repressiva, adverte Mariano.>
"A partir de novembro de 1975, sob o nome de Operação Condor, foram criados um banco de dados dos que deveriam ser perseguidos e sequestrados e comandos especiais para agir além das fronteiras, inclusive na Europa e nos Estados Unidos.">
A ata do encontro lavrada em 28 de novembro traz, porém, apenas as assinaturas dos chefes de delegação de Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai.>
A representação brasileira não deixou sua firma para a história.>
Três semanas antes do encontro, um major do Exército brasileiro procurou o coronel comandante do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), criado em 1823 e subordinado ao Comando Militar do Planalto, em Brasília.>
"Coronel, fui designado para uma reunião em Santiago e não queria viajar sem que o senhor soubesse", disse o primeiro.>
Não havia necessidades de serviço que justificassem o contato: o major, lotado no Centro de Informações do Exército (CIE), não era subordinado ao coronel.>
Havia, no entanto, razões de camaradagem próprias da caserna.>
Ao cursar a Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), no início dos anos 1950, o então aspirante a oficial e agora major Thaumaturgo Sotero Vaz havia tido como instrutor o agora coronel e futuro ministro-chefe da Casa Militar Danilo Venturini.>
A reconstituição do diálogo entre os dois custou ao jornalista Luiz Cláudio Cunha 28 anos de investigações.>
A partir da conversa entre instrutor e pupilo, Cunha revelou pela primeira vez os bastidores da participação brasileira no encontro de 1975 no livro Operação Condor – o sequestro dos uruguaios: uma reportagem dos tempos da ditadura (L&PM, 2008).>
Nascido em 1932, Vaz, que atuava no CIE sob o codinome de Doutor Sabino, foi um dos dois integrantes da delegação brasileira a Santiago.>
O outro foi o tenente-coronel Flávio de Marco, o Tio Caco do CIE.>
Ambos eram veteranos da repressão à Guerrilha do Araguaia, entre 1973 e 1974.>
O vice-diretor da Dina, coronel da Força Aérea do Chile Mario Jahn, revelaria anos mais tarde à Justiça chilena ter entregue ao então ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e futuro presidente da República, general João Batista de Oliveira Figueiredo, o convite para que fosse a Santiago à frente de uma delegação do órgão.>
"O então ditador brasileiro Ernesto Geisel, a quem Figueiredo respondia diretamente, não tinha interesse em se colocar sob o manto de Pinochet", explica Cunha à BBC News Brasil.>
Para mostrar sua reserva, a ditadura brasileira resolveu enviar ao Chile uma delegação do Centro de Informações do Exército (CIE), inferior ao SNI na hierarquia do sistema de informações do regime.>
O grupo era composto por dois oficiais – e não três, como constava do convite –, de patente inferior aos delegados de todos os outros cinco países participantes, em sua maioria generais e coronéis.>
Mais notáveis ainda foram as instruções dadas pelo comandante do CIE, general-de-brigada Confúcio Danton de Paula Avelino, a De Marco e Vaz.>
Os brasileiros deveriam participar do conciliábulo na condição de observadores e, assim, abster-se de assinar qualquer documento.>
De Marco morreu em 1984, de infarto, quando exercia o cargo de diretor-administrativo do Palácio do Planalto no governo Figueiredo.>
Vaz morreu em 2015, de problemas pulmonares, como general-de-exército da reserva.>
Pouco antes de morrer, negou-se a prestar depoimento à Comissão Nacional da Verdade, utilizando como pretexto a saúde frágil.>
"A atitude do Brasil diante da reunião em Santiago, em vez de independência, mostra o caráter cínico e hipócrita da ditadura brasileira", afirma Cunha, que asessorou a Comissão Nacional da Verdade, instaurada quatro anos depois da publicação de seu livro.>
Documentos desclassificados pelos Estados Unidos em 2019, revelados pelo jornalista Roberto Simon no livro O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul (Companhia das Letras, 2021), mostram que o Brasil tentou "controlar" a Condor.>
Por um lado, os militares brasileiros resistiram à pressão de seus parceiros chilenos, argentinos e uruguaios para deflagrar assassinatos de opositores fora do Cone Sul.>
Por outro, deram preferência a operações bilaterais de sequestro e morte na região.>
A reunião de Santiago foi meticulosamente preparada pela Dina chilena, principal, mas não única interessada em ter as mãos livres para caçar inimigos além de suas fronteiras.>
A palestra de abertura ficou a cargo do próprio general Augusto Pinochet, que, em seguida, passou a coordenação dos trabalhos a Contreras.>
O encontro teve credenciamento, hospedagem e infraestrutura custeados pela agência, que não se esqueceu de intercalar as sete sessões de trabalho com turnos livres, viagem recreativa a Viña del Mar, visitas à Escola de Cavalaria do Chile e até mesmo "a algum Centro Noturno".>
Embora a Operação Condor tenha sido formalizada apenas em 1975, a colaboração entre os regimes tinha começado muito tempo antes.>
Desde 1970, a parceria contra a subversão estava muito longe de se limitar ao "acordo de cavalheiros" mencionado em seu documento de criação.>
A primeira colaboração comprovada de aparelhos repressivos de ditaduras do Cone Sul ocorreu em 11 de dezembro de 1970.>
Nesse dia, agentes brasileiros e argentinos sequestraram em Buenos Aires o brasileiro Jefferson Cardim de Alencar Osório — expulso do Exército em 1964 por se opor ao golpe militar e que vivia no Uruguai na condição de refugiado sob a proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).>
Juntamente com o militar, foram detidos e submetidos à tortura seu filho, Jefferson Lopetegui de Alencar Osório, e um sobrinho uruguaio, Eduardo Lopetegui.>
Em um voo da Força Aérea Brasileira, Cardim e o filho foram transportados clandestinamente para o Rio de Janeiro, onde o ex-major continuou sendo torturado e permaneceu preso até 1977.>
Anistiado em 1979, o ex-oficial teve o benefício anulado pelo Superior Tribunal Militar (STM), voltou a exilar-se na Venezuela e retornou ao país apenas em 1985, após o fim do regime militar.>
"O sequestro de Cardim é a primeira ação documentada da Operação Condor, cinco anos antes de o esquema receber esse nome", afirma o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, à BBC News Brasil.>
Em dezembro de 1973, dois anos após o sequestro de Cardim, agentes argentinos e brasileiros realizaram outros três sequestros em Buenos Aires.>
As vítimas foram o jornalista Edmur Péricles Camargo, o major brasileiro também expulso do Exército Joaquim Pires Cerveira e o estudante João Batista Rita Pereda.>
Diferentemente de Cardim, os três nunca mais foram vistos.>
O Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade pelo desaparecimento de Camargo, Cerveira e Rita e pagou indenizações às famílias dos três.>
O sigilo em torno da Operação Condor começou a ruir a partir de 1976, com o envolvimento comprovado de agentes da Dina apoiados por exilados cubanos anticastristas, no assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier em Washington, D.C.>
Juntamente com Letelier, foi morta a americana Ronni Karpen Moffitt, colega do diplomata no Institute for Policy Studies.>
O atentado, primeiro ato de terrorismo de Estado de um país estrangeiro em solo americano, provocou o esfriamento definitivo das relações entre Estados Unidos e Chile, além de suspensão de ajuda militar e embargo de armas ao país sul-americano.>
De forma mais abrangente, o rastro da Dina na eliminação de Letelier contribuiu para azedar as relações dos Estados Unidos com todas as ditaduras da região e estimular a chamada política de direitos humanos do presidente Jimmy Carter (1977-1981).>
O caso Letelier e outros com as digitais de agentes dos regimes do Cone Sul contribuiu para criar dificuldades para a ditadura brasileira.>
Aliada às divisões na caserna durante os governos Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985) e ao reavivamento da atividade política de oposição, a repercussão internacional dos assassinatos ganhou as páginas dos jornais.>
Em 1978, não foi mais possível disfarçar os sinais de uma ação coordenada entre as ditaduras.>
No dia 12 de novembro daquele ano, policiais brasileiros e uruguaios sequestraram em Porto Alegre os uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Rodríguez Díaz, juntamente com os dois filhos menores de Lilian.>
O crime foi parcialmente frustrado pela súbita aparição, no apartamento das vítimas, de dois jornalistas da sucursal da editora Abril em Porto Alegre, o então repórter da revista Veja Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo da revista Placar João Batista Scalco.>
Avisados por um denunciante anônimo de que estaria ocorrendo um sequestro em um edifício do bairro Menino Deus, Cunha e Scalco bateram à porta de Lilian e Universindo.>
Confundidos com militantes pelos policiais, foram rendidos até que suas identidades fossem checadas.>
Como se não bastasse o comprometimento do sigilo, o fotógrafo esportivo Scalco reconheceu um dos policiais, o inspetor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Orandir Portassi Lucas.>
Nos anos 1960, o agente tivera segundos de fama como ponta-esquerda driblador do Sport Club Internacional, onde recebera a alcunha de Didi Pedalada.>
O escândalo permitiu que Lilian e Universindo, embora sequestrados e torturados, tenham tido suas vidas preservadas, diferentemente de outros 180 uruguaios sequestrados no exterior, boa parte deles pela Operação Condor.>
"Em 1978, nunca tínhamos ouvido falar de Operação Condor", afirma Krischke.>
"De repente, torna-se público que agentes uruguaios não apenas estavam operando livremente em território brasileiro mas em cumplicidade com altas autoridades do país.">
Em junho de 1980, numa decisão inédita, o juiz Moacir Danilo Rodrigues condenou pela primeira vez dois agentes do Dops por envolvimento no esquema repressivo continental em razão do sequestro dos uruguaios.>
Rodrigues tornou-se, assim, o único juiz brasileiro a proferir até a atualidade sentença condenatória por crime cometido no âmbito da Operação Condor.>
Na totalidade, de 1976 a 2020, 10 países abriram processos judiciais para apurar responsabilidades pelas ações da Condor, num total de 49 causas.>
Além dos seis representados na reunião de Santiago, fazem parte da lista Estados Unidos, França, Itália e Peru.>
Do total de processos, 29 haviam resultado em sentenças condenatórias transitadas em julgado até 2011, segundo o site plancondor.org, mantido pela University College London e organizações pró-direitos humanos do Uruguai e do Chile.>
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