Publicado em 30 de novembro de 2024 às 09:43
As novas imagens da catedral de Notre-Dame de Paris foram transmitidas ao vivo pela TV na sexta-feira (29/11), durante visita do presidente francês Emmanuel Macron, mostrando ao público pela primeira vez a área interna do edifício desde que grande parte dela foi destruída ou danificada em um grande incêndio, em 2019.>
Da torre aos vitrais, ela foi completamente transformada. Não foi apenas uma reforma após o incêndio, mas uma revisão completa, incluindo a remoção de décadas de resíduos e fuligem acumulados desde a última restauração.>
A catedral gótica não ficou pronta para receber fiéis e visitantes durante os Jogos Olímpicos deste ano na capital francesa, como teria desejado Macron, mas reabrirá ao público no dia 7 de dezembro.>
A seguir, conheça algumas das principais características do trabalho de reparo e como ele foi alcançado.>
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O colapso da torre foi o clímax do incêndio de 2019. Muitas pessoas pensaram que ela era medieval, mas, na verdade, a original foi retirada na década de 1790 porque era considerada perigosa.>
A substituta da original, que queimou há cinco anos, foi colocada décadas depois como parte de uma reconstrução neogótica conduzida pelo arquiteto Eugène Viollet-Le-Duc.>
Desta vez, os carpinteiros usaram uma mistura entre o tradicional e o computadorizado para projetar e construir a enorme base de madeira.>
Ela foi içada para sua posição pelo maior guindaste da Europa, então uma estrutura de andaime foi montada, permitindo que os trabalhadores encaixassem a estrutura.>
Como o resto do telhado, a torre é revestida com chumbo. No topo, um novo galo dourado foi instalado para substituir o original que caiu no fogo. Ele foi recuperado, mas estava muito danificado para voltar.>
Dentro do novo galo estão relíquias sagradas, incluindo um espinho da Coroa de Espinhos da catedral e um pergaminho com os nomes de 2.000 pessoas que trabalharam na reforma.>
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A característica mais marcante da catedral reformada é a luminosidade das pedras. Isso porque todos os blocos de calcário foram limpos ou, em algumas partes, substituídos.>
A pedra de substituição foi obtida em pedreiras no norte da França. Especialistas conseguiram detectar pequenas características na pedra original — como certos fósseis — que os ajudaram a determinar a origem geográfica.>
A grande maioria da alvenaria estava intacta, mas coberta não apenas por antigas camadas de poeira e sujeira do passado, mas também fuligem e pó de chumbo do fogo. Para limpá-la, foram usados aspiradores de alta potência e, em seguida, um spray que descascou a alvenaria para remover a sujeira.>
No geral, cerca de 40.000 metros quadrados de pedra foram limpos.>
Para reconstruir o teto abobadado abaixo de onde a torre estava, os pedreiros tiveram que reaprender os princípios da arquitetura gótica — usando uma estrutura de madeira para colocar as pedras no lugar e coroando tudo com a pedra angular.>
No incêndio, o telhado de madeira queimou — todos os 100 metros dele. Nenhuma das madeiras de 800 anos sobreviveu. Mas a decisão foi tomada rapidamente para substituí-las o mais fielmente possível — com carvalho das florestas da França.>
Por feliz coincidência, um arquiteto chamado Remi Fromont havia conduzido um estudo aprofundado da estrutura da madeira como parte de sua tese universitária. Isso serviu de modelo para carpinteiros.>
Cerca de 1.200 carvalhos tiveram que ser encontrados. Eles deveriam ser retos, livres de nós, e com 13 metros de comprimento.>
Grande parte da madeira foi serrada à mão e depois lapidada com a ajuda de machados, assim como as vigas eram no século 13.>
Ao todo, há 35 "fermes" (estruturas triangulares que suportam o peso) ao longo do edifício.>
Muitas das esculturas externas – incluindo as famosas (mas não medievais) gárgulas e quimeras – foram danificadas por mangueiras de alta pressão usadas para combater o fogo. Muitas já estavam em más condições por causa da poluição.>
Uma oficina foi montada em frente à catedral para consertar e, quando necessário, substituir essas estátuas. Cinco das gárgulas (produtos da imaginação de Viollet-le-Duc) foram escaneadas por computador e, em seguida, refeitas em calcário.>
Dentro da catedral, as esculturas mais famosas – como A Virgem do Pilar e O Voto de Luís 13 – saíram ilesas. Mas todas foram limpas e receberam pequenos reparos.>
As muitas pinturas da catedral também retornaram à vida. Elas incluem os "Mays" – cenas enormes da vida de Cristo, que eram um presente anual para a catedral no século 17 dos ourives de Paris.>
Uma das mudanças mais notáveis na catedral é o retorno da cor ao coro e a muitas das capelas laterais.>
Aqui, novamente, o incêndio ofereceu uma oportunidade de redescobrir as glórias que jaziam sob décadas de sujeira e fuligem. >
Azuis, vermelhos e dourados ressurgiram, combinando-se com a cremosidade do calcário rejuvenescido para criar uma leveza que deve estar muito mais próxima da experiência original.>
Isso também vale para os vitrais. Eles estavam intactos, mas sujos. Eles foram desmontados, removidos, limpos e devolvidos. As grandes rosáceas foram deixadas em paz.>
Mais uma vez, muito do que o visitante vê hoje não é realmente medieval, mas o produto da imaginação medieval de Viollet-le-Duc.>
O grande órgão, construído no século 18, não foi afetado pelo calor ou pela água na noite do incêndio. O que causou isso foi o acúmulo de uma poeira amarela - monóxido de chumbo - em seus canos.>
Toda a estrutura - 12 metros de altura, seis teclados, 7.952 canos, 19 caixas de vento - foi desmontada e levada para oficinas fora de Paris.>
Forros de couro de ovelha foram substituídos e novos controles eletrônicos foram adicionados. Após a reinstalação, o instrumento foi reajustado - uma tarefa que leva vários meses, pois cada cano é minuciosamente alterado.>
No dia 7 de dezembro, as primeiras palavras do Arcebispo de Paris ao entrar na catedral recuperada serão: "Desperte, ó órgão, que o louvor a Deus seja ouvido!".>
Os oito sinos da torre norte também foram removidos em 2023 - uma operação enorme devido ao seu tamanho. Eles foram limpos e tratados e, em seguida, devolvidos algumas semanas atrás. O maior dos sinos é chamado Emmanuel.>
Os visitantes também notarão uma mudança no layout litúrgico da catedral, cujo altar, púlpito e assentos foram todos destruídos. Um altar de bronze simples foi criado, com novos cálices para os sacramentos.>
Há 1.500 novas cadeiras de madeira para a congregação e um novo relicário atrás do coro para segurar a Coroa de Espinhos.>
Novas vestimentas também foram criadas para o clero pelo designer Jean-Charles de Castelbajac.>
O trabalho de restauração em Notre-Dame foi uma bênção para os arqueólogos, que puderam acessar áreas subterrâneas que datam de centenas de anos antes da construção da catedral.>
Entre os muitos conjuntos de ossos que eles encontraram estavam aqueles que se acredita pertencer ao poeta renascentista Joachim du Bellay.>
Outra grande descoberta foram os restos cuidadosamente enterrados do crivo medieval, que originalmente separava a parte sagrada da igreja da congregação.>
Essa divisória de pedra de 11 metros, construída no século 13, tinha esculturas ricas e coloridas retratando a vida de Cristo. Foi desmontada no século 18 após uma mudança nas regras da igreja.>
Mas o clero certamente esperava que os restos fossem redescobertos porque as partes parecem ter sido colocadas com muito cuidado sob o solo. Espera-se que elas possam ser reunidas e colocadas em exposição.>
Apesar do sucesso da reforma, o trabalho não está completo. >
Ainda há andaimes ao redor de grande parte da extremidade leste e, nos próximos anos, as paredes externas da abside e da sacristia precisarão de tratamento.>
Também há planos para redesenhar a esplanada e criar um museu no vizinho hospital Hôtel-Dieu.>
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