Publicado em 2 de março de 2026 às 16:08
No céu azul e ensolarado de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), pode-se ver rastros brancos muito acima das casas em cor de areia e dos jardins bem regados.>
Não se trata de aviões Boeing ou Airbus transportando mais um contingente de turistas ou trabalhadores temporários. São mísseis balísticos, lançados pelo gigante vizinho dos Emirados no outro lado do Golfo: o Irã.>
No domingo (1/3) à tarde, o Ministério da Defesa dos EAU declarou já ter "lidado" até então com 165 mísseis balísticos, dois mísseis de cruzeiro e 541 drones iranianos.>
No Bahrein, um amigo já havia me alertado no domingo de manhã que o aeroporto local estava sendo atacado.>
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"Fortes explosões e sirenes me acordaram", escreveu ele. "Acho que talvez umas 20 explosões. Pelo menos dois impactos.">
Estas cenas não são comuns na região. Mas, desde o início do conflito, no sábado (28/2) de manhã, o Irã parece ter ampliado seus alvos.>
O país deixou de se restringir apenas a objetivos militares, como o quartel-general da Quinta Frota da Marinha americana no Bahrein, para atingir também aeroportos e outras instalações civis.>
Agora, hotéis de luxo, shopping centers, arranha-céus e terminais de embarque de aeroportos de última geração são objeto de ataques esporádicos, conforme surgem brechas nas defesas aéreas dos Estados árabes do Golfo.>
Estes locais nunca foram construídos com a perspectiva de que, algum dia, eles seriam atacados por drones e mísseis balísticos.>
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Aragchi, negou ter atacado os vizinhos do seu país.>
"Não estamos atacando nossos vizinhos nos países do Golfo Pérsico, mas sim a presença dos Estados Unidos naqueles países", declarou ele à rede de TV Al Jazeera. "Os vizinhos devem dirigir suas reclamações àqueles que tomam as decisões nesta guerra.">
Parte dos danos causados à infraestrutura civil nos países do Golfo é acidental, como resultado da queda de escombros de mísseis interceptados. Mas não todos eles.>
O número de ataques a aeroportos no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos indica algo mais que uma simples coincidência.>
O Irã sempre deixou claro que, se fosse atacado, faria represálias a qualquer país que considerasse cúmplice do ataque.>
Os países do Golfo tentaram demonstrar ao Irã que, na visão deles, não faziam parte deste ataque americano-israelense. Mas, basicamente, eles estão sendo castigados por serem aliados militares de Washington há muito tempo.>
No tempo do xá, antes da Revolução Islâmica (1979), o Irã era conhecido como "a polícia do Golfo".>
Após a revolução, o país sempre tentou convencer seus vizinhos de que deveria retomar este papel, "assumindo para si a segurança" do que eles chamam de Khaleej-e-Fars, o Golfo Pérsico (denominado Golfo da Arábia pelos árabes).>
Os líderes iranianos tentaram, sem sucesso, convencer os Estados árabes do Golfo a expulsar a marinha americana e aceitar a eles próprios como seus guardiães.>
Mas os Estados do Golfo são monarquias conservadoras dinásticas. Para seus governantes, o fervor revolucionário da República Islâmica é um anátema. E esta decisão seria cruzar uma linha.>
É difícil imaginar como eles poderão voltar a manter relações próximas da normalidade com a atual liderança iraniana, se ela sobreviver à guerra atual.>
A Arábia Saudita e Omã (dois países que acolheram há tempos forças militares americanas e ocidentais) acabaram em posição muito melhor do que os outros quatro Estados do Golfo Pérsico.>
Omã mantém boas relações com a República Islâmica e atuava como mediador nas conversas nucleares entre os Estados Unidos e o Irã. Mas sofreu um ataque com drones no seu porto comercial de Duqm, na costa do mar da Arábia.>
Já a capital saudita, Riad, aparentemente sofreu um ataque no sábado, o que gerou um comunicado enérgico do governo do país.>
"O Reino da Arábia Saudita expressa seu rechaço e condenação, nos termos mais enérgicos, dos flagrantes e covardes ataques iranianos contra a região de Riad e a Província Oriental, que foram interceptados com sucesso. Estes ataques não podem ser justificados sob nenhum pretexto", afirma o comunicado.>
Não é a primeira vez que o Irã ataca seus vizinhos árabes do Golfo, seja direta ou indiretamente, mas nunca havia acontecido nesta escala.>
Em 2019, uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã lançou uma chuva de drones contra as instalações petroquímicas da companhia de petróleo Saudi Aramco em Abqaiq e Khurais, na Arábia Saudita, bloqueando temporariamente a metade da sua capacidade diária de exportação.>
Em junho do ano passado, o Irã disparou mísseis balísticos contra a base aérea de al-Udaid, no Catar. Mas este ataque foi interpretado como uma resposta performática ao ataque aéreo americano que ficou conhecido como "Operação Martelo da Meia-Noite".>
O ataque destruiu as instalações nucleares iranianas em Isfahan, Natanz e Fordo.>
O Bahrein tem uma população xiita numerosa e, às vezes inquieta. O país acusa há tempos o Irã de financiar, treinar e armar insurgentes locais.>
Mas tudo isso é muito pequeno em comparação com a situação vivida atualmente pelos países árabes do Golfo.>
Para o presidente americano, Donald Trump, para Israel, para muitos governos do Oriente Médio e, é claro, para muitos iranianos, o melhor resultado, agora, seria um rápido fim do regime da República Islâmica, seguido por uma suave transição para a democracia e um mundo onde o Irã possa desfrutar de relações normais com o resto do planeta.>
Mas não há nenhuma certeza de que isso irá ocorrer.>
Os Estados Unidos e Israel estão correndo para tentar destruir a capacidade iraniana de continuar lançando mísseis e drones antes de poder dispará-los.>
O dilema da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã é decidir se deve intensificar um ataque contra um alvo importante, como um navio de guerra americano, com a esperança de superar suas defesas, ou reter grande parte do seu arsenal oculto, para tentar vencer a paciência do presidente Trump.>
O Irã também sabe que, embora conte com um número finito de mísseis e drones, seus adversários também estão limitados pelo número de defesas aéreas.>
Se elas se esgotarem antes que o Irã fique sem mísseis, drones ou lançadores, a situação das pessoas que moram na região do Golfo pode se tornar ainda mais alarmante.>
O equilíbrio de poder favorece claramente os Estados Unidos e Israel, que contam com dois dos exércitos mais poderosos e tecnologicamente avançados do mundo.>
Existem dois grupos de ataque de porta-aviões americanos na região, com mais de 200 aviões de combate. Já o Irã, submetido a amplas sanções há anos, não possui força aérea.>
Israel e os Estados Unidos contam com absoluta superioridade nos ares. Mas Teerã ainda tem algumas vantagens.>
O regime iraniano pode estar debilitado e ser impopular entre grande parte da sua população, mas ele só precisa sobreviver para se proclamar vencedor deste conflito a longo prazo.>
A República Islâmica, com seu culto ao martírio, pode suportar muito mais sofrimento que os Estados Unidos. E, quanto mais o conflito atual se prolongar, mais ansioso ficará o presidente Trump para encontrar uma saída.>
Os Estados Unidos e o Irã irão retomar as negociações? Bem, se o regime iraniano entrar em colapso, isso não será necessário.>
Mas, se o regime sobreviver (o que pode muito bem acontecer), as três exigências de Washington para Teerã ganharão novo protagonismo: a limitação ao suposto programa nuclear iraniano, incluindo a retomada das inspeções; o fim do programa iraniano de mísseis balísticos; e o fim do apoio iraniano às milícias subsidiárias da região, como Hezbollah, o Hamas e os houthis.>
Sobre a questão nuclear, Omã afirma que já houve avanços reais nas conversas realizadas no mês passado em Genebra, na Suíça.>
Mas o Irã descartou discutir os dois outros temas, o que levou Trump a declarar seu "descontentamento com o desenvolvimento das conversas".>
É possível que os contatos extraoficiais conduzam a um cessar-fogo, seguido pela retomada das negociações. >
Mas, se as posições das duas partes não se alterarem, é provável que as ações militares sejam retomadas.>
Por tudo isso, o presente conflito ainda está longe do final.>
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