Publicado em 23 de março de 2025 às 09:44
Uma das séries mais comentadas dos últimos anos, o impactante drama 'Adolescência', da Netflix, tem sido o centro das discussões nesta semana – desde o Parlamento Britânico até programas de entrevistas nos EUA e os portões da escola do filho do roteirista.>
O debate foi impulsionado pela história fictícia de um menino de 13 anos acusado de esfaquear uma garota e pelos fatores que poderiam tê-lo levado a se tornar um assassino.>
"Recebi mensagens de pessoas com quem não falava há anos, contando sobre conversas que estão tendo agora com seus filhos", diz o roteirista Jack Thorne. "Isso é muito gratificante.">
Thorne conta que até o diretor da escola de seu filho o abordou nos portões para dizer: 'Gostaria de conversar com você sobre isso e pensar no que nossa escola e outras escolas podem fazer'.>
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"As conversas parecem estar surgindo em todos os tipos de lugares", acrescenta.>
Agora, Thorne defende que o governo tome "ações radicais" para enfrentar as questões levantadas pela série.>
Entre os principais temas estão as redes sociais e a influência da cultura incel*(celibatários involuntários), que incentiva homens a culpar as mulheres por sua falta de relacionamentos e oportunidades.>
Mas o drama, criado por Thorne em parceria com o ator Stephen Graham, não está apenas apontando o dedo para a cultura incel, explica o roteirista à BBC.>
"Eu realmente espero que essa seja uma série que mostre que Jamie se tornou assim por uma série de fatores complexos", afirma.>
A trama apresenta a influência dos pais, da escola e dos amigos de Jamie, cada um desempenhando um papel de diferentes formas.>
No entanto, o personagem interpretado por Owen Cooper sofre bullying nas redes sociais, sendo levado a se sentir feio, além de ser exposto a mensagens incel e visões distorcidas sobre violência sexual.>
"Ele é um garoto vulnerável, e então começa a ouvir esse tipo de discurso, que faz sentido para ele – sobre por que está isolado, por que está sozinho, por que não se encaixa. E ele absorve isso. Não tem filtros para entender o que é apropriado", explica Thorne.>
"Nessa idade, sob todas essas pressões e as particularidades da sociedade ao seu redor, ele começa a acreditar que a única maneira de restabelecer esse equilíbrio é através da violência.">
O próprio roteirista mergulhou em espirais semelhantes da internet, explorando sites como 4Chan e Reddit para enxergar o mundo pelos olhos de Jamie.>
Ele percebeu que essas mensagens não vinham apenas dos lugares mais óbvios.>
"Não era só Andrew Tate. Não eram apenas os grandes nomes da 'manosfera'", diz ele.>
"Eram os pequenos blogs, os vlogs, e detalhes sutis – como pessoas falando sobre um videogame e, a partir disso, explicando por que as mulheres te odeiam.>
"Isso foi o que achei mais perturbador.">
Essas questões não são novas, mas a série estreou em um momento em que cresce o debate sobre mensagens perigosas direcionadas a meninos e jovens.>
Na quarta-feira, o ex-técnico da seleção inglesa, Sir Gareth Southgate, fez um discurso alertando contra "influenciadores cruéis, manipuladores e tóxicos".>
"Eles estão o mais distante possível dos modelos que nossos jovens precisam em suas vidas", afirmou.>
Thorne considera que Sir Gareth foi "incrível", mas acredita que a solução vai além de oferecer melhores exemplos.>
"Temos essa conversa desde que eu era criança", diz o roteirista.>
"Já passou da hora de fazermos algo mais radical. Não se trata apenas de modelos a serem seguidos.>
"Obviamente, modelos podem ter um grande impacto. Mas, para falar a verdade, precisamos mudar a cultura que eles estão consumindo e os mecanismos que a tecnologia tem usado para espalhar essa cultura.">
"Foi um discurso muito interessante, mas eu esperava que ele propusesse algo mais ousado.">
Mas, afinal, quais poderiam ser essas soluções mais radicais?>
Nesta semana, o Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer informou ao Parlamento que tem assistido ao "muito bom" drama com seus filhos adolescentes.>
A violência cometida por jovens homens, influenciados pelo que veem online, é "repulsiva e precisamos enfrentá-la", e também é "uma questão de cultura", disse ele na Câmara dos Comuns.>
Thorne espera que o PM entenda a mensagem de que "há uma crise acontecendo em nossas escolas, e precisamos pensar em como evitar que os meninos machuquem as meninas e uns aos outros".>
"Isso vai exigir uma série de medidas nas escolas e em casa, e isso precisa de ajuda do governo", afirma.>
Ele pede a Sir Keir que considere "com urgência" um banimento de smartphones nas escolas e uma "era digital de consentimento", similar à da Austrália, que aprovou uma lei proibindo crianças menores de 16 anos de usar redes sociais.>
O roteirista também sugeriu estender essa proibição para o uso de smartphones e jogos.>
"Acho que devemos fazer o que a Austrália está fazendo e separar nossas crianças dessa doença perniciosa de pensamento que as está contaminando", diz ele.>
Uma proibição seria, no entanto, uma venda difícil para os adolescentes.>
Thorne participou do Newsnight da BBC Two esta semana, ao lado de três homens de 18, 19 e 21 anos.>
Quando perguntados sobre a proibição de redes sociais para menores de 16 anos, as opiniões foram divididas.>
Um disse que era "uma ótima ideia, com moderação", outro considerou que seria "bastante injusto", enquanto o terceiro foi contra, argumentando que "as redes sociais trouxeram muitos benefícios para as gerações mais jovens também".>
Para Thorne, a questão de como regulamentar smartphones e redes sociais está prestes a se aproximar muito de sua realidade.>
Seu filho tem oito anos, e Thorne diz que quer garantir que estabeleça "um método de comunicação com ele" enquanto cresce. Logo, ele vai querer seu próprio celular.>
Enquanto trabalhava na série, Thorne refletiu sobre como lidar com o futuro uso de tecnologia de seu filho. "E ainda estou processando como fazer isso.">
Pesquisando e escrevendo 'Adolescência', ele abriu os olhos para os desafios enfrentados por jovens e pais. Mas como enfrentá-los? Essa é a parte mais difícil.>
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