Publicado em 13 de outubro de 2025 às 06:32
No último dia 28 de agosto, o físico Amir Caldeira se aposentou formalmente da Unicamp, onde dá aulas desde 1980. Sua rotina, entretanto, em nada lembra a de um aposentado, especialmente nos últimos dias.>
Desde que sua pesquisa de doutorado foi citada no último prêmio Nobel de Física, divulgado no dia 7 de outubro, ele não parou de dar entrevistas e de receber convites para eventos.>
"Se pra mim está sendo assim, imagina para os agraciados", ele diz, referindo-se ao britânico John Clarke, ao francês Michel Devoret e ao americano John Martinis.>
O trio recebeu o prêmio pela pesquisa de fenômenos quânticos em escala macroscópica — em linguagem bastante simplificada, eles verificaram que propriedades até então observadas apenas no mundo subatômico, de partículas muito pequenas, também podem ser replicadas em objetos maiores, como circuitos elétricos.>
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Os experimentos, que abriram caminho para a computação quântica, usaram a base teórica desenvolvida por Caldeira junto a seu orientador, o britânico Anthony Leggett (que ganhou o Nobel de Física em 2003), na Universidade de Sussex, no Reino Unido, no fim dos anos 1970.>
Curiosamente, a dissipação quântica (entenda melhor abaixo), tema do doutorado de Caldeira, que acabou transformando o físico brasileiro em referência internacional na área, não era o que ele tinha em mente quando saiu do Rio de Janeiro para a Inglaterra para fazer o PhD naquela época. Ele achava o tema "meio chato". >
"Não era o que eu queria pesquisar", diz, dando risada e emendando que o acaso acabou colocando o tema no centro da sua vida acadêmica mais de uma vez.>
Caldeira, Leggett e o trio do Nobel se dedicam ao estudo da mecânica quântica, teoria que completa seu centenário em 2025 e busca descrever o comportamento de objetos muito pequenos, menores que o átomo.>
Isso porque as leis da física clássica não conseguem explicar o mundo subatômico, que está recheado de fenômenos "estranhos", "bizarros" e "chocantes", adjetivos usados com frequência por Caldeira e por seus colegas.>
Por exemplo: é impossível saber ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula subatômica, como um fóton ou um elétron.>
Quanto mais preciso é o conhecimento da posição de uma partícula, mais imprecisa é a medição de sua massa e de sua velocidade, e vice-versa.>
É o "princípio da incerteza", formulado pelo físico alemão Werner Heisenberg, fundador da teoria da mecânica quântica.>
Outra propriedade estranha é a da "superposição quântica", que torna possível que um objeto subatômico esteja em dois estados ao mesmo tempo, manifestando-se tanto como partícula quanto como onda — mas apenas quando ela não é observada. A partir do momento em que é vista por um observador, ela assume um dos dois estados.>
Essa ideia incomodou profundamente o físico austríaco Erwin Schrödinger, que em 1935 tentou refutá-la propondo um paradoxo, um experimento mental em que um gato era fechado em um caixa por uma hora junto de um objeto que poderia ou não matá-lo.>
Passada uma hora, o que se encontraria seria uma situação absurda, com o gato em estado de superposição, ao mesmo tempo vivo e morto, já que para o observador do experimento não seria possível ter certeza sobre a situação do animal até que alguém de fato abrisse a caixa.>
Depois de quase um século de experimentos, a mecânica quântica mostrou que a ideia do "gato de Schrödinger", como o experimento ficou conhecido, é absurda para o mundo macro (ou clássico), mas que se aplica aos objetos menores que o átomo.>
O trabalho que ganhou o Nobel neste ano tem relação com outra propriedade bizarra dessa área da física, o tunelamento quântico, no qual uma partícula é capaz de atravessar uma barreira aparentemente intransponível.>
No mundo macro, seria o equivalente a jogar uma bola contra a parede e, em vez de ela bater e voltar, atravessar para o outro lado.>
Em 1985, Clarke, Devoret e Martinis descobriram que seria possível reproduzir essa propriedade em objetos maiores do que partículas subatômicas — não tão grandes como uma bolinha, mas grandes o suficiente para, em teoria, não estarem sujeitos às leis esquisitas da física quântica.>
A descoberta só foi possível graças ao trabalho de doutorado de Caldeira, publicado cinco anos antes. O físico brasileiro estudou a dissipação quântica, que é a perda de propriedades quânticas em sistemas maiores à medida em que eles estão conectados ao ambiente — a resistores, por exemplo, no caso de circuitos elétricos.>
Quanto maior a dissipação, menor a taxa de tunelamento, que pode chegar a ser inteiramente suprimida.>
A partir do modelo Caldeira-Leggett, como ficou conhecida a teoria, Clarke, Devoret e Martinis entenderam o que poderia gerar a dissipação, conseguiram controlá-la e, a partir daí, reproduzir as propriedades quânticas em circuitos elétricos.>
"O trabalho de Caldeira e Leggett foi crucial porque circuitos reais, como as junções Josephson [dispositivo estudado pelo brasileiro e usado pelos físicos que ganharam o Nobel], nunca estão completamente isolados — sempre existe algum grau de acoplamento ao ambiente, o que leva à dissipação", explica o físico Roberto Venegeroles, professor da Universidade Federal do ABC.>
A descoberta abriu caminho para uma série de inovações.>
O exemplo mais conhecido é a computação quântica, onde partículas quânticas supercondutoras derivadas de junções Josephson utilizam o tunelamento macroscópico para armazenar e manipular informação quântica.>
Isso permite que os computadores processem um volume muito maior de informações e resolvam problemas complexos.>
Outra aplicação é nos sensores quânticos, dispositivos que podem ser usados em áreas que vão da medicina (com a técnica da magnetoencefalografia, que mede de forma não invasiva a atividade neural e é usada para diagnóstico de diversas doenças) à geofísica e à exploração espacial.>
Essas possibilidades, contudo, não passavam pela cabeça de Caldeira quando ele começou a estudar dissipação quântica nos anos 1970.>
Naquela época, as aplicações práticas derivadas desse ramo da física não eram tão óbvias — como, aliás, costuma ser a regra quando se fala de ciência, ressalta o professor.>
"A universidade deveria focar mais em ensinar a história da ciência, mostrar como ela não se desenvolve de forma linear… Não é assim: 'Vamos juntar esses caras e queremos o produto na prateleira em dois anos'. Não é assim que funciona", ele comenta.>
Seu primeiro contato com a dissipação quântica foi no mestrado, por sugestão de seu orientador, Nicim Zagury, que estudava o assunto.>
"Eu até torci o nariz quando ele me propôs isso na época. Eu falava assim: 'Isso é meio chato'... Porque eu estava interessado em transições de fase, que era teoria da moda daquele momento", diz Caldeira à BBC News Brasil.>
O caminho foi parecido no doutorado. O tema não era o candidato inicial para a tese, mas uma sequência de acasos, que começou com um outro professor de Sussex que na época trabalhava com as junções de Josephson e procurou seu orientador com uma lista de perguntas intrigantes sobre o tema, acabaram levando o físico de volta ao assunto.>
Depois de publicados os primeiros artigos com base no trabalho, ele se surpreendeu com a repercussão.>
"Você teve uma avalanche de pessoas começando a trabalhar nessa área e começando a citar muito o trabalho. O número de citações dispara. Falei: 'Nossa! Eu sabia que tinha resolvido um problema, mas não sabia que tinha tanto interesse nesse negócio'", relembra.>
Caldeira é um apaixonado por física teórica — "Gosto de entender como a coisa está funcionando" — e brinca que é um péssimo físico experimental: "Eu entro num laboratório, eu taco foco naquilo".>
Fala sobre mecânica quântica com a mesma empolgação tanto para iniciados quanto para o público leigo. Uma palestra de duas horas que ele deu em 2016 no campus da Universidade de São Paulo em São Carlos com o tema "A mecânica quântica através de exemplos simples" é o segundo vídeo mais visto do YouTube da USP, com 1,2 milhão de visualizações.>
Na longa carreira como professor, formou dezenas de pesquisadores, alguns que estão hoje chefiando laboratórios em diferentes partes do mundo. Orientou 17 dissertações de mestrado e 13 teses de doutorado.>
Uma delas foi a do atual chefe do departamento de Física da Matéria Condensada da Unicamp, Ricardo Luís Doretto: "Quando eu saí do Brasil e dizia que tinha feito doutorado com ele, as pessoas diziam: 'Nossa, você fez doutorado com o Caldeira", ele conta.>
"Isso era uma coisa muito bacana, você ver que era um cara brasileiro muito conhecido.">
Doretto é um dos organizadores do evento de três dias em homenagem a Caldeira que começa nesta segunda-feira (13/10) na Unicamp com a presença de pesquisadores de diversos países, muitos ex-alunos do professor.>
Ele conta que na Física é comum que orientandos organizem eventos comemorativos dos 70 anos de seus orientadores. Amir fez 70 anos em 2020, mas a pandemia atrapalhou os planos da celebração, que tiveram de ser postergados.>
Resolveram deixar para os 75 anos do professor, recém-completados agora em outubro.>
Às vésperas do início da conferência (batizada de Frontiers in Quantum Mechanics and the 45 years of the Caldeira-Leggett Model; "Fronteiras na Mecânica Quântica e os 45 anos do Modelo Caldeira-Leggett" em português) veio a surpresa da menção no Nobel.>
O evento é também uma oportunidade de celebrar a ciência brasileira, da qual Caldeira é ferrenho defensor. >
Para ele, caso o Brasil tivesse escolhido investir nas pessoas e nos projetos certos, teria tido plena capacidade de criar o computador quântico, hoje desenvolvido especialmente pelas big techs nos Estados Unidos.>
"Quando a gente fala de high tech, tem gente que diz: 'Nem pensa que a gente não consegue fazer'. Mas, quando o país fez a coisa certa, funcionou. Um exemplo é a Embraer, ou o nosso vizinho aqui, o Cnpem [Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais], que começou com o síncrotron e agora é o Sirius", diz ele, referindo-se ao acelerador de partículas brasileiro em Campinas.>
"Ele é exemplo para o mundo. Trago qualquer estrangeiro aqui e as pessoas olham e falam: 'Nossa, o Brasil conseguiu fazer isso'.">
Caldeira se aposentou, mas continua vinculado à universidade como professor sênior. O que significa que ele não precisa mais cumprir obrigações administrativas e está livre para ensinar o pesquisar o que quiser.>
"Eu me aposentei dos ossos do ofício, de toda e qualquer chatice. Agora posso curtir", diz ele, animado para estudar assuntos aos quais não teve oportunidade de se dedicar durante a carreira.>
"Tem certas coisas sobre as quais eu tenho a maior curiosidade… Por exemplo, quantização da gravidade. Por que não, entende? Sei lá, vou ler, vou tentar entender essa brincadeira.">
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