Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 06:09
O dia 2 de dezembro de 2025 tinha tudo para ser uma terça-feira de rotina para um grupo de agentes da Polícia Federal e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em Boa Vista.>
De carro, eles se deslocaram para a Fazenda Timbó, uma pista de pouso para pequenas aeronaves nos arredores da capital de Roraima, para esperar pela chegada de um avião sob monitoramento.>
Mas o clima de aparente normalidade mudou rapidamente quando, em vez de seguir o plano de voo original e pousar na fazenda, o avião alterou a rota e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista.>
O movimento chamou atenção dos agentes, e uma equipe foi enviada rapidamente ao aeroporto. >
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Ao abordarem a aeronave, a PF e a Anac encontraram o que talvez possa ajudar a esclarecer a mudança repentina de rota: 51 kg de barras de ouro transportados sem notas fiscais ou outros documentos sobre sua procedência. >
Segundo a PF, a carga foi avaliada naquele momento em R$ 36 milhões — e que, agora, pode ser ainda maior com a disparada no mercado internacional do preço do ouro, que vem batendo recorde atrás de recorde, o que torna o comércio ilegal ainda mais lucrativo e atraente e que pode levar a um aumento desse tipo de atividade criminosa, segundo especialistas.>
No depoimento às autoridades, os ocupantes do avião afirmaram à polícia que o ouro havia sido embarcado em Itaituba, no Pará, cidade conhecida como um dos principais entrepostos desse metal precioso extraído de terras indígenas da região.>
Eles também afirmaram que já haviam feito outros voos semelhantes transportando ouro do Pará para Roraima, mas não apontaram quem seriam os donos da carga milionária.>
A apreensão chamou ainda mais atenção das autoridades, porque reforçou a percepção de investigadores e especialistas ouvidos pela BBC News Brasil de que se consolidou uma nova rota para escoar ouro clandestino do Brasil rumo ao exterior.>
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Durante décadas, toneladas de ouro foram extraídas ilegalmente da Terra Indígena Yanomami e enviadas a diversos Estados do Brasil antes de serem exportadas com base em documentos falsos. Agora, o fluxo parece ter se invertido.>
"Identificamos uma mudança na rota do ouro. Agora, o ouro extraído em outras áreas do país está sendo enviado para Roraima, e o Estado está funcionando como um ponto de passagem para outros países", disse à BBC News Brasil o delegado da PF Caio Luchini, que atua no combate a crimes ambientais em Roraima.>
Dados sobre apreensões de ouro realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pela BBC News Brasil são mais um indício deste novo fluxo.>
Entre 2024 e 2025, houve um aumento de 368% no volume de ouro apreendido pela PRF nas estradas de Roraima.>
Em 2024, foram 22,3 kg. Em 2025, foram 104,5 kg — mas esse valor é provavelmente bem maior, porque não contabiliza as apreensões feitas pela PF em dezembro, como os 51 kg achados no avião em Boa Vista.>
A hipótese investigada por autoridades é de que um aumento de ações contra o comércio ilegal de ouro esteja levando organizações criminosas a tentarem contrabandear o metal pela Venezuela e pela Guiana, passando pela fronteira em Roraima.>
Segundo especialistas, os países foram escolhidos pela proximidade, pela fiscalização local menos rigorosa e por Roraima já contar com uma estrutura logística voltada para o transporte clandestino de ouro montada durante a época em que o garimpo na Terra Yanomami funcionava a pleno vapor.>
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Localizado no extremo-norte do Brasil, o Estado de Roraima ficou conhecido nacional e internacionalmente por atrair garimpeiros de todo o país para atuar, principalmente, na Terra Yanomami, que abriga uma população de aproximadamente 33 mil indígenas.>
Essa atividade é tão forte que um dos principais pontos turísticos da capital Boa Vista é o Monumento do Garimpeiro, uma estátua de concreto com mais de 7 metros de altura e 15 de comprimento erguida na década de 1960 que mostra um homem com uma bateia para homenagear as milhares de pessoas de todo o país que migraram para a região em busca de ouro.>
Investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF) apontaram, ao longo dos últimos anos, que parte expressiva do ouro extraído da Terra Yanomami alimentava não só o mercado nacional, mas também o internacional, exportada para países da Europa e da Ásia e para os EUA.>
Para entrar no mercado de forma legal, esse ouro era "esquentado" com emissão de notas fiscais fraudulentas que vinculavam o ouro da terra indígena a permissões de lavra garimpeira emitidas em outros locais. O ouro era então comercializado no Brasil ou enviado para o exterior.>
Nesse processo para "legalizar" o ouro clandestino, segundo a PF e a PRF, o material extraído em Roraima era encaminhado para outros Estados, onde funcionava a estrutura burocrática e logística de organizações criminosas especializadas nisso.>
"Há alguns anos, fizemos diversas operações que identificaram o envio do ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, onde era feito o esquentamento por meio da confecção de documentações fraudulentas, deixando o ouro livre para ser comercializado", diz Luchini.>
A mudança na rota do ouro clandestino do Brasil e o novo papel que Roraima passou a desempenhar como porta de saída do país começaram a ser notados por investigadores e por especialistas nos últimos dois anos.>
"Fizemos diversas apreensões de ouro que vinham do Amazonas e de Rondônia, Estados onde existe uma forte presença de garimpos ilegais, além do Pará", diz à BBC News Brasil o diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida.>
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Em agosto de 2025, por exemplo, a PRF realizou a maior apreensão de ouro de sua história ao abordar em Roraima uma caminhonete que trafegava pela rodovia BR-401, que liga Boa Vista às cidades de Normandia e Bonfim, ambas na fronteira com a Guiana.>
Segundo dados do processo ao qual a BBC News Brasil teve acesso, o motorista do veículo, Bruno Mendes de Jesus, estava acompanhado da mulher e do filho de 9 meses de idade. Ao ser questionado sobre o motivo da viagem, ele teria dito que estava indo de Manaus para Boa Vista para vistoriar uma obra, mas não soube indicar qual seria.>
Desconfiados, os agentes da PRF vasculharam o veículo e encontraram 205 barras de ouro que totalizavam 103 kg, uma carga avaliada então em R$ 61 milhões.>
Os autos do processo apontam que o motorista não revelou a origem e nem o destino da carga. Em dezembro de 2025, ele foi condenado a oito anos de prisão por transporte ilegal de matéria-prima da União. Procurada pela BBC News Brasil, sua defesa não respondeu às questões enviadas.>
Mas o que está por trás da mudança no fluxo do ouro clandestino no Brasil?>
Apesar de relatos e estudos recentes apontarem que facções criminosas com atuação nacional estariam atuando em garimpos de ouro, os delegados Caio Luchini e Milena Coutinho afirmam que ainda não há indícios concretos de que a nova rota do ouro clandestino esteja sendo explorada por grupos como o Comando Vermelho ou o Primeiro Comando da Capital (PCC).>
"É preciso aprofundar as investigações que temos em curso, mas, neste momento, seria prematuro afirmar isso", diz Coutinho.>
Segundo Coutinho, chefe do setor de repressão aos crimes contra os recursos minerais e de poluição da PF, há três motivos principais para a mudança do fluxo do ouro clandestino.>
"Houve uma intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, e isso diminui a extração ilegal nessa região", diz a delegada.>
"Além disso, houve duas medidas que dificultaram o esquentamento do ouro. A obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica para a compra de ouro de garimpo e o fim da presunção de boa-fé nesse comércio.">
O aumento da fiscalização mencionado pela delegada aconteceu a partir de 2023, após a deflagração de uma crise humanitária na Terra Indígena Yanomami.>
Na época, vieram à tona imagens de crianças, mulheres e idosos yanomamis aparentando subnutrição. Lideranças indígenas e agentes do governo afirmavam que o quadro era resultado do avanço do garimpo na região nos anos anteriores.>
Segundo eles, os garimpeiros estariam aumentando as áreas desmatadas, afastando a caça, poluindo os rios com mercúrio e ameaçando indígenas que se opunham à extração de ouro.>
No início de 2023, o governo federal montou uma estrutura chamada Casa de Governo, em Boa Vista, que reúne diversos órgãos públicos e agências para combater o garimpo ilegal e melhorar a assistência humanitária ao povo Yanomami.>
Desde então, agentes da PF, da Força Nacional e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) passaram a intensificar as operações na terra indígena.>
Segundo o governo federal, isso levou a uma redução no número de alertas de desmatamento por garimpo na Terra Yanomami. Em janeiro de 2024, por exemplo, o governo divulgou que os alertas chegaram a zero pela primeira vez em quase 20 anos de monitoramento.>
Os dois outros fatores apontados pela delegada atacaram a engrenagem burocrática responsável por "esquentar" o ouro ilegal para ser vendido nacional ou internacionalmente.>
O primeiro foi a obrigatoriedade do uso de notas fiscais eletrônicas em transações envolvendo o ouro de garimpo, determinada pela Receita Federal em 2023.>
"Antes, os compradores de ouro de garimpo podiam usar notas fiscais de papel, o que dificultava muito a fiscalização", diz à BBC News Brasil a diretora de pesquisas do Instituto Escolhas, Larissa Rodrigues, especialista no mercado de ouro brasileiro.>
"As empresas compradoras mantinham caixas e mais caixas de notas em papel. Quando vinha a fiscalização, era muito difícil separar o joio do trigo. A exigência de nota fiscal eletrônica facilitou a fiscalização pela Receita Federal.">
A segunda mudança foi o fim da chamada "presunção de boa-fé" nas transações envolvendo o ouro de garimpo. >
A lei brasileira determina que apenas distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) podem comprar ouro de garimpo. >
Mas, até 2023, prevalecia o princípio de que bastava o garimpeiro informar uma lavra autorizada como origem do ouro para que a transação fosse considerada regular. Desta forma, as DTVMs não poderiam ser responsabilizadas caso o ouro fosse de garimpo.>
Em 2023, o STF considerou esse princípio inconstitucional, impondo mais restrições às distribuidoras.>
"Com essas duas medidas, ficou muito mais difícil lavar ouro no Brasil", diz Rodrigues.>
Outro dado que aponta nesta direção foi a queda no volume de ouro exportado pelo Brasil nos últimos anos. >
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2022, antes do cerco à estrutura de lavagem de ouro ilegal, o Brasil exportou 96 toneladas. Em 2025, foram 66 toneladas, uma queda de 31%. >
Com a estrutura de "lavagem" do ouro ilegal afetada, as organizações criminosas buscaram novas formas de escoar o produto.>
Para Coutinho, o contrabando em direção à Venezuela e à Guiana reflete essa adaptação dos grupos criminosos. Ela aponta as razões para a escolha da nova rota.>
"Já existe uma estrutura logística bem montada em Roraima que atendia o comércio do ouro. Isso facilita o escoamento através das fronteiras", diz a delegada.>
Essa estrutura, detalha Coutinho, é composta por pistas de pouso clandestinas, polos de abastecimento de combustível e pilotos que atuam em garimpos e conhecem bem a região tanto do lado brasileiro quanto do outro lado da fronteira.>
Outro motivo é como a Venezuela e a Guiana lidam com o comércio do ouro. "Há uma fiscalização mais branda nesses dois países", afirma a delegada.>
Na Guiana, o garimpo de ouro é legalizado, e a extração do metal é uma das principais fontes de renda do país. Isso dificulta a identificação pelas autoridades do que é ouro produzido no país e o que foi contrabandeado do Brasil.>
Na Venezuela, por outro lado, o problema seria a extensão da ilegalidade em torno da cadeia do ouro.>
Um relatório divulgado em 2025 pela coalizão Fact, instituto de pesquisa focado em transparência corporativa e financeira, apontou que até 91% do ouro produzido na Venezuela é extraído e comercializado de forma ilegal e que a cadeia do produto seria controlada por militares ligados ao governo, grupos guerrilheiros e gangues transnacionais.>
Ainda segundo o relatório, parte do ouro extraído na Venezuela vai parar no mercado americano por meio de contrabando e transações financeiras clandestinas.>
Em meio ao que parece ser a "reorganização" do crime organizado diante do cerco ao garimpo ilegal, o diretor da PRF Marcus Vinícius Silva de Almeida afirma que a corporação tenta se antecipar aos criminosos, apesar do efetivo considerado insuficiente para fiscalizar a região.>
"O território é muito grande, e a quantidade de policiais que temos hoje não supre as necessidades para o tamanho da região", diz Almeida.>
"Mas temos feito um trabalho de análise de risco de novas rotas com o uso de dados e de inteligência e, por isso, temos feito essas apreensões", diz.>
Para o delegado Caio Luchini, as apreensões recentes de ouro em Roraima são um alerta sobre a capacidade de adaptação das organizações criminosas.>
"A prática do crime sempre vai existir e isso é fato. O que as autoridades têm feito é intensificar as ações de fiscalização. Tanto é assim que resultaram nessas apreensões", diz Luchini. >
"Então, ainda que as organizações criminosas tentem usar Roraima como rota do contrabando do ouro, a polícia está se adequando. O crime vai sempre tentar se moldar e burlar a fiscalização.">
Outro ponto de atenção, segundo Larissa Rodrigues, é a valorização do ouro no mercado internacional, que superou pela primeira vez na história a cotação de US$ 5 mil (R$ 26 mil) por onça. >
A especialista diz que a disparada no preço sempre acontece em momentos de incerteza na economia mundial, como o que se atravessa agora por conta de guerras como as entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Hamas e pela instabilidade global criada por ações do governo de Donald Trump nos Estados Unidos. >
Como o ouro é considerado um ativo financeiro seguro, a demanda por ele cresce em situações assim, como ocorreu no passado após a crise financeira mundial de 2008 e a pandemia de covid-19, a partir de 2020.>
"Sempre que há um aumento no preço do ouro, há também na mesma proporção um estímulo à extração do metal — seja em áreas legalizadas ou de forma ilegal.>
O preço mais alto no mercado internacional acaba fazendo com que o cálculo entre os riscos do crime e os ganhos com isso se torne mais atraente. >
"Por isso, com o ouro a um preço tão alto, é esperado que vejamos um aumento na extração ilegal e uma maior movimentação e comércio de ouro ilícito principalmente nas regiões de fronteira do Brasil.">
Gráficos por Caroline Souza e Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil>
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