Publicado em 6 de novembro de 2025 às 10:27
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta terça-feira (4/11), pela primeira vez, a lista de sobrenomes mais populares no Brasil. >
Dos cerca de 200 mil sobrenomes divulgados, Silva lidera os registros, com cerca de 34 milhões de brasileiros, o que representa 16,76% da população. >
Em seguida vem Santos, com 21,4 milhões de registros, correspondendo a 10,4%. Veja o ranking com os 20 sobrenomes mais comuns abaixo (e confira aqui o seu, se não é nenhum desses). >
Os Silvas se concentram pricipalmente nos Estados de Alagoas e Pernambuco. Segundo dados do IBGE, 35,75% da população de Alagoas têm esse sobrenome. Já em Pernambuco, são 34,23%.>
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O município brasileiro com maior número de Silva é Belém de Maria, em Pernambuco. Lá, o sobrenome é usado por 63,90% das pessoas.>
O sobrenome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o mais popular do Brasil, mas tem uma origem controversa. É o que diz o "Dicionário das Famílias Brasileiras", de Carlos Eduardo Barata e Antonio Henrique da Cunha Bueno. >
Segundo a publicação, a origem de Silva viria dos tempos romanos, usada para designar as pessoas que vinham de regiões de florestas. Derivado do latim, Silva significa "selva" ou "floresta". >
De acordo com o IBGE, o sobrenome desapareceu com a queda do Império Romano e ressurgiu por volta do século XI, na Península Ibérica. >
Silva explodiu em popularidade no Brasil colônia com os portugueses que vinham para o país e, em busca de anonimato, adotavam o sobrenome.>
Além disso, muitos escravizados recebiam esse sobrenome de seus proprietários, geralmente com a preposição "da", como indicativo de posse.>
Silva é bastante comum nos países lusófonos. Além disso, também é encontrado na Espanha e na Itália, embora em menor escala.>
Os sobrenomes surgiram, basicamente, da necessidade de diferenciar as pessoas.>
Há inúmeras tradições que orientam a escolha e reprodução de sobrenomes ao longo da história e ao redor do mundo, mas vamos focar aqui mais na Europa e Américas a partir da Idade Média — embora, mesmo nesse universo, haja exceções. >
Há indígenas, como o povo bororo, em que a denominação genealógica ocorre apenas pela parte materna, diferente da predominância da linhagem paterna que vingou nesses dois continentes. >
No início da Idade Média, na Europa, as pessoas tinham apenas o nome próprio, muitas vezes seguido de um qualificativo associado a uma característica física ou ocupação, explica Rosana Coelho de Alvarenga e Melo.>
É parecido com a forma como muitos candidatos preferem se apresentar aos eleitores no Brasil. Não usam o sobrenome para se promover, mas sim aspectos pelos quais são conhecidos socialmente. >
Por isso, vemos candidatos com nomes do tipo Nete do Hortifrúti, Paulinho Chevette, Nogueira do Sacolé ou Dudu Ruivinho. >
Foi só entre os séculos 11 e 13 que os sobrenomes começaram a se firmar. >
Locais de origem e patronímico (derivado do nome do pai) também serviam como base.>
Assim, surgiram sobrenomes, em diversos idiomas, como Smith ou Schmidt (ferreiro), Taylor (alfaiate), Baker (padeiro), Müller (moleiro), Blanco (branco), Long (alto) ou Roux (ruivo). >
Nos patronímicos em português, "es" indica descendência, como em Gonçalves ("filho de Gonçalo"). Em espanhol, é o mesmo: Martínez é "filho de Martín".>
Em inglês, Johnson é "filho de John". Em russo, Ivanov é "filho de Ivan". Os prefixos "ibn" e "ben", do árabe, e "Mac" ou "Mc", do gaélico escocês e do irlandês, têm a mesma função.>
"O patronímico era uma maneira de identificar parentesco em sociedades em que as famílias eram organizadas em clãs ou linhagens", explica Alvarenga e Melo. >
"Com o tempo, muitos desses nomes se fixaram como sobrenomes permanentes, mesmo quando o significado original deixou de ser levado em conta.">
Alan Borges, vice-presidente da Associação de Registradores de Pessoas Naturais do Rio de Janeiro (Arpen-RJ), destaca que o costume "impera" na atribuição de nomes. >
"Cada país tem sua tradição, e elas não têm muita lógica", diz Borges.>
Essas são apenas algumas das mais antigas maneiras de sobrenomeação. >
O genealogista Gilberto de Abreu Sodré Carvalho, em um artigo publicado na Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (Asbrap), listou 60 tipos na tradição luso-brasileira.>
Entre eles, estão evidência geográfica (Ribeiro, Costa, Lago), designação de árvores (Carvalho, Oliveira, Pinheiro) e de animais (Leitão, Lobo, Carneiro) e a "invenção pura e simples". >
É o que acontece, por exemplo, quando um pai resolve encaixar um "Kennedy" ao registrar um filho, mesmo que ele ou a mãe do bebê não tenham esse sobrenome.>
Entre os nobres, os sobrenomes muitas vezes indicavam títulos e posses de terras. Essa relação com os territórios ficava explícita com as preposições "de", "da" e afins (ou "von" e "van" nas línguas germânicas).>
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Alvarenga e Melo lembra que até mesmo a hereditariedade, algo central na definição de sobrenomes hoje, não era uma regra. >
"Um homem chamado João Ferreira podia ter um filho Pedro da Silva, por exemplo. As mulheres, muitas vezes, recebiam sobrenomes de devoção, como 'De Jesus' ou 'Da Anunciação'", diz.>
No século 17 em Portugal, irmãos com sobrenomes diferentes eram quase a regra. Entretanto, o filho herdeiro, em geral o primogênito, recebia o sobrenome do pai.>
Segundo um artigo de Nuno Gonçalo Monteiro, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em 83% dos casamentos com dois ou mais filhos, os pais escolhiam sobrenomes diferentes para cada um.>
"Pelo menos as filhas usavam apelidos diferentes dos filhos, quase invariavelmente. Iam buscá-los à mãe, a uma avó… não havia regra fixa", escreveu o pesquisador.>
Em paralelo a esse desprendimento da hereditariedade, porém, começou a surgir na elite a transmissão dos nomes do pai e da mãe aos filhos. >
Famílias aristocráticas, burguesas e proprietárias tinham mais interesse em preservar direitos de propriedade e identidade familiar. >
No auge da Inquisição, nos séculos 16 e 17, o surgimento dos sobrenomes duplos facilitava a investigação dos antepassados de alguém suspeito de ser "impuro" na perspectiva católica — ou seja, que tivesse judeus ou muçulmanos na família. >
Também a partir do batismo e do registro de fiéis, a Igreja Católica teve papel importante na padronização e disseminação de sobrenomes.>
Passar adiante dois nomes, em vez de só um, era uma maneira de reforçar o controle da Igreja sobre as pessoas, explicou o genealogista espanhol Antonio Alfaro de Prato à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC. >
Ou seja, a junção de sobrenomes de pai e mãe não tinha nada a ver com a busca por uma sociedade com mais igualdade de gênero.>
Além disso, carregar o sobrenome da mãe facilitava a identificação de alguém no dia a dia, devido à relativa baixa variedade de nomes no idioma espanhol.>
"Então, o filho de Juan de Cadaval com Maria de Gusman se chamaria José de Cadaval y Gusman", diz Cerqueira. >
Assim mesmo, com o sobrenome do pai antes do da mãe.>
Como Portugal e Espanha formaram um só reino por 60 anos (1580-1640), a União Ibérica, muitos desses costumes se espalharam por toda a península e se consolidaram até o século 19, quando a situação mudou por completo.>
A partir do século 18, firmou-se na sociedade mais ampla o uso de sobrenomes hereditários em todos os filhos. >
"Os primeiros sobrenomes que se usavam eram os da casa, em princípio os do pai, e só depois se acrescentavam, eventualmente, os da mãe", diz o artigo de Nuno Gonçalo Monteiro.>
Segundo um artigo da historiadora da Universidade de Cambridge Amy Erickson, especializada em economia de gênero e pesquisadora das antigas estruturas sociais da Inglaterra, foi lá que surgiu o hábito da mulher adotar o nome do marido. Era tudo questão de posse.>
No século 14, advogados ingleses criaram uma regra dizendo que, quando uma mulher se casava, salvo algumas exceções, todos os seus bens passariam a ser do marido. Para simbolizar o acordo, ela adotava o sobrenome dele.>
"Por 500 anos, a Inglaterra foi o único país europeu em que os maridos ganhavam controle quase total sobre os bens das esposas e onde as mulheres trocavam seu sobrenome de batismo pelo do marido ao se casarem", explica Erickson.>
O hábito inglês se espalhou, com o tempo, por outras sociedades patriarcais da Europa e, de lá, para as colônias. >
No Brasil, o costume de adotar o sobrenome do marido acabou virando lei com o Código Civil de 1916. Por mais de 60 anos, o que antes era uma tradição importada se tornou mandatório.>
Em 1977, com a Lei do Divórcio, as regras mudaram. Mulheres só adotariam o sobrenome do marido se quisessem.>
A grande transformação seguinte veio em 2002, com o novo Código Civil. Desde então, maridos podem adotar o nome das esposas. Na prática, porém, isso não pegou.>
De acordo com números divulgados pela Arpen, em apenas 0,7% dos casamentos realizados em 2022 o marido adotou o nome da esposa. O ano em que ocorreu maior adesão foi 2005, com 2%.>
Já a mudança de sobrenome de ambos os cônjuges ocorreu em 7,3% dos casamentos. O pico foi em 2014, quando 13,8% dos matrimônios tiveram dupla mudança de nome.>
A maior novidade nos últimos tempos é, de fato, a queda da adoção do nome do marido pela esposa. O número de casamentos em que a mulher mudou de sobrenome caiu 30% entre 2002 e 2022.>
Já a não mudança, ou seja, ambas as partes mantendo seus nomes, teve aumento ainda maior, de 41,5%, segundo a Arpen. Para a associação, isso é um símbolo de uma sociedade mais igualitária e moderna.>
É uma luta que não é nova. Ela data desde praticamente a disseminação do hábito de a mulher adotar o sobrenome do marido ao casar, no século 19.>
Mulheres que seguiam o sansimonismo, doutrina socialista utópica em voga na época, recusavam-se a usar publicamente os sobrenomes dos seus maridos. >
A ideia é que isso diminuiria o poder masculino na sociedade e as tornaria mais responsáveis por suas próprias ideias e ações.>
Segundo um artigo da historiadora francesa Florence Rochefort, a proposta nunca vingou de forma predominante. O patriarcalismo nos sobrenomes franceses foi soberano até o século 21.>
Um exemplo é a família de Jacques Audiard, o principal concorrente de Walter Salles na briga pelo Oscar. Do seu casamento com a roteirista Marion Vernoux, um dos três filhos seguiu carreira no cinema.>
A atriz Jeanne Audiard não tem o sobrenome da mãe. Somente em 2005 a lei francesa encerrou a transmissão compulsória do sobrenome do pai aos filhos. Hoje, eles podem ter do pai, da mãe ou de ambos, em qualquer ordem.>
É a realidade do Brasil desde 1973. A Lei de Registros Públicos diz que filhos podem ter um ou todos os sobrenomes do pai ou da mãe, na ordem que eles quiserem.>
Mas antes, por volta do século 19, o costume inglês da mulher mudar de nome ao se casar assentou-se em Portugal e, consequentemente, no Brasil. >
Para os filhos, o formato mais difundido colocava primeiro o sobrenome da mãe, depois o do pai — o inverso do que se consolidou na Espanha e em suas ex-colônias.>
Foi também no século 19 que a Igreja deixou de ser a responsável pelos registros civis, que passaram a ser um assunto do governo. >
Surgiram, então, algumas das principais regras, usadas até hoje.>
"O registro civil, em 1888, e a separação entre Igreja e Estado, em 1889, obrigou os cartórios a darem os nomes de família às meninas", explica Cerqueira. >
Ele conta que, em sua própria árvore genealógica, há exemplos de mulheres que não herdaram o nome do pai, pois seguiam uma antiga tradição em que meninas ganhavam o nome completo de uma antepassada.>
"Minha avó paterna se chamava Maria Amelia da Conceição, porque a mãe dela era Maria Amelia da Conceição e a mãe da mãe, Amelia Maria da Conceição.">
No Brasil, pessoas escravizadas não tinham sobrenome. Se recebiam algum, era atribuído pelos seus senhores, explica Alvarenga e Melo. >
"Após a abolição, em 1888, muitos adotaram sobrenomes religiosos ou de ex-donos.">
Costumes como esses formavam uma realidade que complica, e muito, o trabalho de genealogistas. >
Outra característica que atrapalha é que, até o início do século 20, especialmente entre as classes populares, não era comum no país registrar o sobrenome de uma criança ao nascer.>
Alvarenga e Melo cita como exemplo a avó, nascida em 1903. Ao registrá-la, seus pais não lhe deram um nome completo. A certidão de nascimento dizia apenas "Adelaide - primeira do nome".>
Isso só mudou em 1940, quando uma lei impôs que bebês devem receber um sobrenome na certidão. >
Até então, as pessoas podiam definir seu próprio nome completo ao chegar à idade adulta.>
Sobrenomes nascem, morrem e se transformam com o tempo. Isso depende, e muito, da vida das pessoas que carregam esses nomes.>
O grande jurista, político e diplomata baiano Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1923), por exemplo, foi um personagem tão grande da história brasileira que "Ruy Barbosa" acabou virando um novo sobrenome, usado por seus descendentes. >
A atriz Marina Souza Ruy Barbosa é tetraneta da Águia de Haia, como ele era chamado.>
"Os pais sempre querem garantir abertura de portas para os filhos. Um sobrenome importante identifica e qualifica o sucessor", resume Borges, da Arpen-RJ.>
É o caso dos Moreira Salles. Walter, o cineasta multipremiado, não ganhou o Moreira da mãe e o Salles do pai, como poderia acontecer em muitas outras famílias. >
Ambos vieram de seu pai: Walther Moreira Salles, o homem que fez do Unibanco uma das maiores instituições financeiras do Brasil do século 20.>
Na biografia dele, Walther Moreira Salles:O banqueiro-embaixador e a construção do Brasil, o jornalista Luís Nassif conta a origem do sobrenome. >
O pai do Walther banqueiro foi João Moreira Salles, grande produtor de café e fundador do banco Moreira Salles, antecessor do Unibanco (hoje Itaú Unibanco).>
A mãe de João, por sua vez, era Ana Moreira, que se casou com José Amâncio de Salles e virou Ana Moreira Salles. Ou seja, foi João (pai do Walther banqueiro e avô do Walter cineasta) que criou a dinastia Moreira Salles.>
Isso porque, quando nasceu, em Cambuí (MG), em 1888, João não era um herdeiro de banco importante, mas um filho de pequenos agricultores. >
Como tantos brasileiros antes e depois dele, herdou o sobrenome da mãe (Moreira) e o do pai (Salles). >
Sua trajetória de sucesso uniu ambos e criou um novo nome, composto — que, agora, chega novamente ao tapete vermelho do Oscar com Ainda Estou Aqui, após indicações por Central do Brasil.>
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