Publicado em 27 de janeiro de 2025 às 14:45
O dia 27 de janeiro foi declarado Dia da Memória do Holocausto por uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas de 2005. >
Mas a forma como nos lembramos do Holocausto evoluiu ao longo das décadas e, mesmo agora — 80 anos depois — a história da lembrança ainda está inacabada.>
"Querido garoto", começa a curta nota manuscrita de 1942, "Fiquei encantado com sua mensagem de maio. Estou saudável. Espero poder ficar aqui e vê-lo novamente. Continuo esperançoso. Por favor, escreva. Saudações, seu pai.">
A nota é um dos milhares de documentos mantidos pela Biblioteca do Holocausto de Wiener em Londres, um dos maiores arquivos do Holocausto do mundo.>
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O judeu que a escreveu se chamava Alfred Josephs e a estava enviando para seu filho adolescente Wolfgang, que havia escapado com sua mãe para a Inglaterra. Alfred havia sido preso e estava detido no campo de detenção de Westerbork, na Holanda.>
Ele ainda conseguia, na época, passar mensagens curtas através da Cruz Vermelha.>
O que Alfred não sabia era que Westerbork era um campo cujos internos seriam transportados para Auschwitz. Wolfgang nunca mais ouviria de seu pai.>
A princípio, Auschwitz foi usado pelos alemães para abrigar prisioneiros de guerra poloneses. >
Depois que a Alemanha nazista atacou a União Soviética, tornou-se um campo de trabalho, onde muitos internos trabalhavam até morrer. >
Os nazistas chamavam isso de "aniquilação pelo trabalho".>
Mas em 1942 Auschwitz se tornou aquilo que ficou em nossa memória coletiva para sempre: um campo de extermínio, cujo principal propósito era o assassinato em massa.>
Uma reportagem filmada pelos aliados após a libertação da Europa mostra civis alemães sendo forçados a visitar os campos pelas tropas.>
"Era apenas uma curta caminhada de qualquer cidade alemã até o campo de concentração mais próximo", diz a voz americana.>
O filme mostra alemães relaxados e elegantemente vestidos rindo e conversando enquanto caminham.>
Eles passam por cadáveres, pilhas de homens e mulheres — que podem até ter sido seus vizinhos, colegas, amigos no passado. A câmera que havia capturado seus sorrisos relaxados antes de entrarem nos campos agora registra seu horror.>
O choque está estampado em seus rostos. Alguns choram. Outros balançam a cabeça, cobrem o rosto com lenços e desviam o olhar.>
A Europa do pós-guerra olhou para esse horror e reconheceu a profundidade do sofrimento. Mas como a Europa do pós-guerra tratou os perpetradores?>
Quando falamos de matança industrializada, não queremos dizer apenas a escala dela, por mais vasta que fosse.>
Também queremos dizer a sofisticação de sua organização: a divisão do trabalho, a alocação de tarefas especializadas, a eficiente mobilização de recursos, o planejamento meticuloso que era necessário para manter as rodas da máquina de matar girando.>
Essas mesmas reportagens mostram guardas nazistas bem alimentados — homens e mulheres agora sob custódia dos aliados.>
Qual foi a natureza do colapso moral que transformou esse horror em uma normalidade para os nazistas que comandavam esses campos — uma normalidade na qual o assassinato em massa se tornou, para eles, apenas um dia de trabalho?>
Por anos após a guerra, a atenção pública evitou essa pergunta. Embora alguns criminosos de guerra nazistas tenham sido processados, a nova prioridade, em uma Europa dividida pela Guerra Fria, era transformar a Alemanha Ocidental em uma aliada democrática.>
O Holocausto quase desapareceu da memória popular, em grande parte do mundo ocidental. O público do pós-guerra queria virar a página da guerra. >
Na cultura popular, no Reino Unido, por exemplo, o apetite era por histórias que pudessem ser celebradas e aplaudidas.>
"A cultura da memória da Segunda Guerra Mundial ainda enfatizava o heroísmo", diz Toby Simpson, diretor da Biblioteca do Holocausto de Wiener.>
"Houve uma ênfase nos desembarques na Normandia, por exemplo. E nas histórias que os sobreviventes queriam contar, havia muito pouco heroísmo. Era uma história em que eles foram despojados de sua humanidade, agência, sua escolha. Eles foram transformados em não-pessoas.">
O sobrevivente italiano, Primo Levi, escreveu É isto um homem?, suas memórias de Auschwitz imediatamente após a guerra. Ele era um dos poucos milhares que ainda estavam em Auschwitz quando as tropas soviéticas chegaram em 27 de janeiro de 1945.>
A maioria dos prisioneiros foi forçada a marchar para o oeste, em direção à Alemanha, no inverno congelante. >
Já enfraquecidos pelas condições do campo de concentração, muitos morreram no caminho no que veio a ser conhecido como Marchas da Morte. >
Levi estava muito doente e as tropas soviéticas o encontraram perto da morte na enfermaria do campo.>
Hoje, É isto um homem? é considerado uma obra-prima de testemunho de sobreviventes e uma das memórias mais importantes de toda a era. Mas em 1947, Primo Levi teve dificuldade em encontrar uma editora, mesmo em sua Itália natal.>
Finalmente, uma pequena editora independente em Turim publicou a obra com uma tiragem de 2,5 mil. Foram vendidas 1,5 mil cópias e depois a obra desapareceu. >
Para as editoras e para o público, ainda era muito cedo. Poucos, ao que parecia, queriam olhar para o Holocausto.>
"Primo Levi não vendeu porque não era o momento certo e porque ele era um escritor muito bom para dar uma resposta heroica. Sua resposta é maior que o heroísmo", diz Jay Winter, professor emérito de história na Universidade Yale. Muitos da família da mãe de Winter foram mortos no Holocausto.>
Ele acrescenta: "Muitas pessoas transformaram Primo Levi em um santo, mas tudo o que você precisa fazer é ler o poema no começo de É isto um homem? para ver que ele não está perdoando ninguém — ele não está perdoando e não está esquecendo.">
"Houve um esforço de memorialização do Holocausto na década de 1950", diz o professor David Feldman da Birkbeck University em Londres, "mas isso foi algo feito pelos próprios judeus, em pequenos grupos fragmentados.">
"Essas foram ocasiões de luto mais do que memorialização. A ideia que temos agora, de memorialização, de que de alguma forma há lições a serem tiradas do Holocausto, não era comum naquela época".>
De acordo com Winter, "os países que estavam se reconstruindo... precisavam de um mito de resistência, de conflito armado heróico contra os nazistas ou fascistas italianos".>
Esse mito de resistência "não tinha lugar para presos de campos de concentração".>
Somente na década de 1960 o interesse popular sobre o assunto voltou. Quando agentes israelenses capturaram Adolf Eichmann, uma figura-chave na campanha de extermínio, eles o levaram a julgamento em Jerusalém e televisionaram os procedimentos. A memorialização do Holocausto começou a atingir o público em geral.>
Por meio do julgamento de Eichmann, a televisão, que era um meio de comunicação de massa novo, levou o testemunho dos sobreviventes para as salas de estar do mundo ocidental.>
Coincidiu também com uma mudança cultural nas atitudes públicas em relação à guerra. Uma geração nascida após a Segunda Guerra Mundial estava chegando à maioridade na década de 1960.>
O War Requiem, composição do músico britânico Benjamin Britten, apresentou as palavras do poeta da Primeira Guerra Mundial Wilfred Owen — cuja poesia também havia desaparecido da consciência popular — para uma nova geração. O sentimento antiguerra foi alimentado ainda mais pelo envolvimento dos EUA no Vietnã.>
"Eu diria que o julgamento de Eichmann também levou os perpetradores para as salas de estar das pessoas", diz Feldman. "O testemunho dos sobreviventes e a ênfase nos sobreviventes como centrais para a memorialização do Holocausto vieram depois. Isso se desenvolveu lentamente na década de 1960. Na década de 1990, já estava bem estabelecido.">
A história do Holocausto finalmente tomou seu lugar em nossa consciência coletiva.>
A partir da década de 1960, as memórias de Levi encontraram um público global. O pai de Anne Frank, Otto, também teve dificuldades, no início do período pós-guerra, para encontrar uma editora para o diário de sua filha. Até o momento, ele vendeu cerca de 30 milhões de cópias.>
Quanto a Wolfgang Josephs, em agosto de 1946, ele ainda tinha esperanças de encontrar seu pai vivo. Ele recebeu uma nota datilografada da Cruz Vermelha Britânica. >
A nota informava, com pesar, que os funcionários da Cruz Vermelha na Europa haviam pesquisado as listas de sobreviventes, e o nome de seu pai não estava entre elas.>
Wolfgang anglicizou seu nome para Peter Johnson e se estabeleceu no Reino Unido, numa época em que poucos no mundo ocidental queriam ouvir as histórias daqueles que testemunharam ou sobreviveram ao Holocausto.>
Ele doou seus papéis de família para a Biblioteca do Holocausto de Wiener, que continua sendo um vasto repositório de evidências do período mais sombrio da história da Europa.>
Agora, 80 anos depois, restam pouquíssimos sobreviventes. Em breve o dever de lembrar passará para a posteridade.>
"Acho que lembrar do Holocausto é ainda mais importante agora", diz Simpson, "porque aconteceu em tal escala, e com tal intensidade de ódio, que a necessidade de entender, de explicar esse evento continental em que seis milhões de judeus foram assassinados, onde tantas pessoas tentaram, e ainda tentam, negar que isso aconteceu, em um mundo onde a desinformação está em todo lugar, há uma necessidade cada vez maior de lembrarmos do Holocausto: que isso aconteceu. E a evidência está aqui.">
Como Primo Levi escreveu: "A ferida não pode ser curada. Ela se estende ao longo do tempo.">
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