Publicado em 24 de março de 2026 às 11:34
Vivemos na era da gratuidade. Redes sociais grátis, correio eletrônico grátis, buscadores grátis, mapas grátis, notícias grátis, inteligência artificial grátis.>
Parece que o capitalismo, esse sistema que acusamos de cobiça com tanta frequência, passou a ser mais generoso.>
Mas há um pequeno detalhe incômodo: nada neste mundo se produz por si próprio. Como recordava Karl Marx (1818-1883), todo valor requer investimento social de trabalho, energia e tempo.>
Nenhum servidor funciona por altruísmo. Nenhum algoritmo trabalha por vocação social. Nenhum pacote é transportado por inspiração poética.>
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Se não pagamos por algo com dinheiro, estamos pagando de outra forma. A pergunta não é se pagamos, mas com o quê.>
Aqui estão oito coisas que acreditamos serem gratuitas, mas que, na realidade, não são.>
Publicar fotos, comentar, compartilhar memes, acompanhar debates políticos. Tudo parece gratuito.>
Mas plataformas como a Meta Platforms não vivem do entusiasmo juvenil, mas sim da publicidade segmentada.>
A socióloga Shoshana Zuboff explicou como o capitalismo de vigilância transforma nossos comportamentos em matéria-prima econômica. Nós não pagamos com cartão. Pagamos com tempo, dados, comportamento e padrões emocionais.>
Cada "curtida" é uma informação. Cada pausa em frente a um vídeo é um sinal comercial. Nosso divertimento é um recurso, que pode ser explorado.>
O mais interessante é que não sentimos que estamos pagando. Sentimos que as redes sociais nos entretêm, que nos dão um "prazer" gratuito.>
Qualquer semelhança com o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1894-1963), é mera coincidência.>
A empresa Alphabet Inc., dona do Google, não nos cobra por fazer buscas na internet.>
Pelo contrário, ela facilita a nossa vida, encontrando restaurantes, médicos, voos e respostas a questões existenciais.>
Mas cada busca revela uma intenção. E a intenção é ouro.>
O sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) nos ensinou que até as nossas eleições aparentemente livres são estruturadas por campos e capitais. E, aqui, as nossas buscas alimentam um campo econômico no qual a informação sobre desejos e necessidades tem valor monetário.>
Nós não pagamos pela resposta, mas pagamos ao formular a pergunta.>
O comércio eletrônico aperfeiçoou a arte do "frete grátis". Mas o transporte envolve combustível, salários, infraestrutura e logística.>
Como destacou o acadêmico David Harvey, o capitalismo reorganiza constantemente os custos para manter o acúmulo.>
O custo não desaparece. Ele é integrado ao preço, compensado com volume ou se mantém sob condições trabalhistas milimetricamente ajustadas.>
A gratuidade é uma redistribuição estratégica do custo, não a sua evaporação.>
Séries ilimitadas, vídeos infinitos, música a todo instante.>
Às vezes, pagamos uma assinatura; em outras, nem isso. O modelo freemium ("free premium", ou premium de graça) nos oferece um ingresso sem barreiras.>
O filósofo Byung-Chul Han descreveu como a sociedade contemporânea transforma a sedução em forma de controle.>
Quanto mais tempo passamos nesses aplicativos, mais dados geramos, mais afinado se torna o nosso perfil e mais rentável é a nossa presença. Nós nos integramos pela comodidade.>
Muitos meios de comunicação oferecem acesso gratuito aos seus conteúdos. Seria uma forma de filantropia informativa? Não exatamente.>
O financiamento provém da publicidade, dos cliques e do tráfego.>
O sociólogo Jürgen Habermas (1929-2026) alertou que a esfera pública depende das condições materiais de comunicação. Quando a atenção se transforma em moeda, a informação também entra na lógica de mercado.>
O leitor não paga com dinheiro, paga com atenção. E a atenção é monetizável.>
Aeroportos, cafeterias e hotéis oferecem conexão gratuita. Basta aceitar certas condições que raramente lemos.>
O filósofo Michel Foucault (1926-1984) demonstrou como o poder moderno opera por meio de dispositivos aparentemente neutros que organizam os comportamentos.>
O acesso "grátis" também é um dispositivo. Em troca, fornecemos dados de navegação, localização e comportamento. O pagamento é a cessão silenciosa.>
As plataformas de inteligência artificial (IA) permitem consultas de todo tipo.>
Resolver dúvidas, redigir textos, gerar ideias. O usuário sente que tem acesso a uma ferramenta avançada sem pagar por ela.>
O sociólogo Antonio Gramsci (1898-1937) falou da hegemonia como forma de direção cultural que passa a ser normalizada.>
A IA gratuita pode ser entendida desta forma. Ela parece um serviço, mas cada interação fortalece infraestruturas corporativas, modelos de negócios e acúmulo de capital cognitivo.>
Aqui, a gratuidade corresponde a um investimento de longo prazo.>
Talvez o ponto mais interessante seja que a gratuidade não redistribui apenas os custos. Ela transforma a experiência do intercâmbio.>
O filósofo Louis Althusser (1918-1990) explicou que a ideologia não funciona apenas por discurso, mas por práticas cotidianas, que estruturam nossa percepção.>
Quando não desembolsamos dinheiro, não sentimos perda. Quando não sentimos perda, não percebemos conflito. E, quando não percebemos conflito, o sistema parece neutro.>
A gratuidade não elimina o intercâmbio, que continua acontecendo sem a nossa consciência. E isso traz consequências sociais profundas.>
O capitalismo digital não funciona ocultando informações de forma grosseira, mas reformulando a percepção.>
Se não observarmos o custo, parece que ele não existe. Se não o experimentarmos como sacrifício, parece que a relação não é desigual.>
Nada disso implica uma conspiração, mas sim um modelo de negócio. O sistema não precisa que acreditemos na sua bondade, basta nos sentirmos cômodos.>
Mas precisamos ter em mente que, na economia, não existem milagres. Quando algo parece grátis é porque o pagamento, simplesmente, mudou de lugar.>
O mais interessante não é pagarmos com dados, tempo ou atenção. Mas sim que, como não pagamos com dinheiro, deixamos de sentir que estamos pagando.>
Aqui reside o presente mais perfeito de todos: a ilusão, cuidadosamente projetada, de que alguém nos está dando algo, sem pedir nada em troca.>
* Victor Hugo Pérez Gallo é professor assistente da Universidade de Zaragoza, na Espanha.>
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em espanhol.>
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