Publicado em 9 de janeiro de 2024 às 17:53
O ano de 2023 foi confirmado como o mais quente já registado, impulsionado pelas mudanças climáticas causadas pelo homem e pelo fenômeno natural El Niño.>
O ano passado foi cerca de 1,48ºC mais quente do que a média de longo prazo — antes de os seres humanos começarem a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis, afirma o serviço de clima da União Europeia.>
Desde julho, quase todos os dias registraram um novo aumento na temperatura global do ar para esta época do ano, segundo análise da BBC.>
As temperaturas da superfície do mar também superaram as máximas anteriores.>
>
O Met Office, serviço climático do Reino Unido, informou na semana passada que o país teve em 2023 seu segundo ano mais quente já registrado na história.>
Estes registros globais mostram que o mundo está perto de descumprir os principais objetivos climáticos internacionais.>
"O que me impressionou não foi apenas o fato de [2023] ter sido de recordes quebrados, mas sim a grande margem para quebra-los", observa Andrew Dessler, professor de Ciências Atmosféricas na Texas A&M University.>
A margem de alguns desses registros – que se pode verificar no gráfico abaixo – é "realmente surpreendente", diz o professor Dessler, considerando que são médias de todo o mundo.>
Já se sabe que o mundo está muito mais quente agora do que há 100 anos, à medida que os humanos continuam a emitir quantidades recordes de gases com efeito de estufa, como o dióxido de carbono, na atmosfera.>
Mas há 12 meses, nenhum grande órgão científico previu que 2023 seria o ano mais quente já registrado, devido à forma complicada como o clima da Terra se comporta.>
Durante os primeiros meses do ano, apenas um pequeno número de dias quebrou recordes de temperatura do ar.>
Mas o mundo registrou então uma sequência notável e quase ininterrupta de recordes diários no segundo semestre de 2023.>
Veja o gráfico do calendário abaixo, onde cada quadrado representa um dia de 2023. Os recordes foram quebrados nos dias coloridos no tom mais escuro de vermelho. A partir de junho, houve um novo recorde na maioria dos dias.>
Mais de 200 dias tiveram um novo recorde diário de temperatura global para esta época do ano, de acordo com a análise da BBC dos dados do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus.>
Este recente aumento da temperatura está principalmente ligado à rápida mudança para as condições do El Niño, que ocorreu em conjunto com o aquecimento a longo prazo causado pelo homem.>
O El Niño é um fenômeno natural em que as águas superficiais mais quentes do Oceano Pacífico Oriental liberam calor adicional na atmosfera.>
Mas as temperaturas do ar aumentaram mais do que o normal no início desta fase do El Niño. Os efeitos totais devem ser sentidos apenas no início de 2024, depois de o El Niño ter atingido a força máxima.>
Isto deixou muitos cientistas inseguros sobre o que exatamente está acontecendo com o clima.>
"Isso levanta uma série de questões realmente interessantes sobre por que [2023 foi] tão quente", observa Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth, uma organização científica nos EUA.>
Outra característica notável do calor de 2023 é que ele foi sentido em todo o mundo.>
Como mostra o mapa abaixo, quase todo o planeta estava mais quente do que os níveis recentes de 1991-2020 – um período que foi quase 0,9°C mais quente do que antes de os humanos começarem a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis no final do século 19.>
Este calor global recorde ajudou a agravar muitos fenômenos meteorológicos extremos em grandes partes do mundo em 2023 – desde ondas de calor intensas e incêndios florestais no Canadá e nos EUA, até secas prolongadas e inundações em partes da África Oriental.>
Muitos eventos ocorreram em escalas muito além daquelas observadas em tempos recentes, ou em épocas incomuns do ano.>
"São mais do que apenas estatísticas", afirma Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial entre 2016 e 2023.>
"As condições climáticas extremas estão destruindo vidas e meios de subsistência diariamente.">
A temperatura do ar é apenas uma medida das rápidas mudanças climáticas da Terra. Também em 2023:>
A superfície oceânica do mundo tem estado numa série ininterrupta de dias recordes desde 4 de maio, como mostra a análise da BBC sobre os dados do Copernicus. Como ilustra o gráfico abaixo, muitos dias registraram recordes quebrados por uma margem enorme.>
O ano de 2024 poderá ser mais quente do que 2023 – já que parte do calor recorde da superfície do oceano escapa para a atmosfera – embora o comportamento imprevisível do atual El Niño signifique que é difícil saber ao certo, diz Hausfather.>
Isto levanta a possibilidade de que 2024 possa até registrar pela primeira vez uma temperatura acima do aquecimento de 1,5ºC, de acordo com o Met Office.>
Quase 200 países concordaram em Paris em 2015 em tentar limitar o aquecimento a este nível, para evitar os piores efeitos do aquecimento global.>
Esse número se refere a médias de longo prazo ao longo de 20 ou 30 anos. Ou seja, se o mundo ultrapassar esse limite em apenas um ano — 2024 — isso ainda não significaria que o acordo de Paris estaria sido desrespeitado.>
Mas o fato realça a tendência preocupante, com cada ano quente aproximando o mundo de ultrapassar os 1,5ºC da média de longo prazo.>
As atividades humanas estão por trás desta tendência de aquecimento global a longo prazo, embora fatores naturais como o El Niño possam aumentar ou reduzir as temperaturas durante anos individuais. As temperaturas registadas em 2023 vão muito além de causas simplesmente naturais.>
Considere, por exemplo, o gráfico abaixo. Em 1998 e 2016 houve recordes impulsionados pelo forte aquecimento do El Niño. Mas estes anos não chegam nem perto dos novos recordes de 2023, marcados nos tons mais escuros de vermelho.>
"2023 foi um ano excepcional, com os recordes climáticos caindo como dominós", conclui Samantha Burgess, diretora adjunta do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus.>
Este último aviso surge pouco depois da cúpula climática COP28, onde os países concordaram pela primeira vez sobre a necessidade de combater a principal causa do aumento das temperaturas – os combustíveis fósseis.>
Embora a linguagem do acordo tenha sido mais fraca do que muitos desejavam — sem qualquer obrigação para os países cumprirem as metas — espera-se que ele ajude a aproveitar alguns recentes progressos encorajadores em áreas como as energias renováveis e veículos elétricos.>
Isto ainda pode fazer uma diferença crucial para limitar as consequências das alterações climáticas, dizem os cientistas, embora pareça provável que a meta de manter o aquecimento abaixo de 1,5ºC não será alcançada.>
"Mesmo que acabemos em 1,6°C, será muito melhor do que desistir e terminar perto de 3°C, que é onde as políticas atuais nos levariam", diz Friederike Otto, professor de Ciências Climáticas na Imperial College London.>
"Cada décimo de grau é importante.">
Colaborou Becky Dale>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta