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"Mitar" a qualquer custo virou estratégia para certos políticos

O cinismo com que essas pessoas lidam com questões tão caras à vida é tamanho. Mas, felizmente, ainda nos indignamos

Publicado em 30 de Outubro de 2019 às 05:00

Públicado em 

30 out 2019 às 05:00
Renata Bravo

Colunista

Renata Bravo Renata Bravo
Crianças têm sido vítimas recorrentes da violência produzida com arma de fogo Crédito: Divulgação

Dia desses fomos surpreendidos com mais notícia chocante: o deputado estadual Capitão Assumção (PSL/ES) publicou uma foto de sua filha, criança, empunhando uma arma de fogo com a legenda “Ensinando às nossas filhas o verdadeiro empoderamento! Nunca será feminazi!”. Após denúncias, a postagem foi removida, mas o deputado fez outra publicação em tom mais odioso, com dizeres em caixa alta (como se estivesse gritando): “Neste Brasil, vai ter criança posando com arma na mão. E vai ter menos crimes contra as mulheres”.

A princípio, atitudes como essa não deveriam mais causar espanto, vez que o deputado e políticos do mesmo partido parecem seguir os passos do presidente Bolsonaro e seus aviltamentos cotidianos. Mas, felizmente, ainda nos indignamos.

O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê como crime a entrega de arma à criança ou adolescente. Além disso, dados mostram que, a cada três dias, uma criança é atendida em hospitais brasileiros vítima de acidente doméstico com arma de fogo. Já o Atlas da Violência 2019 aponta que, nos últimos 10 anos, houve aumento de 29,8% no número de homicídios ocorridos dentro das residências com uso da arma de fogo.

Essa é uma preocupação frente à política de flexibilização de posse e porte de arma de fogo no Brasil, vez que as mulheres estarão cada vez mais suscetíveis a serem assassinadas em seus lares, com menor chance de resistência e sobrevivência nos casos de violência doméstica e familiar.

Ignorar a ciência e os dados oficiais que rechaçam aquilo que defendem (mesmo que sem plausibilidade legal ou moral) parece ser uma prática cada vez mais aparente desse tipo de político. Querem é “mitar”, reforçando o discurso do embate e da barbárie. Isso não se limita, infelizmente, aos correligionários do PSL. O senador capixaba Marcos do Val, em junho, postou uma foto de uma mulher empunhando uma arma de fogo, na cama, com os seguintes dizeres: “uma arma na mão vale mais que toda a força policial no telefone”, como forma de defender a flexibilização no acesso às armas de fogo, ignorando a realidade do Espírito Santo, que continua figurando entre os Estados mais violentos contra as mulheres.

A postagem de Assumção foge do aceitável na polarização que se instalou no Brasil. Relacionar o uso de arma de fogo por crianças e adolescentes com o empoderamento feminino é um crime, no verbete popular. O cinismo com que essas pessoas lidam com questões tão caras à vida é tamanho. Violam direitos até de crianças indefesas com o intuito somente de atacar aqueles que foram alçados à condição de inimigos – e aqui as feministas ocupam um lugar grande.

Renata Bravo

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