Onze anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ainda identifica alterações no ecossistema aquático ao longo da bacia do Rio Doce. Entre os resultados do monitoramento estão deformidades em peixes e larvas, ovos inviáveis e concentrações de metais acima dos limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em algumas amostras.
Os estudos mostram uma redução gradual dos índices de contaminação na água, nos sedimentos e nos organismos aquáticos. A melhora, porém, não significa que o ambiente esteja livre dos impactos do desastre, que completa 11 anos nesta quinta-feira, 5 de novembro.
Uma das questões que continuam despertando preocupação é a segurança do pescado destinado ao consumo humano. O próprio Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), coordenado pela Ufes, esclarece que a pesquisa não tem como objetivo avaliar os riscos à saúde de quem consome peixes da região.
O PMBA tem como objetivo avaliar a qualidade ambiental e as condições da biodiversidade aquática, não contemplando, em seu escopo, a avaliação de riscos à saúde humana decorrentes do consumo de pescado
PMBA, Ufes
Na semana anterior ao aniversário do desastre, uma portaria conjunta dos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente estabeleceu regras para a retomada da pesca profissional em um trecho marítimo próximo à foz do Rio Doce, onde a atividade estava proibida havia mais de 10 anos.
A medida foi fundamentada em dados de monitoramento ambiental e pesqueiro, além de avaliações sanitárias realizadas pela Anvisa. A retomada da pesca será acompanhada por órgãos federais e poderá passar por novas restrições, conforme os resultados do monitoramento.
Para entender as condições ambientais da região 11 anos após o desastre, a reportagem encaminhou uma série de questionamentos à Ufes sobre os resultados mais recentes das pesquisas, a presença de contaminantes e as alterações identificadas nos peixes.
Confira abaixo os dados da pesquisa explicados:
Entre os resultados apresentados pela universidade estão análises de três peixes marinhos com deformidades externas, duas corvinas e um linguado. Os animais foram capturados por pescadores e encaminhados congelados para avaliação, a pedido do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Os exames, realizados pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), identificaram concentração de chumbo acima do limite máximo tolerado pela Anvisa no linguado. O resultado foi de 0,726 miligrama por quilo (mg/kg), enquanto o limite estabelecido é de 0,30 mg/kg.
As duas corvinas apresentaram concentrações dentro dos limites regulamentados para arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo. Apesar disso, foram identificadas alterações externas nos animais.
Nos animais também foram observadas alterações externas, como lesões na pele e uma massa nodular que se estendia da região da mandíbula até a cavidade oral de uma das corvinas
Ufes
A Ufes ressaltou que não foram realizadas investigações para determinar as causas das mortes dos animais. Também destacou que os resultados se referem apenas aos três exemplares analisados e não permitem estabelecer as condições gerais do pescado da região.
Apesar disso, pescadores que atuam em rios e no mar do Espírito Santo relataram que estão encontrando animais doentes e deformados, com a aparência diferente do que era visto antes do rompimento da barragem de Fundão.
Entre os registros apresentados pelos trabalhadores estão tartarugas com úlceras na cabeça e nas nadadeiras, peixes com lesões aparentes e ostras cobertas de lama.
Segundo os trabalhadores que atuam em áreas afetadas pelo desastre, há relatos de animais vivos e com mau-cheiro. O material que aparece nesses locais não se assemelha com o encontrado no mangue no período pré-desastre, eles dizem.
Um pescador mostra um peixe linguado encontrado em Aracruz, no Norte do Espírito Santo, e aponta a existência de tumores. Ele questiona: "Como é que o pescador vai comer um peixe desse?".
Os relatos e as imagens registram a preocupação dos trabalhadores, mas não permitem, isoladamente, determinar as causas das alterações observadas nos animais.
Segundo a Ufes, os resultados do monitoramento mostram uma redução gradual dos índices de contaminação na água, nos sedimentos e nos peixes. Mas isso não significa também que o ambiente não esteja contaminado ou ainda sofrendo com as consequências do desastre.
A universidade explicou que essa melhora também aparece nos indicadores utilizados para avaliar a qualidade da água, dos sedimentos e nas concentrações de metais encontradas nos tecidos dos peixes.
Apesar disso, as condições ambientais ainda apresentam oscilações, principalmente durante períodos de chuvas intensas e aumento da vazão do Rio Doce.
A passagem de frentes frias e outras condições oceanográficas também pode provocar a ressuspensão de sedimentos, favorecendo a disponibilização de contaminantes na água
Nos últimos dois anos, as amostras de peixes marinhos, camarões de água doce e salgada e caranguejos analisadas pelo programa apresentaram resultados dentro dos limites da Anvisa para arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo.
A exceção ocorreu entre os peixes de água doce. Nesse grupo, foram encontradas amostras com chumbo acima do limite apenas em janeiro de 2025.
O monitoramento também identificou alterações no desenvolvimento inicial dos peixes, incluindo deformidades em larvas, principalmente no trato digestório e na cabeça, além de uma proporção elevada de ovos inviáveis, especialmente no ambiente marinho.
te no ambiente marinho.
Segundo a Ufes, também foram observadas mudanças nos hábitos alimentares e na condição corporal de algumas espécies.
Nos ambientes de água doce, os pesquisadores identificaram alterações na composição das comunidades de peixes, com redução de espécies nativas e aumento da presença de espécies introduzidas, principalmente na calha do Rio Doce e nos reservatórios
A universidade destacou que, apesar da melhora dos indicadores ambientais, os resultados ainda demonstram a necessidade de continuidade do monitoramento para avaliar a recuperação dos ecossistemas e a persistência de alterações.
Além de não avaliar diretamente os riscos à saúde humana, o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática também tem uma limitação na seleção dos peixes analisados.
Segundo a Ufes, a metodologia utilizada não é direcionada especificamente à captura de exemplares de tamanho comercial ou destinados ao consumo humano.
Embora o Programa realize análises de metais em organismos aquáticos, sua metodologia de amostragem de peixes não é direcionada especificamente à captura de exemplares de tamanho comercial ou destinados ao consumo humano
Para ampliar as informações disponíveis, está prevista a inclusão de peixes de interesse comercial e em tamanho comercial no próximo ciclo de monitoramento.
A Ufes explicou ainda que os resultados são disponibilizados a órgãos como os ministérios do Meio Ambiente e da Pesca, o Ministério da Agricultura, a Anvisa e a Casa Civil, para subsidiar decisões relacionadas à atividade pesqueira.
A avaliação dos riscos sanitários e a definição de orientações sobre o consumo de pescado, entretanto, cabem às autoridades competentes.
Em uma avaliação própria, registrada na Nota Técnica nº 48/2026, que liberou a pesca no trecho, a Anvisa analisou resultados de monitoramento de pescado da região.
Os dados apontaram que as amostras de pescado marinho e de caranguejos de mangue estavam dentro dos limites estabelecidos para os contaminantes avaliados.
Entre os peixes de água doce, quatro amostras de acará e pacu apresentaram concentração de cádmio acima do limite máximo tolerado, de 0,05 mg/kg. Todas eram provenientes do ponto de monitoramento RDO10. A maior concentração registrada foi de 0,063 mg/kg.
Essas quatro amostras correspondem a 1,2% do conjunto de peixes de água doce analisados e a aproximadamente 16% das 24 amostras coletadas naquele ponto.
Segundo a avaliação da agência, as amostras que ultrapassaram o limite máximo tolerado "não devem ser destinadas ao consumo humano".
Na campanha analisada, não foram identificados excessos de chumbo ou mercúrio total. A avaliação também considerou a exposição a outros elementos, como cobre, alumínio, cromo, ferro, níquel, manganês e zinco.
Nesse caso, foi utilizado um cenário conservador de consumo de 100 gramas de pescado por dia, e as estimativas ficaram abaixo dos valores de referência considerados para esses elementos. A agência ressaltou que esse cenário não representa, entretanto, uma recomendação de consumo nem substitui os limites legais aplicáveis.
A Anvisa analisou dados recentes do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) para avaliar a presença de elementos químicos em pescados e suas implicações para a saúde da população.
Foram avaliados 11 elementos: arsênio, cádmio, chumbo, mercúrio, cobre, alumínio, cromo, ferro, níquel, manganês e zinco. Destacam-se os quatro primeiros elementos, em razão de sua relevância toxicológica.
Para esta avaliação, a agência utilizou dados laboratoriais e os limites definidos em normas nacionais e internacionais. Essa análise teve o propósito de avaliar os níveis de elementos químicos e contraposição aos níveis seguros para saúde humano, considerando o perfil de consumo.
Os níveis encontrados dos elementos monitorados nos pescados da região não indicaram, neste momento, preocupação à saúde relacionada ao consumo dos pescados. Em relação ao monitoramento epidemiológico da população afetada, este é um tema das secretarias de saúde e do Ministério da Saúde.
O Ministério da Saúde e o Ministério do Meio Ambiente foram procurados para esclarecer quais estudos avaliaram os possíveis riscos à saúde humana associados ao consumo de pescado da região, se existe acompanhamento da saúde de pescadores e moradores das comunidades atingidas e quais critérios foram considerados para a retomada da pesca.
Até a publicação desta reportagem, os órgãos não haviam respondido aos questionamentos.
A Vale e a BHP Billiton também foram procuradas. A Vale, como acionista da Samarco, reafirmou seu compromisso com a reparação integral dos danos decorrentes do rompimento da barragem de Fundão e com o cumprimento do Acordo Definitivo de Reparação, homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2024. A BHP não se manifestou.
Já a Samarco informou que o Novo Acordo do Rio Doce inclui ações de monitoramento contínuo da qualidade da água, sedimentos e fauna aquática. Também são realizados estudos para avaliar a dinâmica natural de recomposição do ecossistema costeiro.
A empresa disse ainda que, "por meio do Programa de Monitoramento Quali-Quantitativo Sistemático, monitora de forma sistemática água e sedimentos da Bacia do Rio Doce e zonas costeiras e estuarinas, como parte das ações de reparação previstas no Acordo". Reiterou que os dados do monitoramento hídrico da bacia do Rio Doce são públicos e podem ser acessados no Portal Monitoramento Rio Doce.
Ainda segundo a companhia, desde 2016, "já foram alcançados 96% da meta de cercamento das áreas de reflorestamento compensatório e 94% da meta de proteção de nascentes, o que representa mais de 47,9 mil hectares protegidos para restauração ambiental e 4,6 mil nascentes sob ações de proteção ativa".
Ainda no âmbito do Novo Acordo do Rio Doce, a Samarco já realizou repasses de mais de R$ 278 milhões a instituições de pesquisa de Minas Gerais e do Espírito Santo responsáveis pelo monitoramento da biodiversidade aquática na Bacia do Rio Doce e nos ambientes costeiros e marinhos. Além disso, desde 2018, os investimentos nessa iniciativa somam cerca de R$ 800 milhões. No Espírito Santo, o trabalho é gerenciado pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST) e executado de forma independente pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e outras 34 instituições parceiras.
(Com informações de Juirana Nobres, g1 ES)