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Discurso de ódio

Medo, xenofobia e estigma envolvendo a epidemia de coronavírus

O desespero de um crise de espectro planetário, como a que se evidencia com a epidemia de coronavírus, leva o ser humano a buscar um inimigo, o causador da crise, o culpado pela restrição à sua liberdade de ir e vir no dia a dia

Publicado em 19 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

19 fev 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

União, sem xenofobia Crédito: Divulgação
Os jornais "New York Times" e "The Guardian", o primeiro norte-americano, o segundo inglês, vêm noticiando desde a semana passada uma onda de ataques preconceituosos contra pessoas de origem asiática, relatando a ocorrência de crimes de ódio (de acordo com o direito norte-americano) em diversos estados dos EUA; bem como ataques a pessoas com feições asiáticas no Canadá, na Tailândia e na Europa, em especial na Itália e no Reino Unido.
Esta não é primeira vez que a comunidade asiática é atingida por discursos de ódio e ataques racistas, o mesmo ocorreu durante a epidemia de SARS em 2003, de acordo com um estudo publicado em 2004, pelos pesquisadores Bobbie Person, Francisco Sy, Kelly Holton, Barbara Govert e Arthur Liang, no revista científica "Emerg Infect Dis". 2004 Feb; 10(2): 358–363.
O desespero de um crise de espectro planetário, como a que se evidencia com a epidemia de coronavírus, leva o ser humano a buscar um inimigo, o causador da crise, o culpado pela restrição à sua liberdade de ir e vir no dia a dia; já que a doença o impede de fazer coisas que habitualmente faria se não fosse a epidemia.
O que chama atenção inicialmente é o fato de fenômenos como esse já terem vistos no passado, antes mesmo de termos disponível recursos tecnológicos para divulgação de notícias em tempo real, como ocorre hoje em dia através da internet. Ou seja, o que quero dizer é que a culpa do racismo não é a internet, ela é só o meio para sua propagação.
Uma reportagem publicada pela rede norte-americana NBC News, em 11 de fevereiro de 2020, relembra que os surtos de tifo e de cólera na década de 1880 levou a uma onda de discriminação contra judeus russos nos Estados Unidos na época, e, ainda, que o surto de peste bubônica no início dos 1900 levou à perseguição da comunidade asiática residente na Chinatown de São Francisco, na Califórnia.
Muitos outros casos como esses poderiam ser relatados, por terem ocorrido ao longo da história da humanidade. Até mesmo no Brasil, vivenciamos muito recentemente, agora em 2015, uma série de manifestações preconceituosas contra refugiados venezuelanos, sob o estigma de que teriam sido eles os responsáveis pelo retorno do surto de sarampo ao país.
O segundo fator que chama a atenção nessa questão da xenofobia é que as pessoas que são alvo dos discursos de ódio ou mesmo de crimes de ódio, não estão doentes, nem se enquadrariam no perfil daqueles que poderiam ser os transmissores da doença. As vítimas dos ataques relatam que nem mesmo são chinesas tampouco estiveram na China recentemente, que nasceram e viveram a vida toda nos Estados Unidos ou no Canadá e têm ascendência oriental.
A partir do primeiro vídeo divulgado por Tanny Jiraprapasuke, um senhora de 44 anos, de origem asiática mas não chinesa, que foi agredida verbalmente no metrô de Los Angeles, vários outros relatos começaram a pipocar na internet, tendo sido divulgados casos em um hotel em Roma, um restaurante na Tailândia que ostentavam placas indicando não atenderiam clientes da China, além de ataques verbais em Londres, no Canadá e nos EUA.
O que fica claro é que inexiste racionalidade na prática racista, o simples fato de ter traços orientais ou der ser chinês, autorizaria a prática do discurso de ódio, tais como o que se ouviu “leve seu vírus para lá”, “aqui não atendemos clientes chineses”.
No clima que vivemos no Brasil, de racismo tolerado e preconceitos disfarçados, devemos esperar para os próximos dias que relatos semelhantes aconteçam, todo cuidado é pouco!

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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