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Colatina 100 anos: cidade chegou a ser a mais rica e populosa do ES

Colatina 100 anos: cidade chegou a ser a mais rica e populosa do ES

Prestes a comemorar o primeiro centenário, Colatina se destaca com uma das economias mais fortes do Estado. O posto foi conquistado pelas atividades extrativistas, mas foi mantido pela capacidade de adaptação para superar as crises

Publicado em 30 de julho de 2021 às 15:31

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Vista aérea de Colatina
Vista aérea de Colatina. (Amarelo Nardotto)

A madeira, o café e a pecuária foram a base do tripé que sustentou a economia de Colatina durante as décadas de 1940 e 1950. Trouxeram a prosperidade que rendeu títulos importantes para Colatina, entre eles o de Princesa do Norte. Atualmente, com a economia diversificada, baseada na indústria, no comércio e no setor de serviços, sobretudo nas áreas da saúde e da educação, Colatina responde por 2,5% de todas as riquezas produzidas no Estado.

A exploração da madeira financiou o desenvolvimento das cidades que surgiram durante o período da colonização no Brasil. E, assim como aconteceu em todo o país, a atividade extrativista também foi a responsável pela prosperidade que colocou a ainda Vila de Colatina em situação de destaque em relação às outras vilas subordinadas ao município de Linhares.

A derrubada das matas para a exploração das terras e para a abertura das estradas trouxe riqueza, mais ainda depois que a ponte Florentino Avidos foi inaugurada em 1928. O caminho sobre o Rio Doce facilitou o transporte dos troncos até a cidade. “Essa tirada de madeira provocou a pujança econômica de Colatina inicialmente. A venda de madeira fortalecia o comércio, depois se instalaram as serrarias. Toda a madeira do Noroeste foi trazida até Colatina. A do Norte ia para o porto de Conceição da Barra. E isso, evidentemente, provocou uma riqueza enorme da cidade”, explica o professor e jornalista Adilson Vilaça.

A essa altura, as pastagens para criação de gado já ocupavam grandes áreas e o café despontava como a potência que se tornaria mais tarde, impulsionada pelo território extenso. Da emancipação, em 1921, até o início dos anos 1960, o município era o maior do Estado. Durante toda a década de 1950, se manteve na dianteira da produção nacional do grão. Entre 1953 e 1960, foi o maior produtor do mundo.

O beneficiamento do café e as serrarias de madeira colocaram Colatina na posição de principal produtor industrial do Estado, com valor manufaturado de 600 milhões de cruzeiros, mais que o dobro do valor registrado em Cachoeiro de Itapemirim na época: 291 milhões, provenientes da produção do café, tecidos de algodão e cimento. Vitória aparecia em terceiro lugar da lista, com 235 milhões.

Serraria Barbados
Serraria Barbados em Colatina. (Estado do ES - Obra de Propaganda Geral - Governo de Nestor Gomes)

Com a economia baseada no tripé café-madeira-pecuária, Colatina se consolidou como o centro comercial, cultural, industrial, bancário e de prestação de serviço de toda a região centro-norte do Estado, condição que lhe rendeu o apelido de Princesa do Norte, inspirado no título já atribuído a Cachoeiro de Itapemirim.

Aspas de citação

Se havia uma Princesa do Sul, agora, nasce uma princesa do Norte. Colatina soube fazer bom uso desse título e está ainda cuidando muito bem dele para que a cidade seja sempre o que os seus fundadores sonharam que ela fosse

Adilson Vilaça 
Professor e jornalista 
Aspas de citação

O município possuía sete agências bancarias, hoteis, hospitais e dois cinemas – O cine Alhambra, posteriormente chamado Cine Gama, funcionou até 1995 e foi reinaugurado depois de uma reforma. É o cinema mais antigo do Estado ainda em funcionamento.

Iate Clube
Iate Clube em Colatina. (Editora Colonvist)

Durante esse período, Colatina foi palco de obras importantes, como os armazéns do Instituto Brasileiro do Café (IBC), a Igreja Matriz e a Catedral, além do Iate Clube, com arquitetura inspirada nas obras modernistas de Oscar Niemayer, e do Estádio Justiniano de Mello e Silva, que ainda hoje é o maior no interior do Estado.

A economia próspera e em ascensão desencadeou o movimento de migração rural. Os descendentes dos primeiros imigrantes deixaram a região serrana para ocupar o interior de Colatina. O pai do José Gon vendeu as terras em Santa Teresa e investiu em um sítio na região hoje chamada de Santa Joana. “Aqui, era cheio de mata, de mato, então a gente foi desbravando esse terreno, limpando e plantando. A gente plantava café, milho, feijão e arroz, mas o café sempre foi o produto principal. Naquela época era o café bourbon, arábica como se diz hoje. Mas hoje é conilon que está mandando, porque ele é mais produtivo, mais fácil de trabalhar”, conta o produtor.

Aos 85 anos, José Gon é cafeicultor em Colatina
Aos 85 anos, José Gon é cafeicultor em Colatina . (Gabriela Fardin )

Hoje, aos 85 anos, o produtor continua trabalhando na roça. O café atravessou três gerações da família Gon e ainda é a principal atividade da propriedade. “Para a minha família, o café é tudo. Ele que é o suporte. Se você precisar de um dinheiro rápido, se tiver o café guardado, na hora, você já está com o dinheiro no bolso. Até antes de você entregar o café, você tem o dinheiro se precisar. Isso é muito importante para a gente que mora aqui na roça”, explica.

O pai do fotógrafo Afrânio Serapião de Souza também acreditou que o futuro estava em Colatina e mudou-se de Afonso Cláudio. “A profissão do meu pai era agrimensor. Ele veio para Colatina atraído pelo progresso da cidade, que tinha estrada de ferro, o vaporzinho, que fazia a ligação com Linhares, e muitas terras a explorar. Precisavam de um agrimensor. Quem mediu essas fazendas do Norte todo, no início, foi meu pai”, lembra Afrânio.

A supremacia de Colatina foi comprovada pelos números do Censo da época: na década de 1950, o município era o mais populoso do Estado e sediava um comércio forte, com 637 estabelecimentos atacadistas e de varejo.

Funcionários trabalhando no frigorífico em Colatina(Amarelo Nardotto)

NOVOS RUMOS NA ECONOMIA 

A escalada do desenvolvimento foi interrompida na década de 1960. O ciclo da madeira já se esgotava e a atividade cafeeira também perdeu força devido ao ataque de pragas e à erradicação de muitas lavouras. Em 1963, veio o primeiro golpe: a emancipação de Pancas e São Gabriel da Palha. Além do baque econômico, a saída dos maiores e mais importantes distritos reduziu pela metade o território de Colatina, que deixou de ostentar o invejável posto de maior do Estado.

A crise nacional do café, desencadeada pelas super safras, atingiu Colatina com muita força. Entre julho de 1962 e maio de 1967, mais da metade dos cafezais do Estado foi arrancada. Dos 300 milhões de pés destruídos no período, a maior parte estava no município, que perdeu receita devido à queda drástica do preço da saca.

No final dos anos 1960, o Fundo de Recuperação Econômica do Estado do Espírito Santo (FUNRES) estimulou o surgimento de novos arranjos produtivos, que evitaram o colapso econômico de Colatina. A indústria ganhou força novamente, mas, dessa vez, dissociada das atividades extrativistas.

Vista aérea do frigorífico fundado no final dos anos 60
Vista aérea do frigorífico fundado no final dos anos 60. (Amarelo Nardotto)

A história do empresário Marcos Coutinho está diretamente ligada à de Colatina. Ele administra a empresa, fundada pelo pai há mais de 50 anos, em um dos períodos mais nebulosos do município. O frigorífico foi um dos primeiros a inaugurar o ciclo fabril da cidade e segue como uma das empresas mais importantes do Estado.

Marcos lembra com o orgulho dessa trajetória. “O Espírito Santo passava por uma fase difícil do café. O Governo identificou algumas atividades para serem desenvolvidas e o abate bovino foi uma delas. Assim, surgiu a nossa empresa, que ajudou também a desenvolver o nosso bairro Honório Fraga e a cidade de Colatina como um todo, investindo muito na geração de empregos. Eu fico orgulhoso de fazer parte dessa história e de dar continuidade a ela. Nós temos vários projetos de ampliação, geração de novos empregos. Colatina é uma cidade em que gente acredita muito e vamos continuar investindo bastante”, garante o empresário.

A indústria se diversificou e, na década de 1970, a confecção de roupas ganhou força. “Naquela época, as roupas eram feitas sob medida pelas costureiras. Mas, com o crescimento da população, a demanda pelo vestuário aumentou. Foi, então, que as chamadas ‘sacoleiras’ passaram a viajar até São Paulo para comprar as peças que seriam revendidas em Colatina. Diante da concorrência, as costureiras da cidade começaram a produzir roupas em maior quantidade e com numerações padronizadas para abastecer o comércio local. Assim, foram surgindo as pequenas fábricas”, explica o historiador Namy Chequer.

Fábrica de Confecções em 1985, uma das maiores do Brasil, com 500 funcionários
Fábrica de Confecções em 1985, uma das maiores do Brasil, com 500 funcionários. (Revista Nossa, número 20)

“Nós chegamos a ter em Colatina cerca de mil confecções, entre as grandes, médias e as pequenas. Eram mais de 700 pequenas confecções”, completa Adilson Vilaça.

Até hoje, o setor de confecções se destaca no município e movimenta uma cadeia com 152 empresas. Não à toa Colatina é um polo de confecções e, desde 2012, reconhecida pelo Governo como a capital da moda no Espírito Santo.

Segundo o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Espírito Santo, atualmente, Colatina possui 444 empresas. A maior parte está concentrada na fabricação de produtos voltados para a construção civil, de produtos alimentícios e de produtos minerais não-metálicos. O setor emprega mais de 9 mil trabalhadores e, de acordo com o Instituto Jones dos Santos Neves, a indústria responde por quase um quarto (22%) do Produto Interno Bruto do município.

Outra importante fonte de riqueza do município é o comércio varejista, que reflete o talento para a moda. De acordo com a Junta Comercial do Estado, Colatina possui 392 lojas especializadas na venda de artigos do vestuário e acessórios, o que equivale a 6% de todas as empresas ativas do município.

Comércio de Colatina
Comércio de Colatina . (Heriklis Douglas )

Hoje, o comércio é impulsionado pelo setor de serviços (sobretudo nas áreas da saúde e da educação). Juntos, respondem por 48% do PIB municipal. “Os serviços especializados, com estabelecimentos importantes de saúde e educação, atraem a população dos municípios vizinhos”, destaca o Diretor do Instituto Jones dos Santos Neves, Pablo Lira.

O comerciante Geraldo Magela herdou a atividade do pai e dedica mais da metade da vida ao comércio. Ele destaca a capacidade de adaptação dos empresários do setor para acompanhar as transformações no arranjo econômico de Colatina e atender às novas exigências do mercado. “As mudanças das atividades econômicas também passam para o varejo. Nos momentos atuais, meus dois filhos estão na empresa e eles continuam observando e se adaptando a essa realidade que está acontecendo também na forna de comercializar, que passa da venda na loja para uma venda virtual, nas redes sociais e em todas as plataformas que existem atualmente. Os comerciantes de Colatina estão de parabéns, prontos para o futuro”, completa.

DA CRISE À INDEPENDÊNCIA ENERGÉTICA

Colatina iniciou o processo de industrialização na década de 1940, com o beneficiamento da madeira para a venda. Foi um período marcado pela prosperidade e, ao mesmo tempo, assombrado pela crise energética, que poderia desacelerar o avanço da atividade. A energia produzida por uma pequena usina térmica, com caldeira à lenha e um motor a diesel, já não era mais suficiente para sustentar as serrarias e mover o desenvolvimento da cidade. A energia “vagalume” era fornecida apenas durante algumas horas por dia.

A falta de energia também era um problema em todo o Estado, que vivia um surto de industrialização nessa época. E, mais uma vez, Colatina saiu na frente. “Colatina resolveu se virar e criou a própria empresa de produção de energia elétrica. Esse empreendimento garantiu o processo de industrialização da cidade. Foi tão importante que dura até hoje”, explica o historiador Namy Chequer.

O ponto de partida para a independência energética foi a pequena usina de geração de energia, instalada na cachoeira do Rio Santa Maria, em Boapaba. A usina foi criada por Henrique Nunes Coutinho em 1938 para beneficiar os grãos de café, arroz e milho produzidos na fazenda. Em 1944, uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) foi criada para transferir a indústria de beneficiamento dos grãos para a sede de Colatina, no bairro Vila Lenira.

Usina hidrelétrica no Rio Santa Maria, em 1930, na fazenda da família de Henrique Nunes Coutinho
Usina hidrelétrica no Rio Santa Maria, em 1930, na fazenda da família de Henrique Nunes Coutinho. (Acervo da Família Coutinho)

A pedido do então prefeito, Silvio Avidos, e com a autorização do Governo Federal, o excedente da produção passou ser utilizado para abastecer Colatina. Em 1946, pela primeira vez, houve a produção, transmissão, transformação e a distribuição de energia elétrica no município.

No início da década de 60, a substação de Colatina foi interligada à usina de Rio Bonito, instalada no rio Santa Maria da Vitória, em Santa Leopoldina.

Hoje, a empresa criada por Henrique Nunes Coutinho, em 1959, distribui energia elétrica para Colatina e outros dez municípios da região Noroeste do Estado.

INOVAÇÃO QUE GEROU NEGÓCIO

Durante o ciclo de exploração da madeira, devido às longas distâncias e à dificuldade para o transporte das toras, muitas serrarias eram itinerantes, levadas até os locais de derrubada das matas. A energia que movia as serras era produzida a partir do óleo diesel, pelos motores dos caminhões. Essa demanda deu origem a outra atividade, que foi muito fortalecida no período: a retífica de motores. Os motores dos caminhões eram preparados e usados como dínamo.

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Até hoje, Colatina possui várias retíficas e, não por acaso, a maioria das empresas está instalada ao longo do trecho da ES 080 que corta os bairros São Silvano e Carlos Germano Nauman. Antes da construção da rodovia do contorno pelo DER, em 2014, o fluxo de carretas era intenso nesses bairros, já que a ES 080 liga Colatina a vários municípios da região noroeste do Estado.

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