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Publicado em 27 de agosto de 2025 às 17:12
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) revela indícios de fraude na aquisição de gêneros alimentícios pelas Forças Armadas no país. O relatório da Corte mira supostos gastos irregulares para aquisição, por meio de licitações e atas de registro de preço, de itens que vão de paçoquinha a filé mignon, picanha, salmão e bacalhau. A Escola de Aprendizes Marinheiros do Espírito Santo (Eames) é implicada no balanço feito pela área técnica da Corte de Contas.>
Os gastos suspeitos vieram à tona em acórdão do TCU de 30 de julho deste ano, ao qual reportagem de A Gazeta teve acesso. No documento é pontuado que a auditoria analisou as aquisições de gêneros alimentícios pelos Comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica no período de 2017 a 2021. >
Ainda conforme o acórdão do TCU, a fiscalização foi motivada pelo alto valor dessas contratações, que totalizaram cerca de R$ 4 bilhões no período. O montante representa 58% dos gastos totais da Administração Pública Federal com alimentos nos anos analisados. >
O Ministério da Defesa e a Marinha foram procurados pela reportagem por diversas vezes para comentar o caso desde o dia 7 de agosto. No entanto, não houve envio de resposta aos questionamentos até a publicação desta matéria.>
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A Eames é citada pela auditoria do TCU pelo fato de a organização permitir, supostamente sem justificativas, a adesão a atas de registro de preços por órgãos fora do escopo das Forças Armadas. Esse procedimento é chamado de "carona"na esfera das licitações. >
A carona, nesse caso, ocorre quando uma entidade que não participou do certame licitatório inicial é autorizada a usar a ata de registro de preço durante sua vigência, desde que haja consulta prévia ao órgão gerenciador e concordância do fornecedor.>
No entendimento do TCU, a suposta conduta da Eames contraria o Decreto 7.892/2013, a Lei 8.666/1993, o princípio da motivação dos atos administrativos (Lei 9.784/1999) e a jurisprudência do TCU, que considera a adesão por órgãos "caronas" como uma possibilidade "anômala e excepcional" que deve ser devidamente justificada. A Corte de Contas aponta como instrumento inadequado para a aquisição de gêneros alimentícios, por ser uma compra rotineira e não "excepcional". >
Ao prestar esclarecimento sobre o caso, a Escola de Aprendizes Marinheiros do Espírito Santo teria apresentado documentação para adesão de órgãos não participantes, incompleta e com justificativas genéricas, de acordo com o TCU. >
A citação da Eames na auditoria está relacionada ao Pregão Eletrônico 3/2022. Consulta feita ao Portal de Transparência da Marinha mostra que o certame tinha valor estimado em R$ 5.129.763,41 e que recebeu 13 atas de registro de preço, todas com vigência de 27 de maio a 27 de outubro de 2022. >
Entre as atas de registro de preço com maior valor a ser contratado está uma de R$ 557.501,06. Os itens listados do documento vão de mariola a peixe fresco, rabo de porco e toucinho. O documento tem assinatura de Márcio Hecksher Stallone, capitão de fragata e então ordenador de despesas na Eames.>
A segunda ata de registro de preço com valor mais alto, entre as relacionadas no Pregão Eletrônico 3/2022, tem valor estimado em 387.593,26. Os gêneros alimentícios listados nela incluem canela em pó, carne moída, frango, linguiça e vasilhames plásticos. O documento também é assinado pelo capitão de fragata e então ordenador de despesas da Eames.>
Documentos anexados ao Pregão Eletrônico 3/2022, citado na auditoria do TCU, traz mostra a participação de prefeituras no processo licitatório da Escola de Aprendizes. >
A reportagem contou pelo menos dez Executivos municipais como integrantes de certame que visava à compra de gêneros alimentícios de pimenta-do-reino, chester e peru. A cidade de São Francisco de Sales, em Minas Gerais, por exemplo, entra em uma das licitações da Eames para aquisição de pé de porco salgado.>
A auditoria apontou fortes indícios de fraude em quatro dos seis pregões analisados (PE 6/2019, PE 3/2020, PE 26/2020, PE 35/2020). A irregularidade aconteceria, de acordo com os técnicos, pela atuação coordenada de um grupo de empresas de "alto risco" para direcionar os certames, segundo o TCU.>
É citado no acórdão que a principal evidência de irregularidades foi o uso do mesmo endereço de Internet Protocol (IP) — sequência de números que identifica qualquer dispositivo conectado à internet — por múltiplas empresas participantes da licitação para acessar os pregões no sistema do governo federal, sugerindo comunicação prévia e atuação conjunta para direcionar a contratação. >
O relatório do TCU também indica que as empresas participantes apresentavam sócios ou ex-sócios em comum e endereços comerciais praticamente idênticos (no Mercado Municipal do Rio de Janeiro - CADEG). Além disso, alguns sócios eram ou foram empregados de outras empresas do grupo. Ainda destaca que dois sócios eram capitães reformados do Exército e o pai da sócia de duas empresas era 2º sargento reformado da Marinha, levantando suspeitas de favorecimento. >
O acórdão determina uma série de medidas para corrigir as irregularidades e aprimorar a gestão pública. As principais são:>
Outras medidas e recomendações:>
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