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Publicado em 11 de julho de 2025 às 12:24
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Espírito Santo, nesta sexta-feira (11), marca o início de um novo ciclo de reparação aos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão. Quase dez anos após a tragédia, relatos de agricultores e comunidades ribeirinhas revelam um histórico de invisibilidade, perdas e resistência. Agora, com a criação do Programa de Transferência de Renda (PTR), muitos enxergam a possibilidade de reconstruir suas vidas.>
O representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Heider Boza, destaca que o acordo anterior, conduzido pela Fundação Renova, foi seletivo e excludente. Segundo ele, o novo programa é mais inclusivo, mas ainda há muito a ser feito. “Muitos agricultores e pescadores não foram incluídos. Categorias como o comércio, turismo e artesanato também ficaram de fora. Novas áreas como o pessoal de Vitória, Ilhas das Caieiras e até o sul da Bahia precisam ser contempladas. Mas é um bom começo”, afirmou.>
Maria Goretti Moura, agricultora de Marilândia, no Noroeste capixaba, lembra das dificuldades enfrentadas após a chegada da lama. “A grande consequência foi para os ribeirinhos que tinham plantação na beira do Rio Doce. Perderam tudo. E isso nunca foi reconhecido”, relatou.>
Maria conta que o solo ficou improdutivo por anos e que, nos três primeiros anos, não foi possível plantar nada. Sem qualquer tipo de ajuda, ela precisou deixar o campo para conseguir sustentar a família. “Eu tinha que trabalhar, encarei fábrica de roupa, encarei tudo. Tive que abandonar minha profissão para conseguir levar dinheiro para casa.”>
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Ela também criticou a invisibilidade das mulheres no processo de reparação: “As mulheres também foram muito esquecidas. Eram mais os homens, os pescadores, mas agora, com essa repactuação, as mulheres estão, digamos assim, à frente. Principalmente as mulheres quilombolas, as indígenas e as negras”. >
A história não é diferente para Ana Lúcia de Araújo, do acampamento João Gomes, em Linhares, no Norte do Espírito Santo. Segundo ela, o terreno da comunidade foi impactado pela enchente provocada pela lama, o que prejudicou totalmente a produção agrícola. “A água da gente não ficou a mesma, as plantações não saem mais como antes. Mas seguimos tentando. A gente está plantando de tudo um pouquinho”, disse.>
Apesar de ter feito o cadastro, ela ainda aguarda retorno sobre o benefício do PTR. “Estamos com esperança, mas até agora nenhum nome da nossa comunidade saiu”, contou.>
Já Edmo Ferreira, agricultor de Aracruz, foi um dos beneficiados pelo novo programa. Ele acredita que, apesar dos danos ambientais duradouros, a chegada do PTR representa uma nova oportunidade para recomeçar. “Com essa nova ajuda, a gente vai conseguir progredir com a terra, com as plantações. Mas o impacto ambiental ainda vai levar muito tempo para se recuperar.”>
Cláudia Monteiro Teixeira de Oliveira, pescadora e liderança comunitária de São Mateus, Norte do Espírito Santo, também acompanha de perto a repactuação desde o início da luta dos atingidos. Ela lembra que o impacto da lama foi devastador em todos os sentidos - na saúde física, mental e no sustento da comunidade. “O desastre foi terrível, não tem o que falar. A repactuação ameniza um pouco de todo o sofrimento que a gente vem passando até hoje”, contou. >
Cláudia critica o atraso no reconhecimento dos direitos das mulheres pescadoras e lembra que muitos ainda não receberam nenhuma indenização. Em sua vila, a pesca artesanal é a principal atividade, e parte da população ainda precisa pescar mesmo em meio às contaminações para garantir alimento. Ela também denuncia o problema da água, que passou a ser imprópria para uso após o desastre. “Hoje, a gente vive de carro-pipa, abastecido pela prefeitura. A água não serve mais pra nada. São só dois mil litros por casa, e somos cerca de 600 moradores”, relatou.>
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