A briga entre facções criminosas em Vitória traz inúmeros prejuízos para as comunidades em vulnerabilidade social, segundo o secretário estadual de Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), Alexandre Ramalho. Casos como a morte do adolescente de 15 anos em um beco no Bairro da Penha e uma rajada de tiros durante a madrugada, em Itararé, são alguns dos registros dos últimos dias, em Vitória, ligados à criminalidade.
Em entrevista aos apresentadores Fabíola de Paula e Mário Bonella, no Bom Dia ES, da TV Gazeta, Ramalho esclareceu que as corporações que trabalham com segurança pública do Estado atuam para aumentar o cenário de segurança, porém enfrentam desafios como a capilaridade dos criminosos e barreiras físicas, como a topografia dos morros que dificultam, por exemplo, a chegada de viaturas.
Confira a entrevista completa:
A gente está vendo uma guerra de traficantes. O que está acontecendo aqui nessas regiões?
Organizações criminosas, lamentavelmente comandada por covardes traficantes que usam essa mão de obra muito barata, que são jovens afastados da escola, afastados de qualquer preceito ético moral e que se rivalizam o tempo todo, buscando sempre o efeito morte de buscar alguém que pertence a outra organização, que trabalhou, que participou do tráfico, mesmo que hoje não esteja mais envolvido, mas buscar aquele alvo e eliminar na comunidade.
O que a gente está vendo é mais do mesmo? É uma guerra intensificada?
O mais do mesmo, protagonizado por uma garotada lá na ponta, inconsequente, responsável, afastado de religião, de escola, de família, que leva esse problema sempre na conta da polícia. O que a polícia vai fazer, o que a polícia tem feito, como se nós tivéssemos a varinha de condão para resolver todos os problemas que lá atrás não foram devidamente tratados e hoje deságuam na responsabilidade das nossas polícias.
O senhor pediu ajuda da população fazendo denúncia, mostrando onde tem armas, mas a população tem medo. Ela tem garantia mesmo do anonimato, se ela ligar de alguma forma de algum lugar ali para poder denunciar e ajudar a polícia?
Vamos esclarecer a diferença entre 190 e 181. O 190 é o momento que você precisa da viatura, é o seu momento de perigo, é o seu momento de socorro, que você precisa de um auxílio imediato da polícia diante da emergência. O 181 são aquelas informações que poderão robustecer uma operação da polícia civil, que poderão nos esclarecer o que está acontecendo, porque o olho da comunidade para a gente é muito importante. O 181 é um canal seguro, nós não queremos a identidade de ninguém, não precisa se identificar, nós não rastreamos telefone, o que nós queremos é informação. Já é programado para a gente não ter interesse em saber quem está denunciando.
O senhor que está na ponta, o senhor que combate o tráfico e consegue avaliar isso porque o senhor vê as armas, qual a avaliação do senhor em relação a esse aumento de arma legalizadas?
A discussão é muito simples, é fechar a porta de entrada, é fechar a porta de entrada desses jovens que lamentavelmente estão morrendo, o problema está posto. Quem está matando e morrendo no Espírito Santo? Jovens de 15 a 29 anos. Há décadas nós temos essa estatística, nós acompanhamos o monitoramento dos homicídios no Espírito Santo desde 1997, 1996, então há 27 anos está posto o problema, nós temos que fechar a porta de entrada, e como fecha a porta de entrada? Com ações muito além das ações das polícias, mas nós é que somos cobrados o tempo todo, se a gente vai para cima e enfrenta, nós hoje estamos vivendo a questão do confronto armado, de janeiro a setembro foram 393 confrontos armados. Só que no momento que a gente faz o papel a gente recebe a crítica, atuou, matou, a polícia é a exterminadora de jovens, a polícia é a exterminadora de negros, quando não atua é omisso, a polícia não vem, a gente não vê a polícia, e as vozes que tanto criticam a polícia agora a gente não ouve se manifestar, porque isso está muito claro, são dois indivíduos traficantes covardes que lideram organizações criminosas que estão se combatendo, esses caras estão trazendo todo esse transtorno para a comunidade, e nós vamos ao encalço.
A questão das armas, porque foi um ponto muito contraditório dos dois. Helder Salomão falou que aumentou a possibilidade de você ter arma oficial, isso tem consequência na criminalidade. O Evair diz que não tem nada a ver. Para o senhor que está na ponta, é a população mais armada oficialmente, melhorou ou não a segurança?
Quando o cidadão requer arma, o cidadão honesto, digno e trabalhador que paga seus impostos que quer uma arma, o governo federal no mandato passado foi claro e liberou para quem quis, agora o cara tinha que ter um ingresso junto à Polícia Federal. Hoje a gente vive em outro momento. Isso ajudou a segurança pública? É claro que não, não é o cidadão armado que vai ajudar a segurança pública, ele está pensando na segurança dele mesmo. O problema é o Brasil começar a punir, o que a gente vê hoje é que a gente prende e solta, a gente está falando de arma de fogo, se eu pegar o cara ali armado com uma pistola agora, ele vai pagar a fiança e vai embora. O Brasil precisa parar de banalizar a questão da segurança pública e discutir com honestidade.
Como está hoje essa região que mostramos aí agora há pouco de Itararé ali, inclusive Ceturb, suspendeu os ônibus até lá no alto desses bairros. Qual a situação hoje para o morador, tem segurança reforçada, as linhas de ônibus podem circular normalmente?
Nós vamos avaliando a cada momento, porque é uma região difícil de fazer o policiamento, nós estamos falando de uma topografia de morro, onde não circula viatura no alto do morro, Nós sempre, taticamente, temos uma desvantagem, porque vamos de baixo para cima, todo o policiamento é na canela do policial. São longas escadarias, becos, vielas, e a cada momento a gente se depara com perigo. Para vocês terem ideia, na operação de ontem à noite, onde envolveu a Polícia Militar ocupando o Bairro da Penha e o São Benedito e a Polícia Civil no Morro do Macaco, foram duas pistolas apreendidas, cinco pessoas presas, drogas. Então a todo instante a gente pode ter a possibilidade de um confronto, não temos como ocupar isso por 24 horas, e nas janelas de oportunidade é que eles acabam se encontrando e se rivalizando.
O presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Marcelo Santos, disse estar muito preocupado com a discussão no Supremo Tribunal Federal em relação à tolerância maior para o usuário de droga, que essa pessoa não seria mais vista como criminosa, enfim, haveria uma tolerância maior. O senhor analisa como é essa questão, pode ser pior, pode fomentar o tráfico ou pelo contrário você não punir tão severamente o usuário pode ser bom para a segurança pública?
Eu acho que essas discussões ainda são tão prematuras num país que a gente tem bando de miseráveis, de pessoas que não têm educação, como nós vamos liberar droga num país como o nosso, onde a grande maioria continua afastada da escola, não enxerga o emprego formal como oportunidade de vida, cada vez mais os jovens migrando para o tráfico de entorpecentes. Acho que a gente tem muita coisa além dessa discussão para fazer, acho que as pessoas ficam banalizando e mais uma vez querendo liberar para soltar, para deixar não encher o presídio, essa discussão sinceramente acho que ela está muito além do Brasil, do nível de imaturidade que os brasileiros estão.
A Polícia do Espírito Santo criou mais 21 coronéis, não foi isso recentemente? Quatro de 21 coronéis. Isso é melhor para instituir mais coronéis do que policiais na tropa?
Não são mais coronéis do que a tropa, a tropa é uma pirâmide na verdade, é a base, o soldado é a base, dessa pirâmide precisa de gestão, a Polícia Militar é uma grande empresa, assim como a Polícia Civil, como o Corpo de Bombeiros, e essa empresa tem uma diretoria de logística, uma diretoria de frota, uma diretoria de inteligência, enfim, esses coronéis ocupam pontos estratégicos da Polícia Militar, auxiliando o seu Comandante Geral na melhor gestão da instituição. Nesse sentido nós temos uma das melhores gestões hoje no comando do Coronel (Douglas) Caus, que vem conduzindo com brilhantismo a nossa Polícia Militar.
Se a gente olhar o custo, pode ter um custo maior, você ter mais coronéis na polícia ou não, do que você investir propriamente em policiais que vão atuar na ponta?
As coisas são necessárias, nós não temos um número exorbitante, 21 coronéis para 10 mil policiais é um número bastante razoável se você realizar uma gestão de uma empresa privada é bem compatível.
10 mil policiais incluindo civis e militares?
É o que a lei permite, mas não é o que nós temos hoje, a lei permite hoje que o Espírito Santo tenha 10.400 policiais militares, mas não é a nossa realidade porque gestões anteriores entenderam que não precisavam fazer concurso, e a nossa geração de gestor hoje paga um preço muito alto pelo déficit efetivo, tanto na Polícia Militar como na Polícia Civil e no Corpo de Bombeiros.
Que estão enfrentando adolescentes?
Uma barra, uma barra pesada lá na ponta, não tem sido fácil, e aqui vai mais uma vez o nosso agradecimento a todos os nossos policiais, não tem salário que pague o preço do que esses camaradas nossos fazem diariamente.