A suspeita de irregularidades em uma ocorrência policial registrada em Ibatiba, no Sul do Espírito Santo, foi o ponto de partida para a operação que resultou na prisão de quatro policiais militares e outros quatro investigados na terça-feira (3). Segundo a Polícia Civil, as apurações identificaram divergências entre o que foi relatado pelos agentes no boletim de ocorrência e as informações levantadas posteriormente pelos investigadores.
A Operação Lucas 3:14 foi realizada pela Polícia Civil, Corregedoria da Polícia Militar e Ministério Público do Espírito Santo (MPES). Ao todo, 12 pessoas são investigadas por crimes como homicídio, fraude processual, pistolagem e organização criminosa. Oito delas tiveram mandados de prisão temporária cumpridos.
Suspeitos presos durante a ação:
Três homens, de 37, 36 e 49 anos, presos por força de mandado de prisão.
Um homem, de 44, e uma mulher, de 46 anos, presos em flagrante e encaminhados ao sistema prisional.
Uma mulher, de 39 anos, foi presa em flagrante e liberada para responder em liberdade, após o recolhimento da fiança arbitrada pela autoridade policial.
Uma mulher, de 26 anos, presa por força de mandado de prisão.
Quatro policiais militares, de 36, 30, 43 e 25 anos, presos por força de mandado de prisão.
As investigações começaram após uma ocorrência registrada em 5 de dezembro do ano passado, às margens da BR 262, em uma área rural de Ibatiba. Na ocasião, uma guarnição da Polícia Militar informou ter sido recebida a tiros durante uma abordagem a ocupantes de um veículo suspeito. Dois homens, identificados como Ezequiel de Sousa, de 39 anos, e Claudinei de Paula, de 43, acabaram baleados e morreram.
No entanto, conforme explicou o delegado Bruno Alves, titular da Delegacia Regional de Ibatiba, a análise do caso revelou inconsistências entre a versão apresentada pelos militares e outros elementos reunidos durante a investigação.
"Aquela situação narrada no boletim de ocorrência não estava coerente com outras informações", afirmou o delegado durante coletiva de imprensa nesta quarta-feira (3).
Trabalho conjunto
De acordo com o superintendente de Polícia Regional Serrana, delegado Alberto Roque Peres, a investigação avançou após um trabalho integrado entre a Delegacia Regional de Ibatiba, o comando do 14º Batalhão da Polícia Militar, a Corregedoria da PM e o Ministério Público.
Segundo ele, tanto o inquérito conduzido pela Polícia Civil quanto a investigação militar identificaram indícios de possíveis irregularidades relacionadas à ocorrência, incluindo suspeitas de ocultação de informações e fraude processual.
As prisões temporárias, segundo a polícia, permitirão aprofundar as investigações, individualizar as condutas dos envolvidos e esclarecer o papel de cada suspeito.
Disputa familiar
Conforme o superintendente de Polícia Regional Serrana (SRSR), delegado Alberto Roque Peres, há uma antiga briga familiar na zona rural de Ibatiba e regiões próximas e membros dessa família estão entre os mortos no dia 5 de dezembro de 2025. Um deles possuía diversas passagens policiais, respondia por homicídios e estava foragido do sistema prisional.
Paralelamente, as autoridades identificaram conexões entre o caso e uma investigação conduzida pelo Ministério Público envolvendo servidores públicos municipais de Ibatiba e Castelo.
Dois servidores municipais estão entre os presos temporariamente. Conforme a polícia, eles seriam suspeitos de atuar como intermediários dentro da suposta organização investigada.
PM apura conduta dos militares
Os quatro policiais militares presos são um sargento e três soldados. Segundo a Corregedoria da PM, eles não integravam uma equipe fixa de trabalho e atuavam em escalas diferentes.
O corregedor da corporação, coronel Webstone Alves Christ, informou que um procedimento administrativo disciplinar será instaurado após a conclusão das investigações para apurar a conduta individual de cada militar.
Ele ressaltou que toda ocorrência com morte decorrente de intervenção policial gera automaticamente a abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM), independentemente das circunstâncias. Os nomes dos investigados não foram divulgados porque o caso segue sob investigação.