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Publicado em 12 de setembro de 2025 às 14:55
Nesta semana, o Espírito Santo tem relembrado um dos momentos mais críticos da história na segurança pública do Estado. Começou, na quarta-feira (10) — e prossegue nesta sexta (12) —, o julgamento de cerca de dois mil policiais militares por crime de motim praticado durante a greve da PM, em fevereiro de 2017, quando 219 pessoas foram assassinadas em apenas 22 dias.>
Do primeiro ao último dia da greve, as páginas dos jornais impressos A Gazeta e Notícia Agora registraram os principais acontecimentos. Seis meses depois, as histórias das famílias das vítimas da catástrofe também foram tema de uma reportagem especial publicada em versão digital.>
Confira abaixo como o movimento começou e como foram os dias de terror vividos pelos capixabas em meio às negociações para encerrar ao movimento grevista.>
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Era 3 de março de 2017 quando, logo cedo, por volta das 6h30, um grupo de mulheres e filhas de policiais militares protestava em frente a um destacamento em Feu Rosa, na Serra. Em suas mãos, cartazes com os dizeres "Não suportamos tanto descaso", "Nossos policiais merecem Justiça e dignidade", "Cumpra-se a lei. Correção salarial já" e "A polícia que mais diminui índices no Brasil tem o pior salário".>
As mulheres bloqueavam o acesso ao destacamento e, com isso, nenhuma viatura conseguia sair para atender os bairros da Grande Jacaraípe, Nova Almeida, Manguinhos, Feu Rosa e Vila Nova de Colares. Naquele momento, a Polícia Militar informou que acompanhava o protesto de forma pacífica, mas não se manifestou sobre as demandas das manifestantes.>
No dia 4, os protestos se espalharam por outros municípios e os policiais deixaram de ir às ruas em todo o Estado. Na Capital, as manifestações se concentraram em frente ao Quartel do Comando-Geral (QGC) de Maruípe. >
A falta de policiamento nas ruas fez o Espírito Santo enfrentar uma restrição social antes mesmo do confinamento devido à pandemia de Covid-19. A insegurança nas cidades, não só na Região Metropolitana, mas também em municípios do interior capixaba, levou os moradores a ficarem reféns da criminalidade dentro de suas próprias casas, criando um verdadeiro estado de sítio.>
O medo de sair às ruas não era em vão. Sem segurança, deu-se início a um verdadeiro massacre, com homicídios, latrocínios, vítimas de balas perdidas e confrontos com a polícia. Em um só dia, 41 pessoas perderam a vida. No Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, as 15 geladeiras encheram-se rapidamente, e os corpos começaram a se empilhar pelo chão. Foi preciso uma força-tarefa de peritos para identificar todos eles. Nos cemitérios, os coveiros relataram enterros sucessivos. Teve família que precisou, por conta própria, abrir a cova para conseguir enterrar seus parentes.>
Levantamento feito com base em dados obtidos com exclusividade por A Gazeta mostrou que mais da metade das vítimas nunca tinha sido condenada por praticar crimes.>
Dos 192 mortos identificados pela reportagem, 94 tinham alguma condenação ou respondiam na Justiça por algum crime quando morreram. Esse número equivale a 48,9% das pessoas que perderam a vida de forma violenta durante os 22 dias em que militares não saíram às ruas. Outros 51,1% não tinham processos na Justiça.>
Um dos casos é o de Luciano da Conceição Lima, de 21 anos, de Vitória. Ele e um amigo foram assassinados no bairro Conquista, na Capital, em 5 de fevereiro. A mãe de Luciano, Luziene de Lourdes Oliveira da Conceição, de 40 anos, ouvida pela reportagem seis meses após o fim da greve, disse que acordou naquele dia com um mau pressentimento. "Eu não sei o que aconteceu porque os dois eram pessoas boas. Os dois morreram inocentes, isso eu tenho certeza”, desabafou, à época.>
Assista abaixo ao relato dos pais de Luciano, gravado em 2017:>
Houve ainda aumento expressivo no número de carros roubados. Apenas nos três primeiros dias, foram 170 veículos retirados de seus donos, o que levou a um grande número de ocorrências e delegacias lotadas, com pessoas aguardando horas em filas por atendimento.>
A insegurança se espalhou de tal forma que diversos serviços foram afetados, com lojas e supermercados sendo invadidos e saqueados. A cena de centenas de pessoas saqueando lojas repercutiu em todo o país. No total, o prejuízo à economia capixaba foi de R$ 2,1 bilhões, considerando as perdas na indústria, comércio e setor de serviços.>
Os ônibus também passaram a ser alvos dos criminosos, sendo incendiados e depredados. Por conta disso, a circulação ficou suspensa por quatro dias.>
Em 5 de fevereiro, o então vice-governador Cesar Colnago assumiu interinamente o comando do governo do Estado, uma vez que governador Paulo Hartung estava internado desde o dia 3, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para a retirada de um tumor na bexiga.>
No dia 6, com Colnago à frente da gestão estadual, o governo trocou o comando da PM. Na ocasião, saiu Laércio Oliveira e assumiu o coronel Nylton Rodrigues.>
Para tentar manter a presença nas ruas, o governo estadual pediu ajuda do Exército e da Força Nacional. A chamada Operação Capixaba começou no dia 6. Ao todo, 3.169 homens das Forças Armadas, sendo 2.637 do Exército, 382 da Marinha e 150 da Força Aérea, além de 287 militares da Força Nacional, patrulharam esquinas, rodovias e coletivos.>
Mesmo com o Exército nas ruas, o medo ainda tomava conta da população, tanto que lojas, escolas, postos de saúde e agências bancárias começaram a manhã do dia 7 fechadas. Já os ônibus só voltaram a circular depois das 9h.>
Hartung voltou ao Estado dia 7 e deu uma entrevista coletiva, no dia seguinte, afirmando que a greve era ilegal, inconstitucional e estava tornando a população capixaba refém do movimento. Ele continuou licenciado por questões de saúde e reassumiu o comando do Executivo estadual no dia 13.>
No dia 14, as mulheres manifestantes enviaram uma carta a Hartung, na qual informavam que haviam desistido de pedir reajuste salarial, mas queriam melhorias para a categoria. A segurança começou a voltar ao controle do Estado e mais de 1 mil policiais voltaram às ruas. Na ocasião, o governo anunciou a demissão de 161 agentes.>
Paralelamente, a Justiça impôs multa de R$ 10 mil a dez mulheres por protestarem na porta de batalhões, enquanto o governo abriu 155 investigações contra policiais. No dia seguinte, 15 de fevereiro, o protesto na frente do Comando-Geral da Polícia Militar esvaziou. A Força Nacional teve sua permanência no Estado prorrogada por 20 dias, com o Exército assumindo a segurança do Carnaval de Vitória.>
Em 22 de fevereiro, foi revelado que 2.851 policiais militares, cerca de 30% da corporação, respondiam a inquéritos internos. Enquanto o efetivo nas ruas começava a se normalizar em 23 cidades, 55 municípios ainda seguiam sem o policiamento total.>
Três dias depois, em 25 de fevereiro, após uma reunião de nove horas mediada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-ES), as mulheres e o governo chegaram a um acordo. Com isso, os acampamentos em frente aos batalhões foram desfeitos, e o governo anunciou que 100% do efetivo havia retornado ao trabalho.>
Com o fim da paralisação, o Executivo anunciou, em 1º de março, um plano de reestruturação da Polícia Militar, que incluía a criação de novas companhias, o remanejamento de policiais e a extinção de unidades especializadas como o Batalhão de Missões Especiais e a Ronda Tática Motorizada. Por fim, em 4 de março, os militares da Operação Capixaba começaram a deixar o Estado após 31 dias de atuação>
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