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Greve da PM: como ocorreu a maior crise da história da segurança do ES

Greve da PM: como ocorreu a maior crise da história da segurança do ES

Paralisação começou no início de fevereiro de 2017, com protesto de mulheres em frente a destacamento da corporação e se arrastou por 22 dias, com caos nas ruas e a morte de mais de 200 pessoas

Publicado em 12 de setembro de 2025 às 14:55

Mulheres protestam em frente a bases da Polícia Militar durante greve da PM no Espírito Santo
Mulheres protestam em frente ao Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar durante greve da PM no Espírito Santo Crédito: Fernando Madeira

Nesta semana, o Espírito Santo tem relembrado um dos momentos mais críticos da história na segurança pública do Estado. Começou, na quarta-feira (10) — e prossegue nesta sexta (12) —, o julgamento de cerca de dois mil policiais militares por crime de motim praticado durante a greve da PM, em fevereiro de  2017, quando 219 pessoas foram assassinadas em apenas 22 dias.

Do primeiro ao último dia da greve, as páginas dos jornais impressos A Gazeta e Notícia Agora registraram os principais acontecimentos. Seis meses depois, as histórias das famílias das vítimas da catástrofe também foram tema de uma reportagem especial publicada em versão digital.

Confira abaixo como o movimento começou e como foram os dias de terror vividos pelos capixabas em meio às negociações para encerrar ao movimento grevista.

Mulheres protestam em frente a bases da Polícia Militar durante greve da PM no Espírito Santo
Mulheres protestam em frente a destacamento da Polícia Militar em Feu Rosa, Serra, durante greve da PM no Espírito Santo Crédito: Antonio Carlos Aprigio/ VC no ESTV - fevereiro/2017

Mulheres bloquearam saída e entrada de policiais 

Era 3 de março de 2017 quando, logo cedo, por volta das 6h30, um grupo de mulheres e filhas de policiais militares protestava em frente a um destacamento em Feu Rosa, na Serra. Em suas mãos, cartazes com os dizeres "Não suportamos tanto descaso", "Nossos policiais merecem Justiça e dignidade", "Cumpra-se a lei. Correção salarial já" e "A polícia que mais diminui índices no Brasil tem o pior salário".

As mulheres bloqueavam o acesso ao destacamento e, com isso, nenhuma viatura conseguia sair para atender os bairros da Grande Jacaraípe, Nova Almeida, Manguinhos, Feu Rosa e Vila Nova de Colares. Naquele momento, a Polícia Militar informou que acompanhava o protesto de forma pacífica, mas não se manifestou sobre as demandas das manifestantes.

No dia 4, os protestos se espalharam por outros municípios e os policiais deixaram de ir às ruas em todo o Estado. Na Capital, as manifestações se concentraram em frente ao Quartel do Comando-Geral (QGC) de Maruípe. 

Esposas de policiais manifestaram em frente ao Quartel da Polícia Militar em Maruípe
Manifestantes protestam em frente ao quartel da Polícia Militar na Avenida Maruípe Crédito: Guilherme Ferrari - 07/02/2017

Caos nas ruas

A falta de policiamento nas ruas fez o Espírito Santo enfrentar uma restrição social antes mesmo do confinamento devido à pandemia de Covid-19. A insegurança nas cidades, não só na Região Metropolitana, mas também em municípios do interior capixaba, levou os moradores a ficarem reféns da criminalidade dentro de suas próprias casas, criando um verdadeiro estado de sítio.

O medo de sair às ruas não era em vão. Sem segurança, deu-se início a um verdadeiro massacre, com homicídios, latrocínios, vítimas de balas perdidas e confrontos com a polícia. Em um só dia, 41 pessoas perderam a vida. No Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, as 15 geladeiras encheram-se rapidamente, e os corpos começaram a se empilhar pelo chão. Foi preciso uma força-tarefa de peritos para identificar todos eles. Nos cemitérios, os coveiros relataram enterros sucessivos. Teve família que precisou, por conta própria, abrir a cova para conseguir enterrar seus parentes.

Levantamento feito com base em dados obtidos com exclusividade por A Gazeta mostrou que mais da metade das vítimas nunca tinha sido condenada por praticar crimes.

Dos 192 mortos identificados pela reportagem, 94 tinham alguma condenação ou respondiam na Justiça por algum crime quando morreram. Esse número equivale a 48,9% das pessoas que perderam a vida de forma violenta durante os 22 dias em que militares não saíram às ruas. Outros 51,1% não tinham processos na Justiça.

Um dos casos é o de Luciano da Conceição Lima, de 21 anos, de Vitória. Ele e um amigo foram assassinados no bairro Conquista, na Capital, em 5 de fevereiro. A mãe de Luciano, Luziene de Lourdes Oliveira da Conceição, de 40 anos, ouvida pela reportagem seis meses após o fim da greve, disse que acordou naquele dia com um mau pressentimento. "Eu não sei o que aconteceu porque os dois eram pessoas boas. Os dois morreram inocentes, isso eu tenho certeza”, desabafou, à época.

Assista abaixo ao relato dos pais de Luciano, gravado em 2017:

Ao final da greve, que ocorreu de 4 a 25 de fevereiro deste ano, a contagem era de 200 homicídios, com base em dados do Sindicato dos Policiais Civis que divulgava os dados todos os dias durante a paralisação.

Houve ainda aumento expressivo no número de carros roubados. Apenas nos três primeiros dias, foram 170 veículos retirados de seus donos, o que levou a um grande número de ocorrências e delegacias lotadas, com pessoas aguardando horas em filas por atendimento.

A insegurança se espalhou de tal forma que diversos serviços foram afetados, com lojas e supermercados sendo invadidos e saqueados. A cena de centenas de pessoas saqueando lojas repercutiu em todo o país. No total, o prejuízo à economia capixaba foi de R$ 2,1 bilhões, considerando as perdas na indústria, comércio e setor de serviços.

Os ônibus também passaram a ser alvos dos criminosos, sendo incendiados e depredados. Por conta disso, a circulação ficou suspensa por quatro dias.

Militares do Exército foram para as ruas reforçar a segurança durante greve da PM no ES
Militares do Exército Brasileiro intervém durante protesto de manifestantes em frente a quartel da Polícia Militar na Avenida Maruípe Crédito: Guilherme Ferrari

Governador internado e Exército nas ruas 

Em 5 de fevereiro, o então vice-governador Cesar Colnago assumiu interinamente o comando do governo do Estado, uma vez que  governador Paulo Hartung estava internado desde o dia 3, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para a retirada de um tumor na bexiga.

No dia 6, com Colnago à frente da gestão estadual, o governo trocou o comando da PM. Na ocasião, saiu Laércio Oliveira e assumiu o coronel Nylton Rodrigues.

Para tentar manter a presença nas ruas, o governo estadual pediu ajuda do Exército e da Força Nacional. A chamada Operação Capixaba começou no dia 6. Ao todo, 3.169 homens das Forças Armadas, sendo 2.637 do Exército, 382 da Marinha e 150 da Força Aérea, além de 287 militares da Força Nacional, patrulharam esquinas, rodovias e coletivos.

Mesmo com o Exército nas ruas, o medo ainda tomava conta da população, tanto que lojas, escolas, postos de saúde e agências bancárias começaram a manhã do dia 7 fechadas. Já os ônibus só voltaram a circular depois das 9h.

Lojas foram invadidas e saqueadas durante greve da Polícia Militar no Espírito Santo
 Loja Ricardo Eletro, em Goiabeiras, sendo saqueada durante a greve Crédito: Ricardo Medeiros

Negociações foram marcadas por tensão

Hartung voltou ao Estado dia 7 e deu uma entrevista coletiva, no dia seguinte, afirmando que a greve era ilegal, inconstitucional e estava tornando a população capixaba refém do movimento. Ele continuou licenciado por questões de saúde e reassumiu o comando do Executivo estadual no dia 13.

No dia 14, as mulheres manifestantes enviaram uma carta a Hartung, na qual informavam que haviam desistido de pedir reajuste salarial, mas queriam melhorias para a categoria. A segurança começou a voltar ao controle do Estado e mais de 1 mil policiais voltaram às ruas. Na ocasião, o governo anunciou a demissão de 161 agentes.

Paralelamente, a Justiça impôs multa de R$ 10 mil a dez mulheres por protestarem na porta de batalhões, enquanto o governo abriu 155 investigações contra policiais. No dia seguinte, 15 de fevereiro, o protesto na frente do Comando-Geral da Polícia Militar esvaziou. A Força Nacional teve sua permanência no Estado prorrogada por 20 dias, com o Exército assumindo a segurança do Carnaval de Vitória.

Em 22 de fevereiro, foi revelado que 2.851 policiais militares, cerca de 30% da corporação, respondiam a inquéritos internos. Enquanto o efetivo nas ruas começava a se normalizar em 23 cidades, 55 municípios ainda seguiam sem o policiamento total.

Greve da PM
Greve da PM foi capa de A Gazeta ao longo do mês de fevereiro de 2017 Crédito: Cedoc - A Gazeta

Três dias depois, em 25 de fevereiro, após uma reunião de nove horas mediada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-ES), as mulheres e o governo chegaram a um acordo. Com isso, os acampamentos em frente aos batalhões foram desfeitos, e o governo anunciou que 100% do efetivo havia retornado ao trabalho.

Com o fim da paralisação, o Executivo anunciou, em 1º de março, um plano de reestruturação da Polícia Militar, que incluía a criação de novas companhias, o remanejamento de policiais e a extinção de unidades especializadas como o Batalhão de Missões Especiais e a Ronda Tática Motorizada. Por fim, em 4 de março, os militares da Operação Capixaba começaram a deixar o Estado após 31 dias de atuação

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