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Entenda a guerra do tráfico que tem causado terror na região do Centro de Vitória

Com os tiroteios, as facções querem conquistar mais territórios para vender drogas; A Gazeta fez um levantamento de quem comanda o tráfico nos bairros da Capital capixaba que vêm sofrendo com ataques

Tempo de leitura: 6min
Vitória
Publicado em 20/07/2022 às 07h47

Quem está por trás dos tiroteios que deixaram os moradores da região central de Vitória em pânico entre a noite de segunda-feira (18) e a madrugada de terça-feira (19)? A reportagem de A Gazeta foi atrás de respostas e montou um raio-X das facções criminosas que têm instaurado terror na Capital.

Durante a madrugada, confrontos armados foram registrados em quatro comunidades da região central de Vitória: Piedade, Alagoano, Moscoso e Cabral. Quem vive no entorno também foi acordado pelo barulho das rajadas de tiros.

Os bandidos mostraram o poder de fogo nas redes sociais: vídeos gravados no Morro do Moscoso (veja abaixo) mostram grande quantidade de armas de grosso calibre. A intenção era amedrontar os traficantes rivais.

De acordo com o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Douglas Caus, a quadrilha que atua no Morro do Moscoso pertence à facção criminosa A Família Capixaba (AFC). Aliado à Piedade, à Fonte Grande, ao Alagoano e à Ilha do Príncipe, o grupo conta com o apoio do Morro dos Gamas, em Cariacica.

"Esse apoio é com munições, armas e outros bandidos para darem ataques e ganharem território", explicou o comandante-geral.

Do outro lado, rival de Moscoso, está o Morro do Cabral. Ligado ao Morro da Capixaba, o grupo criminoso dos bairros pertence ao Primeiro Comando de Vitória (PCV), uma das maiores facções do Espírito Santo, com sede no Bairro da Penha e em São Benedito. Esses dois últimos fazem o papel do "apoio", enviando armas e "soldados" do crime.

A briga entre os rivais, de acordo com informações apuradas na região, quando a TV Gazeta esteve no local, teria estourado após um homicídio que aconteceu no último domingo (17), na Ilha do Príncipe. Desde então, um grupo começou a atacar o outro.

Coronel Caus preferiu não dar detalhes sobre o que seria o estopim da guerra: "Temos essa informação, mas ela está sendo mantida dentro do inquérito policial. Não vamos adiantar essa informação para não prejudicar o trabalho da Polícia Civil".

Os tiros ouvidos pelos moradores da região central de Vitória foram disparados de ambos os lados. "É um morro atirando contra o outro. Cabral foi lá dar um ataque. Começam a atirar a esmo, de longa distância, são inconsequentes. Quando a PM chega, corre todo mundo. Foram disparos para mostrar poder, e também foi troca de tiros entre esses indivíduos pela disputa territorial", afirmou coronel Caus.

Com os disparos, a intenção do grupo é conquistar território para conseguir mais bocas de fumo e engordar o caixa das facções criminosas. "Eles disputam território, o que significa mais pontos de venda de drogas. A lógica deles é capitalista", pontuou o comandante-geral da PM.

PRISÃO DE GERENTE DO TRÁFICO QUE APARECE EM VÍDEO

Um dos criminosos que aparece nos vídeos que circularam nas redes sociais durante a madrugada já está atrás das grades: trata-se de Rafael Siqueira, de 35 anos. Ele é apontado pela polícia como gerente do tráfico de drogas do Moscoso.

Ele foi preso dentro de uma casa, após denúncias. Com ele, havia duas pistolas, carregadores, duas placas de colete balístico, quatro celulares e até munições de fuzil (veja abaixo).

Material apreendido com gerente do tráfico do Moscoso

Munições e armas apreendidas com homem apontado como gerente de tráfico do Morro do Moscoso
Morro do Moscoso: após ostentar armas em vídeo, gerente do tráfico é preso. Polícia Militar
Armas, munições e colete balístico apreendido durante patrulhamento no morro do Moscoso, em Vitória
Homem é preso com armas e drogas em Vitória. Polícia Militar
Homem é preso com armas e drogas em Vitória
Homem é preso com armas e drogas em Vitória

Uma das pistolas, de acordo com o coronel Caus, aparece nos vídeos. "A prisão dele é importante porque desarticula parte do tráfico do Morro do Moscoso. Ela tira das ruas um traficante que estava ostentando armas e, inclusive, participou do tiroteio da madrugada."

Além de Rafael, outro rosto conhecido aparece no vídeo: identificado apenas como Manolo, ele é apontado como chefe do tráfico do Morro do Moscoso. "Além dele, estamos à caça do Célio Junior, liderança do Morro do Cabral", revelou Caus.

POLICIAMENTO REFORÇADO POR TEMPO INDETERMINADO

No início da tarde de terça-feira (19), o coronel Marcio Celante Weolffel, secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, afirmou que o policiamento na região está reforçado por tempo indeterminado, com apoio do Batalhão de Missões Especiais (BME) e do Batalhão de Ações com Cães.

Em entrevista ao vivo durante o ES1, da TV Gazeta, Celante disse que o reforço começou ainda na madrugada. "O comando da Polícia Militar já está com o efetivo disponível e trabalhando 24h (na região dos tiros). O que vamos fazer é, com as forças especializadas – o Batalhão de Missões Especiais e o de Ações com Cães –, dar um apoio e reforço maior nessas comunidades. Já iniciamos pela parte da madrugada (o reforço). Mas, enquanto for necessária a saturação naquele local, assim vamos fazer."

Coronel Caus ressaltou que o reforço vai acontecer em todos os bairros envolvidos na guerra. "A Força Tática vai até a madrugada (de quarta-feira, 20) e depois será substituída pelo Batalhão de Ações com Cães. Serão de 12 a 15 cães e 30 homens, mais o BME, com mais de 20 homens."

Coronel Douglas Caus

Comandante-geral da Polícia Militar

"São tropas que têm a determinação de qualquer tipo de enfrentamento por parte desses criminosos na medida do estrito cumprimento do dever legal, fazer o uso da força. E aí eu falo força da arma de fogo mesmo. Não vamos recuar em relação a esses indivíduos."

HÁ SOLUÇÃO PARA TANTA VIOLÊNCIA?

Em meio a tantos ataques, a sensação de medo é constante. Qual a solução para o problema, que se estende por anos? Pablo Lira, diretor de integração do Instituto Jones dos Santos Neves e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse que a resposta é complexa.

"É muito importante a gente cobrar dos candidatos, não só ao governo e à presidência, mas cobrar dos deputados para dar uma priorização e atenção numa reforma das leis penais brasileiras. Outro caminho importante é esse trabalho de inteligência, tecnologia, a repressão qualificada. É importante combinar (esse trabalho de repressão) com políticas sociais no campo da educação, do planejamento urbano", ponderou o especialista.

Ele ainda lembrou que o código penal é antigo. "É uma vergonha nosso país, com níveis altíssimos de violência, ter um código penal que foi pensado na década de 1940. O tipo de crime que acontecia nessa época é muito diferente do de hoje. Esse fator da impunidade acaba fazendo com que esses jovens ameacem a população e a imprensa em plena luz do dia."

RELEMBRE OUTROS ATAQUES NA REGIÃO

2019: Três mortos e dois baleados no Moscoso

Luiz Fernando da Conceição Gomes, de 18 anos, Patrick Oliveira de Sousa, de 26 anos, e Wemerson da Silva Lima, de 23 anos, foram assassinados na parte mais alta do Morro do Moscoso, divisa com o Morro da Piedade, no dia 14 de janeiro de 2019. Dos três, apenas Wemerson tinha passagem pela polícia.

Os disparos aconteceram na praça do bairro, onde moradores costumavam se reunir. Na época, uma base fixa da PM já estava instalada na parte baixa do bairro. Além dos mortos, outras duas vítimas foram baleadas: uma adolescente, de 15 anos, e um coletor de lixo, de 28. Após o tiroteio, uma moradora ainda teve a casa invadida por bandidos, que conseguiram fugir.

2018: Irmãos Ruan e Damião assassinados na Piedade

Quatro homens armados invadiram o quintal da casa dos irmãos perguntando "cadê o patrão". Na ocasião, Ruan respondeu que não sabia quem eles estavam procurando e tentou conversar. Os criminosos, que simulavam ser policiais pelo linguajar, disseram que o jovem deveria sair com eles para conversar e ser revistado. A vítima obedeceu.

Ao perceber que o irmão foi abordado, o pedreiro Damião, que fazia trabalhos sociais dando aulas de capoeira e era passista de escola de samba, foi atrás do grupo pedindo que não levassem o irmão, momento em que foi surpreendido por vários disparos.

À época do crime, a polícia informou que foram mais de 60 disparos. A perícia encontrou 22 perfurações no corpo de Ruan e 20 no corpo de Damião. Os irmãos não tinham passagem pela polícia e eram queridos na região.

2018: Com medo, moradores deixam a Piedade

Após a morte dos irmãos Ruan e Damião, a disputa entre facções rivais se acirrou e uma onda de violência tomou conta da região, fazendo com que moradores deixassem suas casas. Criminosos invadiam as residências e escolas ficaram sem aulas.

Somente em 2018, 32 casas foram abandonadas e 93 pessoas deixaram o bairro. A área do alto do morro foi a que sofreu maior impacto, com 90% dos moradores deixando as residências.

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